Livro reúne 1.608 cartas e amplia conhecimento sobre Euclides da Cunha

O livro Diálogo epistolar de Euclides da Cunha, lançado pela Editora Unesp, reúne 1.608 cartas trocadas pelo escritor entre 1883 e 1909. Desse total, 918 documentos são publicados pela primeira vez.

Resultado de cerca de duas décadas de pesquisa, o volume reúne cartas escritas e recebidas por Euclides da Cunha em uma mesma edição. A organização, o estabelecimento do texto, o prefácio e as notas são assinados por Leopoldo M. Bernucci e Felipe Pereira Rissato.

A publicação tem 3.420 páginas e apresenta uma parcela significativa da produção epistolar do autor de Os sertões. O levantamento também permite acompanhar relações literárias, políticas, profissionais e pessoais mantidas por Euclides durante diferentes momentos de sua vida.

Correspondência de Euclides da Cunha ganha novas cartas

Entre as 1.074 cartas escritas por Euclides reunidas na edição, 482 são integralmente inéditas. Já entre as 534 mensagens recebidas pelo escritor, 436 nunca haviam sido publicadas.

Segundo os organizadores, o conjunto amplia em 133% o universo de 690 cartas de Euclides anteriormente publicadas em livros ou de forma dispersa.

A pesquisa envolveu acervos públicos e particulares no Brasil e no exterior. O trabalho também exigiu a decifração de diferentes manuscritos, já que as cartas recebidas pelo escritor foram produzidas por mais de 450 pessoas.

Além de localizar documentos, os pesquisadores revisaram transcrições publicadas anteriormente e identificaram erros em edições anteriores da correspondência.

Cartas revelam uma rede de relações

A reunião das mensagens escritas e recebidas permite reconstruir diálogos que antes apareciam separados. Entre os interlocutores estão Reynaldo Porchat, Francisco de Escobar, Vicente de Carvalho, José Verissimo, Oliveira Lima e Alberto Rangel.

A literatura aparece entre os temas recorrentes, mas as cartas também tratam de ciência, política, cultura, história e assuntos pessoais.

O material ainda acrescenta informações à biografia de Euclides da Cunha. Entre os episódios registrados estão sua matrícula na Escola de Medicina e situações relacionadas à sua atuação profissional na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo.

As cartas também trazem novos detalhes sobre os riscos enfrentados durante a viagem ao Purus e sobre a ajuda prestada por Euclides a Dinorah, irmão de Dilermando de Assis, para ingressar na Escola Naval.

Outros documentos registram projetos literários e intelectuais que não chegaram a ser concluídos, como As origens do Brasil contemporâneo, História sul-americana e Um paraíso perdido.

Correspondência registra expedição ao Purus

A expedição amazônica de 1905 ocupa uma parte importante da nova edição. Somente daquele ano, são 356 cartas inéditas.

Os documentos registram tensões entre Euclides e Pedro Alejandro Buenaño, chefe da comissão peruana que acompanhou a missão brasileira de reconhecimento do Alto Purus.

As mensagens abordam questões relacionadas a fronteiras, cartografia e condições da expedição. Também aparecem denúncias de escravização de peruanos em seringais brasileiros.

O conjunto inclui ainda correspondência sigilosa entre Euclides e o barão do Rio Branco, com cartas que utilizavam códigos.

Livro apresenta diferentes facetas do escritor

A correspondência também amplia a compreensão sobre Euclides para além da imagem associada ao autor de Os sertões.

Nas cartas aparecem questões relacionadas à burocracia, dificuldades financeiras e profissionais, saúde, epidemias e política republicana. Também há registros de amizades, humor e preocupações pessoais.

A linguagem varia conforme o destinatário. Em cartas íntimas, os documentos revelam maior informalidade e franqueza. Já nas mensagens dirigidas a superiores, aparecem maior formalidade e cuidado na construção do texto.

Dessa forma, Diálogo epistolar de Euclides da Cunha também funciona como documentação sobre o Brasil entre o final do Segundo Reinado e os primeiros anos da República.

Ao reunir em sequência cartas enviadas e recebidas, a edição permite acompanhar as relações intelectuais e políticas que cercaram Euclides e contextualizar diferentes momentos de sua trajetória.

Pesquisa reúne especialistas em Euclides da Cunha

Leopoldo M. Bernucci é professor titular de estudos latino-americanos na Universidade da Califórnia, em Davis. Também foi professor visitante da Universidade de São Paulo (USP) e lecionou em universidades dos Estados Unidos.

Felipe Pereira Rissato é pesquisador independente, publicitário de formação e técnico bancário. Sua pesquisa concentra-se em Euclides da Cunha e Machado de Assis, com levantamentos de textos desconhecidos e iconografia fotográfica.

Entre suas descobertas relacionadas a Euclides está o primeiro pseudônimo utilizado pelo escritor, Ícaro, identificado em textos publicados em 1883, quando ele tinha 17 anos.

Serviço

Livro: Diálogo epistolar de Euclides da Cunha
Organização, estabelecimento de texto, prefácio e notas: Leopoldo M. Bernucci e Felipe Pereira Rissato
Coordenação: Leopoldo M. Bernucci e Francisco Foot Hardman
Editora: Editora Unesp
Páginas: 3.420
Formato: 16 x 23 cm
Preço: R$ 240
ISBN: 978-65-5714-603-3 (EPUB)