Em que momento você percebeu que a realidade vivida a bordo era muito diferente da imagem de glamour frequentemente divulgada sobre esse mercado?
– Nos primeiros minutos, eu já esperava algumas dificuldades, mas a comida intragável e a forma como era tratado pelo meu supervisor direto (como uma sobrecarga de trabalho surreal que eu não tinha consciência) foram divisores de água.
Ao longo dos oito anos em companhias de cruzeiro, quais episódios mais evidenciaram a precarização das relações de trabalho e marcaram sua trajetória?
– Acredito que o momento evidenciado na capa do livro. No qual um bartender estava sendo racista com muitos tripulantes do departamento do bar e o gerente como amigo pessoal dele o protegeu, os canais de denúncia por e-mail foram ineficazes. Como reportar uma situação ao supervisor se ele é amigo pessoal do agressor?
O livro pode ser visto como uma denúncia, mas também como um alerta. Qual foi sua principal preocupação ao decidir publicar essas histórias?
Durante sua experiência, você encontrou mecanismos eficazes de proteção ou canais para denunciar abusos dentro das companhias? Como avalia esse cenário hoje?
– RH e emails de denúncia disponibilizados pela empresa são completamente ineficazes.
Após o lançamento da obra, você recebeu relatos de outros brasileiros que viveram situações semelhantes? O que essas histórias revelam sobre a realidade do setor?
– Até situações piores que eu acrescentaria em entrevistas numa reedição. A que mais chamou minha atenção foi a do Márcio que adoeceu, teve paralisia a bordo e desembarcou numa cadeira de rodas e não teve assistência da MSC.
Na sua avaliação, quais mudanças seriam fundamentais para garantir condições mais dignas de trabalho aos profissionais embarcados em cruzeiros internacionais?
– Revisão das cargas horárias e intervalos, tratamento mais empático por parte de colegas, hóspedes e supervisores. Mais voz e oportunidade de ouvir a tripulação é o que mais incomoda. Ao meu ver as piores coisas são os simulacros de emergência e outras atividades como reuniões de departamento durante as horas que deveriam ser destinadas a descanso.
Que tipo de impacto você espera provocar entre leitores que sonham em trabalhar em navios e entre empresas e autoridades ligadas ao setor marítimo?
– Para quem vai embarcar o livro não visa desencorajar, porém alertar e “vacinar” novos tripulantes para situações que eles possam se deparar. Para as autoridades do setor marítimo o objetivo do livro é fazer com quem tripulantes sejam ouvidos, e se eu conseguir melhorar a vida dessa população 1% com esse livro já estarei muito realizado, pois é o principal objetivo da obra.
Depois de transformar sua vivência em literatura-reportagem, quais são seus próximos projetos e como pretende seguir utilizando o jornalismo como ferramenta de denúncia e transformação social?
– Mais um livro reportagem sobre os bastidores da carreira como corretor de imóveis, visando esclarecer ao que é possível adquirir o primeiro imóvel e compartilhar como funciona o por trás das cenas desse trabalho tão importante.

