8 ago 2026, sáb
  1. “Os Canalhas Também Envelhecem” é apresentado como uma obra conceitual. Em que momento surgiu a ideia de contar uma história contínua ao longo de todo o álbum?

    É uma obra conceitual no sentido de que há uma linha lógica, que há um porquê de todas as coisas e os elementos que atribuem sentido ao trabalho são utilizados para construí-lo. Eles têm profundidade suficiente para que haja conceito, mas não porque a história tá numa linha temporal de início, meio e fim.

    De fato, o início, meio e o fim entre dois ou mais seres humanos é o que é a história de fato, né? Desde o início da minha carreira, na verdade, é a história das relações. Daí esses estalos do conceito, eles são muito mais sobre onde as coisas estão acontecendo, não tanto sobre o quê, é com que clareza os personagens interpretam que estão a o que tá acontecendo, sabe? É muito mais sobre isso, sobre uma evolução dos personagens.

    1. O título do disco desperta curiosidade. Quem são esses “canalhas” que envelhecem e qual a principal reflexão que você pretende provocar no público?

    Canalhas somos todos nós. Como no conceito de Clóvis Barros, a ideia de que somos todos canalhas e que a tentação constante da natureza humana é canalhice, né, acima da ética, acima do bem-estar comum, é uma das principais provocações porque já democratiza de cara a ideia de canalhice e aí vão ter os outros desdobramentos, né?

    O do sentido original final da frase de você não subestimar a aparência das pessoas, porque não é porque elas estão envelhecendo que elas estão amadurecendo, vai ter o meu sentido atribuído, que é muito da questão da colheita, né, do remorso, e você realmente colher o fruto das suas escolhas, a consequência dos seus atos, vão ter algumas visões atribuídas a isso aí, tornam o título provocativo suficiente para convidar a atenção para essas histórias estão sendo contadas. E são todas histórias ambíguas onde o canalha, ele não tá sempre do mesmo lado, então, para reforçar essa visão democrática de que de fato somos todos canalhas, né? E esses canalhas que envelhecem somos nós. E aí com isso para cada um é uma questão um particular teu.

    1. O álbum aborda temas como culpa, arrependimento, amor e redenção. Quanto dessas emoções nascem de experiências pessoais e quanto vem da observação de outras histórias?

    Culpa, arrependimento, amor e redenção são capítulos possíveis na vida de qualquer ser humano normal, que experiencia a vida, né? A experiência humana com a graça de sentir, com a possibilidade de sentir, de experienciar os sentimentos. Os erros, as quebras, os conceitos, eles vão fazer parte disso naturalmente., senão a gente não conseguiria crescer. 

    O trabalho é 100% autobiográfico, mas não da forma que se espera, creio eu. Nem toda a situação, nem todo o sentimento, ele é isolado. Ele é principalmente um sentimento que você vai ter ali na linha do tempo da sua vida. Então, muitas vezes, eu vou conseguir sintetizar agora um sentimento que eu tive anos atrás, porque eu senti algo agora numa situação presente, que me fez acessar aquilo de uma maneira mais direta ou mais clara, o que se mostrou um padrão, sabe? Então, a gente vai imprimir isso de diversas maneiras. Não é tão preto no branco como uma música é sobre uma situação da vida e acabou. Então, o trabalho é 100% autobiográfico, ao mesmo tempo que ele vem de observação de outras situações, mas isso também é o que a gente absorve da vida, isso também é o que a gente consegue aprender como indivíduo, é com a experiência do outro também e como isso vai lincar com as nossas próprias experiências, né? Mas principalmente das nossas experiências ao longo da vida e como elas mudam ou como a gente muda diante delas.

    1. Você construiu sua carreira transitando entre diferentes gêneros musicais. Como foi o processo de unir brega, forró, sertanejo, rap, R&B e música eletrônica sem perder sua identidade artística?

    Eu sinto que essa é na verdade toda a minha identidade artística, é este não receio de tentar, principalmente, coisas que eu não domino, coisas que eu não sei tudo a respeito. Né? Muito pelo contrário, quanto mais eu domino técnicas, estilos e tudo mais, menos interessantes eles se tornam para mim, porque eles têm menos a me oferecer agora em questão de aprendizado. Então, tentar, principalmente, territórios que eu não conheço, eu creio que é a alma de tudo que eu faço. Talvez isso dê um senso de identidade para quem acompanha meu trabalho, mas é justamente o experimento e contrapor a minha própria identidade a territórios desconhecidos que faz o meu trabalho ser o que é.

    Boa parte das referências sonoras que eu usei nesse disco, elas já são antigas na minha vida como consumidor de música, como ouvinte, mas a maioria, praticamente, 100% é inédita para mim como artista e, principalmente, como produtor, que é um papel que eu resolvi bancar de forma mais expressiva nesse trabalho. Então, foi bem desafiador nesse sentido, mas essa minha vontade de mexer com o que eu não conheço e ver o que isso arranca de mim como profissional é a mesma desde sempre. É uma prova disso o trabalho.

    1. O disco coloca as sonoridades nordestinas no centro da narrativa. Como você enxerga o momento atual da música produzida no Nordeste e sua força no cenário nacional?

    Para entender o momento atual, você precisaria escolher um ponto de vista, né? E aí vai ter, pela extensão territorial que a gente tem e a vastidão cultural, a gente vai ter extremos do mercado da música nesse momento, né? Vai ter uma visão de um artista independente como eu e vai ter uma visão de artista extremamente bem empresariado, assessorado e estruturado. E é muito uma questão de ótica para o momento.

    Porém, acho o momento extremamente propício para tudo, para o artista independente inclusive. Com as ferramentas que a gente tem, tenho visto um movimento crescente de artistas nordestinos e apologeticamente, artistas orgulhosamente nordestinos que mantêm a sua originalidade ainda assim, sem perder essa ligação com o tradicional. Por outro lado, também tenho observado um movimento pouco negativo em relação a artistas mais tradicionais, como situações que eu vi recentes de Petrúcio Mourão e Flávio José, por exemplo, tendo problema com grade de show, tendo problema com horário em favor de um mainstream que necessariamente não é nordestino na maioria das vezes. Então, a gente tem essa problemática no mercado da música, né? Mas musicalmente, a gente está muito bem servido de mentes, de artistas e de pessoas prontas para fazer. A gente só não pode deixar a árvore crescer de modo que prejudique a raiz.

    1. As participações de João Gomes, WIU, MC Tocha, MC Braz, Rafaella Santos e Mestrinho ampliam ainda mais a diversidade sonora do projeto. Como cada um desses artistas contribuiu para a construção do álbum?

    Inteiramente com a presença e principalmente com as texturas de voz de cada um. Acho que foi o maior critério de escolha na minha visão como produtor, talvez não como idealizador do projeto ou artista, mas na minha visão como produtor foi o principal critério. Eu gosto muito das texturas de voz de cada um deles.

    Eu mantive essa estética de paredão ao longo de todo o disco praticamente, só que as participações que vem principalmente nesses trabalhos mais peso assim, elas trazem cada uma a sua conversa com algo em particular, como por exemplo a presença de João em  “Vai Embora”, ela evoca muita coisa do forró das antigas e o som é muito um forró das antigas, porém ele tem uma pegada de paredão e tal e aí gera um leve contraste que é interessante. Já com o Will que você está mais acostumado a ver com trap o contraste é ainda mais interessante, porque ele traz uma coisa ali com autotune no forró de paredão, isso foi legal pra caramba. Com Tocha é absurdo a textura de voz, não tenho o que falar, o Tocha é incrível e ele acabou escrevendo no dia da gravação, isso foi muito massa, então vai um são contribuições para além assim, o som às vezes já tinha todo um caminho e a pessoa dá uma ótica toda nova, né.

    O Brás, por exemplo, é um dos melhores exemplos de adição ao que o álbum não tinha até o momento, porque ele mandou um som totalmente numa estética que ele tá habituado a fazer de funk e tal e a gente deu uma virada pra um brega recifense e isso foi outro ar pro som e eu achei muito massa de verdade.

    Com Rafaella, por exemplo, também foi um dos trabalhos que eu achei mais diferentes, por incrível que pareça, porque soa muito como uma bachata, a bachata não tá tão distante do brega e a gente consegue fazer alguns paralelos, mas da forma como foi feita até o BPM que foi feito e tal, a coisa de mudar de tom no meio da música, traz muito o quanto a presença dela foi expressiva pro trabalho.

    E Mestrinho se fala, além de fechar “Olho por olho”, que é também uma linguagem forró das antigas, ainda na pegada do paredão, ele colocou sanfona em “Olho por olho”, em  “Todas as coisas que brilham” e ainda em “Te amo muito”, que são músicas que precisavam demais assim da presença dele e eu apenas não sabia.

    Todos eles tiveram uma expressão absurda em cima do que o trabalho seria, isso aí é sem é fora de questão.

    1. A faixa de abertura apresenta um personagem contraditório e imperfeito. Você acredita que o público se conecta mais facilmente com personagens que assumem suas fragilidades?

    Não que o personagem não seja contraditório e imperfeito, o que ele é, e é bom que seja, mas se você notar em 90% da faixa é sobre o que o outro diz que ele é, como ele é visto pelo outro e não só visto, como ele é apontado pelo outro, e isso é algo que eu acho interessante deixar porque isso muda a ótica sobre a composição e isso diz muito mais sobre o outro do que sobre o próprio personagem, mas sim, eu acho que o público se conecta mais facilmente quando eu me mostro frágil, quando eu me mostro vulnerável, expor fragilidade, expor vulnerabilidade, não é nada mais do que assumir a sua condição humana. E sendo humano, não há como você se colocar de fora desse entendimento, por isso que eu falo que meus trabalhos conversam com todos ou que pelo menos a maioria. Não tem como você ficar de fora de um entendimento que é humano demasiadamente. E acho que é aí que tá todo o ponto do meu trabalho, nessa vulnerabilidade sem medo, porque no final das contas não é sobre admitir ou não algo, é sobre o quanto esse processo dói para você. Sabe? O quanto esse processo é acessível para você, admitir certos sentimentos, se ver de determinadas maneiras, se ver vulnerável, se ver fraco e a música, a arte de modo geral, ela tende a ser esse canal.

    Eu vejo que meu maior impacto acaba sendo o fone de ouvido das pessoas. Não é uma música para ouvir em grupo, é uma música pela qual você se sente abraçado quando você tá sozinho com aquele sentimento que o acesso até ele é bem difícil, bem complicado, é intransferível. Acho que tá aí um grande ponto e por isso o público se conecta muito mais, eu me conecto muito mais com trabalhos assim, porque a gente é muito humano, muitíssimo.