A Casa Marques Pereira testa uvas europeias para avaliar sua adaptação ao terroir da Serra Gaúcha. Em Monte Belo do Sul (RS), a vinícola mantém uma área experimental com variedades ainda pouco comuns na região.
Nebbiolo e Marzemino, originárias da Itália, passaram pelo processo de avaliação antes da implantação definitiva dos vinhedos. A Alvarinho, de Portugal, também integra o trabalho de seleção da propriedade.
O método envolve o cultivo de 25 a 50 mudas de cada variedade. As plantas são acompanhadas durante três safras para avaliar a resposta ao solo, ao clima e ao manejo.
Adaptação das uvas passa por três safras
Segundo Felipe Marques Pereira, da Casa Marques Pereira, a equipe observa inicialmente a sanidade das plantas. O período do ciclo também influencia a decisão.
Na Serra Gaúcha, variedades de ciclo muito longo podem alcançar a fase final de maturação em períodos com maior ocorrência de chuvas. Por isso, o produtor avalia o momento da colheita e os riscos associados.
O formato dos cachos também entra na análise. A equipe observa se eles são mais compactos ou abertos, além da espessura da casca e do comportamento das frutas durante a maturação.
“Uma uva estar adaptada são essas condições. Uma uva que a gente consiga colher dentro de um período mais seguro, que tenha poucos problemas de sanidade, que tenha uma boa concentração e qualidade de fruta”, explica Felipe.
Depois da avaliação no vinhedo, a análise segue para a produção dos vinhos. A etapa permite observar como as características das uvas se expressam nas condições de Monte Belo do Sul.
Nebbiolo e Marzemino passam por avaliação
A Nebbiolo é tradicionalmente associada ao Piemonte, na Itália. Na Casa Marques Pereira, a variedade foi testada sem a intenção de reproduzir os vinhos tradicionais de sua região de origem.
“Quando a gente plantou o Nebbiolo aqui, a gente não plantou esperando produzir Barolo. A gente estava apostando numa uva de qualidade para se produzir aqui, mas diferente das tradicionais”, afirma Felipe.
A mesma abordagem foi aplicada à Marzemino. O objetivo foi entender o comportamento da variedade nas condições da Serra Gaúcha, e não reproduzir o estilo dos vinhos italianos elaborados com a casta.
“Não estávamos buscando copiar o estilo do vinho Marzemino da Itália. Porque nós sabemos que nós temos condições aqui diferentes de cultivo”, afirma o produtor.
Assim, os testes consideram as características próprias do território brasileiro. A produção experimental permite comparar o comportamento das castas com referências de seus locais de origem.
Seleção também envolve melhoramento dos vinhedos
Após os testes, a Casa Marques Pereira utiliza a seleção massal como parte do processo de implantação e melhoramento das áreas de produção.
A técnica consiste em identificar as plantas que apresentam características consideradas adequadas e utilizar seu material para novas mudas. O procedimento também pode ser aplicado em áreas já existentes.
“Utilizamos esta técnica tanto na implantação de novas cepas como no melhoramento de áreas já existentes”, explica Felipe.
Segundo ele, a seleção ocorre ao longo dos anos. As plantas que apresentam melhor desempenho podem se tornar doadoras de material genético para novas mudas.
Alvarinho e Encruzado ampliam os testes
O trabalho também inclui variedades com referências de cultivo no Brasil. É o caso da Alvarinho, cujo comportamento já foi observado em regiões brasileiras como a Serra Gaúcha e a Campanha.
A experiência acumulada com a casta facilitou a decisão de incluí-la no projeto. A variedade, de origem portuguesa, já possui referências nacionais de produção.
Outra casta portuguesa que passou pelo processo de testes foi a Encruzado, originária da região do Dão. A Casa Marques Pereira implantou em 2025 uma área de produção comercial da variedade.
Segundo Felipe, a uva apresenta características que motivaram a aposta na Serra Gaúcha. Entre elas estão o frescor e um perfil aromático que inclui notas de lima, rosas e violetas, além de uma característica mineral.
Os vinhos elaborados a partir das variedades testadas chegaram ao consumidor como parte dessa experiência de adaptação. A proposta da vinícola é explorar o comportamento de diferentes castas nas condições do terroir gaúcho.
