1 – Você define “Na Janela do Vazio” como “um lugar, um estado, um intervalo entre o que somos e o que ainda está por surgir”. Como nasceu esse conceito e de que maneira ele guiou a criação do álbum?
O conceito surgiu em convergência com o próprio conceito da arte em si, onde através da subjetividade, alguém cria algo que desperta emoções em outro. Quando você abre a janela do vazio, presume- se que, de um lado temos tudo e do outro nada. No centro, a janela, que ocupa o mesmo lugar de quem percebe, observa, escuta e até mesmo, cria.
2 – Após uma trajetória consolidada na música instrumental, o que motivou a decisão de apresentar um trabalho tão pessoal, assumindo também o papel de cantor e letrista?
A vontade de criar já estava em mim mesmo antes de eu saber que iria virar um instrumentista. Através da escrita na minha pré-adolescência, em formas de desabafos pessoais, frases curtas e até poemas com rimas, percebi que poderia juntar esses escritos com a curiosidade que eu desenvolvia paralelamente por um violão velho do meu irmão, que fica guardado em seu quarto. As aulas de bateria eu fazia porque na banda que meus amigos sonhavam em montar, já tinha um baixista, um guitarrista e um vocalista, me restando somente a bateria. Acabei me apaixonando pelo instrumento. Mais para a frente descobri o jazz e fiquei fascinado. Me empenhei para entrar nesse universo da improvisação, porém, nunca parei de compor, tanto músicas instrumentais quanto canções. Apresentar esse trabalho, mesmo que tardiamente, é mostrar essa outra parte de mim que sempre existiu.
3 – A música entrou na sua vida por influência da sua avó, a pianista Joana Elias. Quais ensinamentos dessa convivência permanecem presentes na sua forma de compor e interpretar?
Entre as memórias mais antigas que tenho de mim, as que mais me marcam são as que guardo da minha avó. Lembro claramente dela me colocando sentado em cima do armário do piano e de ver ela tocando majestosamente ali de cima, com a visão das minhas perninhas balançando e as teclas invertidas sendo tocadas por suas mãos calejadas. Também lembro de passar horas ouvindo discos de vinil com ela. Ouvíamos Nat King Cole, Frank Sinatra, e vários hits dos anos 60. Ela também me ensinava trechos de músicas e me deixava ficar experimentando livremente no piano. Essas coisas, com certeza abriram um universo de possibilidades musicais, com referências marcantes, plantando a semente da música em mim.
4 – Você assina letras, melodias, arranjos, voz, instrumentos e até a arte da capa. Como foi equilibrar tantas funções sem perder a espontaneidade do processo criativo?
Quando se tenta fazer algo grandioso como um álbum de música, não temos a ideia do tamanho de tudo o que isso envolve. Ainda mais quando você mesmo resolve fazer todas essas coisas. Não à toa, o álbum levou 2 anos para ficar pronto.
Mas essas são apenas algumas das partes de se fazer um disco. E essas são as que eu consigo fazer com naturalidade e sem grandes esforços. Importante dizer que, isso tudo foi feito de forma independente, ou seja, sem nenhum apoio financeiro ou patrocínio. Se existisse algum tipo de incentivo, talvez eu tivesse distribuído parte dessas funções.
5 – O álbum nasceu de uma experiência coletiva no Estúdio Gargolândia. O que a convivência e a troca com músicos tão próximos acrescentaram ao resultado final?
Esse álbum só existe por causa de uma pessoa, a quem sou e serei eternamente grato, o Gabriel Altério, que assina mais funções do que eu mesmo. Ele colocou o Estúdio Gargolândia à disposição, fez a curadoria das músicas que apresentei a ele, acreditou em mim e no meu delírio musical, e colocou a mão na massa de forma belíssima. O Rafael Altério e o Pedro Altério foram “a cereja do bolo”, músicos, compositores e pessoas que admiro absurdamente e que tive a sorte de participarem do disco maravilhosamente. Heloá Holanda, é de um talento gigantesco, outra sorte imensa ter ela com a gente. O Igor Pimenta é o baixista que mais toquei na vida em incontáveis projetos, um luxo. Zelão Martins, que assina a mixagem e masterização, é um profissional de altíssimo nível, além de ser uma pessoa incrível. Sem todas essas pessoas fantásticas, acredito que o disco seria apenas um grande vazio.
6 – As canções parecem habitar a fronteira entre o silêncio e a expressão. Você acredita que os “não ditos” podem comunicar tanto quanto as palavras na música?
Acredito piamente. O diretor de cinema David Lynch, disse uma vez em uma entrevista que existem muitas linguagens artísticas, filmes, artes plásticas, dança, e grande parte delas são feitas sem palavras. Existe uma frase de origem incerta e que já foi atribuída a Mozart, Debussy e até Miles Davis que diz: “A música não está nas notas, mas sim no silêncio entre elas”, eu acredito que música está justamente na junção entre a nota e pausa. Quando você “não diz”, você deixa espaço para a imaginação de quem ouve.
7 – Faixas como “Naya”, “Inbox”, “Morcegagem” e “No Vazio” possuem títulos bastante distintos entre si. Existe uma narrativa que conecta essas dez composições?
A ideia do álbum é oscilar entre os opostos como a ausência e a presença, o muito e o pouco, e o tudo e o nada. Isso fica evidente nas letras e nos arranjos. O elo é justamente o pêndulo que balança entre esses paradoxos.
8 – Em diversos momentos, o disco convida à introspecção e à contemplação. Em uma sociedade marcada pela velocidade e pelo excesso de estímulos, qual a importância de criar espaços de pausa através da arte?
Acredito que muitas pessoas estão ficando doentes da alma nos dias de hoje, justamente por cada vez menos se permitirem parar e contemplar. Ao deixar minguar essa capacidade tão importante para seres criadores que são os humanos, perde-se não só a experiência com a obra que se apresenta, como também o próprio sentido de ser, deixando espaço para o ego consumir toda a consciência, com informações inúteis, desejos impossíveis, e autossabotagens como ansiedade, depressão e falta de sentido na vida.
9 – Ao longo da carreira, você dividiu palco com artistas de universos musicais diferentes. De que forma essas experiências ajudaram a moldar a identidade sonora que ouvimos neste álbum?
A sinestesia que acontece no palco, entre as pessoas que estão vivendo aquelas músicas, compõem quem nos tornamos musicalmente. É impossível desassociar esses encontros ao longo de uma carreira de quase 30 anos, do músico que me tornei e também da minha maneira de compor. Mas, como esse álbum contém uma síntese musical que vem desde aqueles discos da vovó, passando por uma adolescência rock’n’roll e experimental, eu diria que as músicas do “Na Janela do Vazio” vem mais das coisas que eu escutava do que com as pessoas que eu trabalhei como instrumentista.
10 – O vazio costuma ser associado à ausência, mas, no seu trabalho, ele parece ganhar novos significados. O que representa esse “vazio” para você hoje?
O vazio pra mim deixou de ser um lugar de angústias para se tornar um lugar de infinitas possibilidades, onde tudo pode acontecer. “No vazio cabe tudo, cabe até você” – citando a frase que encerra o meu álbum.
11 – Como tem sido apresentar ao público uma faceta mais vulnerável e autoral, especialmente para quem já acompanhava sua trajetória como instrumentista?
Não tem sido. Hoje em dia os lugares querem saber sobre os seus números virtuais, quantos seguidores você tem. Querem ver vídeos do show acontecendo, mas como ter esse material se você acabou de lançar o disco? A resposta é, com dinheiro. Você vai lá e paga pra fazer um show em algum lugar, pra poder pagar para alguém filmar e editar, pra você ter o material para vender o show. O problema é que para o álbum ficar pronto, o artista independente já gastou tudo o que nem tinha. Para fazer o show desse disco, é preciso um lugar com algumas condições mínimas sonoras, tornando os lugares pequenos de música independente, quase impossíveis de apresentar um trabalho com o mínimo de qualidade. Ou você já é um artista consolidado que tem acesso a casas de shows que vão apostar no seu trabalho novo. Sigo na busca para marcar shows e poder apresentar esse trabalho feito com tanto carinho, para as pessoas que ainda se interessam por música autoral e independente.
12 – Depois de “Na Janela do Vazio”, quais são os próximos passos da sua caminhada artística? Há planos para apresentações ao vivo ou novos projetos autorais?
Sim, o que eu mais quero é poder ir para a estrada com meus companheiros de banda e mostrar esse trabalho para o maior número de pessoas. O meu maior sonho da vida era conseguir fazer um álbum e poder sair tocando ele pelo mundo afora! A primeira parte dessa jornada homérica eu já consegui, agora é correr atrás para ver esse sonho inteiro se completar! Apesar de todas as dificuldades, isso me parece muito próximo de se alcançar, e eu vou. Gravar outro álbum também já faz parte da realidade atual e uma consequência para mim, que quero seguir uma carreira artística.

