1. Após 12 anos desde o lançamento de “Solar”, o que motivou seu retorno a um projeto autoral neste momento da carreira?
Resposta: A vontade de fazer um segundo disco surgiu muito pouco tempo depois de ter lançado o primeiro trabalho, ‘Solar’. Depois de gravar e começar a fazer os primeiros shows do ‘Solar’, ficou claro pra mim que o lugar de compositor era algo importante, que era um lugar em que eu conseguia me expressar mais profundamente do que ‘apenas’ como instrumentista. Sendo assim, um novo projeto autoral se apresentava como, além de uma continuação natural da minha descoberta como compositor, um aprofundamento desse processo dentro do universo da composição. Durante esses 12 anos, a vontade de gravar um novo disco esteve sempre presente, mas só em 2025 eu consegui de fato concretizar.
2. O título “Círculos” sugere conexões e reencontros. Como esse conceito surgiu e de que forma ele orientou a construção do álbum?
Resposta: As conexões e os (re)encontros são pontos muito importantes pra mim, sempre foram, desde o ‘Solar’. Acho que no ‘Círculos’, isso foi mais intenso por conta de eu ter tido o Glauco Sölter e o Pedro Ito no disco. Esse trio é o núcleo central do disco. Eu conheço cada um deles dois há mais de 35 anos. Vivi com cada um deles situações e momentos muito marcantes da minha trajetória na música. Também construímos, como trio, uma história que não é tão recente. Tocamos juntos a primeira vez em 1999 quando nós 3 estudávamos na Berklee. Tudo isso permeou a minha cabeça quando estava pensando na concepção do disco. A participação do Pepe Cisneros, da Kid Be Kid, e a produção do Swami, foram na mesma linha, pois tenho com cada um deles muitas memórias importantes na minha trajetória.
3. Você menciona que cada composição nasceu de encontros, lugares e experiências. Existe alguma faixa que represente de maneira mais intensa essa proposta?
Resposta: Eu destacaria duas faixas: ‘Casa de Lapa’, que é o lugar em que toquei pela primeira vez as minhas músicas autorais com o Glauco e com o Pedro. A Casa da Lapa era um casa no bairro da Lapa aqui em São Paulo que abrigava um coletivo de artistas e onde acontecia uma festa chamada ‘Mixto Quente’. Foi nessa festa que ocorreu o show que eu descrevi acima. Naquela apresentação, tive a nítida percepção de que queria gravar o novo disco com eles
A outra faixa é ‘Uma Noite Sanja’ que é uma brincadeira com o título do clássico ‘A Night In Tunisia’ do Dizzy Gillespie, mas também uma homenagem ao Sanja Jazz Bar, um espaço icônico de música instrumental que ficava na rua Frei Caneca em São Paulo. Eu frequentava muito o Sanja, vi muitos shows incríveis, entre eles do Pollaco Oliva, meu tio. Esses shows foram as primeiras vezes em que vi o Glauco tocando.
4. O trio formado por você, Glauco Sölter e Pedro Ito é o núcleo do projeto. Como a relação musical entre vocês influenciou o resultado final do disco?
Resposta: Acho que isso está respondido de certa forma na resposta da pergunta 2. Mas acrescento dizendo que a relação de amizade e confiança, em todos os sentidos que eu tenho com eles, reflete totalmente no resultado final do disco.
5. A faixa inspirada na apresentação realizada na Casa da Lapa em 2018 parece ter sido um ponto de partida importante. O que aquele show teve de especial?
Resposta: Naquela noite nós tivemos uma conexão total entre nós três e também com o público. A festa em que tocamos não costumava ter música instrumental, mas eu e os produtores da festa arriscamos e deu muitíssimo certo. A festa estava lotada, muita gente curtindo e interagindo com um show de música instrumental.
6. “Uma Noite no Sanja” e “Dunas de Itaúnas” transformam memórias e lugares em música. Como você trabalha a tradução de lembranças e paisagens para uma linguagem instrumental?
Resposta: Difícil responder isso também, porque 90% dos títulos das minhas músicas foram dados depois que elas já estavam gravadas e mixadas. Ou seja, eu não faço uma composição pensando em algum lugar ou alguma memória, especificamente. Eu componho e depois, ao ouvir a composição pronta, descubro que ela me remete a algum lugar ou memória. Essa descoberta pode envolver muitos fatores: a melodia, o clima da música, o arranjo, o timbre de algum instrumento, não dá pra saber exatamente.
7. O álbum reúne artistas de universos bastante distintos, como Toninho Ferragutti, Swami Jr., Pepe Cisneros e Kid Be Kid. O que cada participação agregou à narrativa musical de “Círculos”?
Resposta: Eu não conhecia pessoalmente o Ferragutti, conhecia o trabalho dele, claro. Na fase de pré produção, eu mostrei ‘Dunas de Itaúnas pro Swami (que ainda não tinha esse nome) e na hora ele achou que ela tinha que ter acordeom e que tinha que ser o Ferragutti. Ele acrescentou muitas coisas: a forma como ele interpretou a melodia e improvisou em cima do tema foram muito elegantes, líricas e não óbvias, assim como tudo o que ele toca. É um tremendo músico e instrumentista! Nessa resposta eu vou falar do Swami como instrumentista, pois falarei dele como produtor na próxima resposta. O Swami toca violão de 7 cordas, instrumento que é geralmente associado ao choro e ao samba. Mas acontece que, além dessas duas linguagens, o Swami trafega com maestria por muitos outros estilos musicais, de forma que ele trouxe toda essa versatilidade, sabedoria e excelência nas duas faixas em que tocou. O Pepe é um dos pianistas e músicos que eu mais gosto de ouvir, em meio a tantos instrumentistas extraordinários que moram em São Paulo. Eu acho que o Pepe, em tudo que ele participa, acrescenta beleza, maturidade, educação musical e virtuosismo, quando a música pede isso. A Sanni, artista alemã do projeto Kid Be Kid, acrescentou com originalidade, ousadia, virtuosismo, uma concepção musical diferente e um timbre de voz lindíssimo.
8. Como foi o trabalho de produção ao lado de Swami Jr. e quais foram os principais desafios e descobertas durante as gravações?
Resposta: O trabalho de produção com o Swami Jr foi o melhor possível. O Swami teve a competência de conduzir todo o processo, da pré produção a masterização, com muita sabedoria, cuidado e respeito. Como já disse antes, esse trabalho estava pra ser realizado há mais de 10 anos, tinham muitas idéias soltas, algumas poucas que eu achava que tavam acabadas, mas eu já não tinha discernimento do que era bom pra ser aprofundado, do que era ruim, o que estava pronto, etc.. O Swami botou a bola no chão, organizou tudo isso comigo, me deu um norte e propôs uma metodologia de trabalho que funcionou perfeitamente. De verdade, não consigo pensar numa escolha mais feliz pra produzir o disco.
Os desafios foram os meus internos, minha auto cobrança, as inseguranças que aparecem quando se quer fazer o melhor trabalho possível, achar que não está pronto, etc. A descoberta principal foi perceber que eu consegui conviver com os desafios melhor nesse segundo trabalho e que a confiança no processo e nas pessoas que estavam ao redor foi algo redentor.
9. Sua trajetória inclui experiências no jazz, na música brasileira, no pop e no R&B. De que forma essas influências dialogam dentro deste novo trabalho?
Resposta: Acho que todas essas experiências apareceram de forma natural nas composições e posteriormente nos arranjos. Não foi algo planejado, as idéias musicais foram aparecendo naturalmente e se tornaram composições com todas essas influências de estilos musicais diferentes.
10. Além da atuação como músico, você também construiu uma sólida carreira como educador. O professor Daniel Oliva influencia o compositor e o instrumentista? Como essa troca acontece?
Resposta: Objetivamente eu não sei responder essa questão. O processo de composição é muito misterioso num certo sentido, pois apesar de eu ter estudado muita teoria musical ao longo da vida, na hora que estou compondo eu não penso em nada teórico. As idéias vão surgindo e eu tento ir atrás do som que ‘está na minha cabeça’, mas que na verdade eu nem se está ou se ele aparece. Acho que a composição é o resultado das experiências que temos e que tivemos ao longo do tempo e, dessa forma, a atividade de educador aparece nas composições também. Como instrumentista essa é influência me parece bastante clara. O fato de eu ter que ensinar algo referente ao instrumento ou sobre outros temas musicais, tais como improvisação, harmonia, arranjo, concepção, faz com quem eu desenvolva habilidades concretas no instrumento. E talvez, ao falar desse lado instrumentista, eu esteja sendo incoerente com o que falei sobre a influência na composição.
11. Ao longo da carreira, você colaborou com artistas de diferentes gerações e estilos. Que aprendizados dessas parcerias estão presentes em “Círculos”?
Resposta: Eu acho que todas as colaborações e parcerias, quando são verdadeiras e frutíferas do ponto de vista do ‘encontro’ que acontece, nos trazem aprendizados e boas memórias. As que não são boas ou verdadeiras também trazem aprendizados, claro, mas essas não estão presentes no ‘Círculos’. Como já escrevi ao responder outra pergunta, o ‘Círculos’ trata exatamente desses ‘encontros’ musicais e pessoais que eu tive ao longo da minha carreira. Sendo assim, eu diria que a confiança nos meus parceiros, prazer e disciplina durante todo o processo de produção, maturidade de me enxergar melhor como músico e das mesma forma com todos que participaram desse disco, são aprendizados dessas parcerias e colaborações que estão presentes no disco.
12. O que você espera que o público sinta ou descubra ao ouvir o álbum do início ao fim pela primeira vez?
Resposta: É quase impossível esperar qual vai ser o sentimento de quem vai ouvir, mas eu desejo em primeiro lugar que ele possa ser ouvido pela maior quantidade de pessoas possível. E desejo que as pessoas ouçam esse disco sem esperar nada, que realmente possam ser pegas de surpresa, que a minha música instrumental, sem nenhuma letra, consiga comunicar algo para as pessoas, emocioná-las, que consiga reter a atenção de quem escute.

