Entrevista: Quarteto Enredado

Entrevista: Quarteto Enredado

1) “Fantasia Sertaneja” aprofunda a pesquisa do grupo sobre a música caipira. Em que momento surgiu a ideia de transformar esse universo no eixo central do álbum?

A ideia surgiu logo depois do lançamento do primeiro álbum, Alma Brasileira, foi pensando na proposta do grupo e no nome do primeiro álbum que surgiu a ideia do disco, Fantasia Sertaneja, que no início iria de chamar, Suíte Caipira. O grupo busca pesquisar, explorar, e criar diálogos com as características e sonoridades da música brasileira, que é muito vasta. O primeiro trabalho abordou alguns aspectos, o repertorio tentou criar um panorama geral da música brasileira. Pensando nisso surgiu a vontade de aprofundar a pesquisa em uma vertente especifica e muito significativa da “Alma Brasileira”, a cultura caipira e sua música, por nós vivermos no interior de São Paulo e a viola caipira ser um dos instrumentos do grupo, fez muito sentido direcionar o próximo trabalho para essa sonoridade. Mas, tivemos uma pandemia, e o Requiem, segundo trabalho do grupo, com músicas compostas durante a esse período, acabou tornando-se urgente para ser lançado e assim adiando a produção do Fantasia Sertaneja.

2) A viola caipira assume papel protagonista no disco. Como foi construir os arranjos a partir desse instrumento como fio condutor?

Escrever os arranjos com a viola como protagonista foi um processo interessante, ao mesmo tempo que existia uma direção de preservar diversas características dos ritmos e do gênero, também era muito importante que o resultado final soasse com a linguagem que o Quarteto Enredado já havia construído nos outros dois trabalhos. Precisava criar espaço para novas harmonias, novas texturas, novas formas de executar clássicos da música caipira, mas sem desconstruir e distanciar demais os temas dos elementos que são pilares da música caipira. Para fazer isso a viola em muitos momentos permaneceu fiel as tradições, mas o violão a guitarra e o baixo giraram em torno da viola trazendo outras sonoridades.

3) O álbum transita entre tradição e linguagem contemporânea. Como vocês equilibram respeito às raízes e liberdade criativa?

Um arranjo, no nosso ponto de vista, precisa dialogar com a música, ele não pode estar acima da obra, ele não pode ser pensado a partir da técnica de escrita musical ou de um instrumento, as notas propostas em um arranjo devem estar a serviço da música. Pensando assim, primeiro é importante entender como aquela melodia se comporta e o que ela está querendo dizer, entendendo esse momento é possível propor uma coloração que amplie ou contraste ou possibilite alguma sensação adicional. Outro aspecto que guiou os arranjos foram as letras das canções, mesmo que nós executamos as músicas de forma instrumental as letras foram fundamentais na construção dos arranjos, um exemplo está na melodia de Cuitelinho que faz parte da música Fantasia Sertaneja. O arranjo propõe uma abordagem impressionista, utilizando Eric Satine com referência, buscando criar a contemplação descrita pelo Eu Lírico da na primeira estrofe da música. 

4) A presença de ritmos como cateretê, guarânia, arrasta-pé, polca e pagode de viola amplia o repertório. Como foi o processo de seleção dessas referências?

O disco foi pensado para mostra um pouco dos ritmos da música caipira, que são muitos, não conseguimos mostrar nem metade da riqueza que essa cultura possui. O repertório foi selecionado a partir dos ritmos, pesquisamos qual música era significativa dentro de cada um dos ritmos. O mesmo foi aplicado para as músicas autorais, elas precisavam compor esse leque. O Fantasia Sertaneja tem treze músicas, apresentando doze ritmos diferentes, o único ritmo que se repete é o arrasta-pé que aparece no Suíte Caipira e em Moreninha Linda.

5) A “Suíte Caipira” dialoga com a tradição das suítes europeias. Como nasceu essa ideia e quais desafios ela trouxe para a composição?

A proposta do Quarteto é criar esse dialogo entre o clássico e o popular, a Suíte é essa busca de propor uma forma consagrada na música europeia, mas com a temática popular. O que conduz a suíte são os ritmos, por isso que todas as músicas da suíte possuem o nome do ritmo no título. Os arranjos foram criados para explorar as possibilidades rítmicas da música caipira, propondo variações nas levadas e nas conduções das linhas de baixo. Outro aspecto importante na criação da Suíte Caipira foi a criação de temas que dialogassem com a tradição da música instrumental popular, possibilitando espaços para solos e improvisos. Outras características dessas peças são os nomes de pássaros importantes do imaginário da região de Franca.

6) O trabalho combina elementos populares e eruditos. De que forma essa fusão contribui para a identidade sonora do Quarteto Enredado?

A fusão dos elementos populares e eruditos é o que define a identidade do Quarteto Enredado. Utilizamos a técnica erudita, tanto nas composições arranjos, quando na execução para exaltar a música brasileira, nosso foco é buscar criar possibilidades novas dentro do universa da música brasileira misturando com outras linguagens, principalmente com a música europeia.

7) Vocês revisitam clássicos como “Luar do Sertão” e “Moreninha Linda”. O que guia o processo de reinvenção dessas obras tão marcantes?

O arranjo de Luar do Sertão foi feito pensando em como o Quarteto, um grupo de música instrumental, poderia abordar uma canção. Primeiro seria importante que os instrumento e a voz tivessem o protagonismo dividido, por isso o solo de violão no inicio e no meio da música. Segundo de que forma o arranjo poderia valorizar as intenções da letra e ao mesmo tempo também se fizesse presente, por isso cada estrofe teve uma abordagem diferente do ponto de vista de tonalidade, harmonia, ritmo e contra cantos, a proposta era valorizar o que cada estrofe tinha de mais essencial.

O arranjo de Moreninha Linda, surgiu da percepção que a melodia da música possibilitava uma abordagem bachiana, o tema possibilitava o desenvolvimento de melodias complementares que foram criadas imitando, variando e desenvolvendo a melodia original. Esse arranjo também foi pensado utilizando a letra como fio condutor. Moreninha Linda conta uma história de desilusão amorosa, e as modificações harmônicas estão no arranjo para ressaltar a dor de um coração pisado pelo desprezo.

8) As participações de Ayrton Montarroyos, Bia Góes e Ricardo Valverde ampliam as camadas do disco. Como esses encontros aconteceram?

A participação do Ayrton, da Bia e do Ricardo foi um presente para o grupo. Ficamos impressionados com o entendimento que cada um teve do trabalho e da proposta do disco, eles tiveram muita sensibilidade para interpretar as canções. O Ayrton e a Bia potencializaram os arranjos das canções, parecia que já havíamos trabalhado junto antes, amarraram os arranjos com suas interpretações. O mesmo aconteceu com o Ricardo que amplificou as características da música negra que o arranjo de “Lá na Roça” propôs. Ele troce a canção para o universo do candomblé, trazendo uma qualidade que o grupo sempre buscou. 

9) O grupo já tem uma trajetória consolidada na música instrumental. O que este terceiro álbum revela de novo sobre a maturidade artística de vocês?

Nós acreditamos que nesse trabalho conseguimos atingir uma boa medida entre o popular e o erudita, acreditamos que fizemos um disco de música caipira com influencias de outros gêneros e linguagens, mas não deixa de ser caipira e isso para nós é uma grande alegria. Nele há um diálogo entre a simplicidade e a sofisticação, sem que um se oponha ao outro. O disco leva o caipira para dentro de o palco de um teatro sofisticado e o maestro descalço para o chão de terra da roça.

10) Franca e o interior paulista aparecem como referências importantes. Como o território influencia a sonoridade do Quarteto?

Estar em Franca é fundamental para a sonoridade do grupo, a moda de viola e a cultura caipira são elemento que fazem parte do imaginário do grupo e da nossa identidade.

11) O álbum foi viabilizado por políticas públicas de cultura. Qual a importância desses incentivos para a realização de projetos como este?

Esses incentivos são fundamentais pra que projetos como esse aconteçam. Sem eles, o disco provavelmente nem sairia, ou sairia de forma bem mais limitada.

Na verdade, não é só gravar um álbum. Existe todo um processo de pesquisa, criação, ensaio, e uma equipe inteira envolvida: assessoria de imprensa, marketing, designer, artistas visuais, iluminador, fotógrafo, cenografia… é uma cadeia grande de trabalho, que dificilmente se sustenta só pela lógica de mercado. As políticas públicas permitem manter a proposta artística com qualidade, sem precisar simplificar ou adaptar demais.

E tem um aspecto muito importante, que é o acesso. Esses editais viabilizam ações de democratização e acessibilidade, como entrada gratuita, circulação em espaços públicos, intérprete de Libras e atividades formativas, coisas que ampliam muito o alcance do trabalho e fazem com que ele chegue a mais gente.

12) Depois de “Fantasia Sertaneja”, quais caminhos o Quarteto Enredado pretende explorar nos próximos trabalhos?

O próximo disco foi idealizado no mesmo dia que o Fantasia Sertaneja, e já está sendo escrito. O próximo projeto pretende misturar o Quarteto Enredado com os tambores do candomblé (Rum, Rumpi e Lê) e uma orquestra completa. A ideia é focar nas raízes originárias da música brasileira oriundas do candomblé. Será um disco totalmente autoral, e com a maior fusão de elementos populares e eruditos que já fizemos.

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