28 jul 2026, ter

O estágio presencial obrigatório nas segundas licenciaturas EAD: entre a formação discente e o controle de corpos

Maxwell dos Santos

Professor de Linguagens e Ciências Humanas, mestre em Tecnologias Emergentes em Educação pela MUST University

A educação à distância (EAD) surgiu como uma proposta que, em essência, sempre esteve ligada à ampliação do acesso ao ensino superior. A ideia era possibilitar que pessoas com diferentes histórias de vida, condições de trabalho e realidades sociais pudessem ingressar em uma formação acadêmica sem que a distância geográfica ou a falta de disponibilidade de tempo fossem obstáculos intransponíveis.

No entanto, o novo marco regulatório da EAD, ao estabelecer a obrigatoriedade de estágios supervisionados presenciais para estudantes de segunda licenciatura, apresenta um desafio importante: até que ponto essa exigência contribui para a qualidade da formação docente e em que medida pode criar barreiras para aqueles que justamente buscam uma oportunidade de ampliar sua trajetória profissional?

É necessário considerar que muitos estudantes de segunda licenciatura não estão iniciando sua relação com a educação. Pelo contrário, grande parte deles já possui experiência profissional na área, atua como professor ou trabalha em contextos educacionais diversos. São pessoas que conciliam estudo, trabalho e vida familiar, enfrentando rotinas que exigem organização e esforço constantes. Também existem estudantes com diferentes condições de funcionamento, como pessoas no Transtorno do Espectro Autista (TEA), que podem apresentar desafios relacionados à interação social, à comunicação, à sensibilidade sensorial e à adaptação a ambientes com grande quantidade de estímulos,

Defender uma formação docente de qualidade não significa questionar a importância da prática pedagógica. O contato com a escola, com os estuantes e com os desafios reais a sala e aula é fundamental para a construção da identidade profissional do professor. A questão central está em compreender se a presença física em determinado espaço, por si só, deve ser o principal critério para comprovar essa formação.

A aprendizagem profissional não acontece apenas pela permanência em um ambiente específico, mas também pela capacidade de analisar situações, elaborar estratégias, refletir sobre a prática e transformar conhecimentos teóricos e ações pedagógicas. Quando a presença presencial é tratada como único caminho possível, outras formas de demonstrar competência acabam sendo desconsideradas.

Para alguns estudantes, especialmente aqueles que possuem dificuldades relacionadas à interação social com maior sensibilidade a estímulos sonoros e ambientais, a permanência prolongada em escolas de Ensino Fundamental II e Ensino Médio durante atividades de observação, corregência e regência pode representar uma barreira significativa. A contradição aparece quando defendemos uma educação inclusiva para os alunos da educação básica, mas não aplicamos os mesmos princípios de acessibilidade aos próprios professores em formação

Essa discussão também permite uma reflexão sobre as relações entre educação, norma e controle institucional. Michel Foucault, ao estudar as formas de organização das instituições modernas, analisou como determinados mecanismos podem atuar na disciplina nos corpos, na padronização dos comportamentos e na definição do que é considerado adaptado ou normal. Nesse sentido, quando a presença física se torna uma espécie de comprovação obrigatória de compromisso e aprendizagem, existe o risco de deslocarmos o foco da formação para a vigilância.

A pergunta que precisa ser feita é: formar um professor significa necessariamente submetê-lo a uma única experiência presencial padronizada ou significa avaliar sua capacidade de compreender, planejar, desenvolver e refletir sobre sua prática pedagógica?

Em casos específicos de segunda licenciatura, uma possibilidade seria pensar em modelos avaliativos alternativos à prática pedagógica em campo, capazes de reconhecer diferentes trajetórias profissionais. Uma alternativa seria a construção de um caderno pedagógico estruturado, possibilitasse ao estudante demonstrar suas competências por meio de produções como:

  • Quatro planos de aula completos e fundamentados;
  • Duas sequências didáticas com embasamento teórico e metodológico;
  • Um artigo científico sobre o ensino da área específica da licenciatura.

Uma proposta como essa não reduziria o rigor da formação. Pelo contrário, poderia ampliar as formas de avaliação, valorizando aspectos essenciais da docência, como domínio do conteúdo, capacidade de planejamento, a fundamentação científica, criatividade metodológica e reflexão crítica sobre o processo educativo.

A qualidade da formação docente não deve ser medida apenas pelo tempo em que o estudante permanece fisicamente dentro de uma escola, mas pela sua capacidade de compreender os desafios da educação e transformar conhecimento em prática pedagógica significativa.

Uma política educacional realmente comprometida com a inclusão precisa reconhecer que os próprios sujeitos responsáveis pela construção da escola talvez são diversos. E desejamos uma educação capaz de acolher diferentes realidades, é necessário que a formação dos professores também seja pensada a partir da acessibilidade, da flexibilidade e do respeito às singularidades.

A EAD não precisa de menos exigência, mas de uma concepção diferente de rigor: um rigor baseado na aprendizagem, na ciência, na avaliação de competências e no compromisso com uma educação verdadeiramente inclusiva.