18 jul 2026, sáb

Entrevista: Andre Correa,  guitarrista, compositor e educador musical

1. “Andre Correa ao Vivo” nasce da experiência compartilhada entre músicos e público. Em que momento você percebeu que essas apresentações mereciam se transformar em um álbum?

Eu sempre soube que existe algo especial nas performances ao vivo e por isso, em cada show tenho o cuidado de promover liberdade para improvisação, flexibilidade na métrica e dinâmica das músicas… Porque quero que cada apresentação entregue para o público algo único e especial. O repertório de uma turnê pode ser o mesmo, mas sempre vamos compor algo único durante a apresentação, porque o público que nos assiste também é único e merece algo especial. Essa energia do público, a interação entre os músicos e os momentos de improvisação criam experiências que dificilmente podem ser reproduzidas em estúdio.

As canções que compõem esse álbum, não são apenas apresentações de repertório, mas registros de encontros. Havia uma conexão humana muito forte acontecendo no palco, construída com base na amizade, convivência musical e confiança. Eu sabia que valia a pena preservar aqueles momentos exatamente como aconteceram, com toda a espontaneidade e autenticidade que o ambiente ao vivo proporciona.

2. Diferentemente de um registro de estúdio, o disco preserva a espontaneidade da performance ao vivo. O que você acredita que se ganha — e o que se arrisca — ao optar por esse formato?

O que se ganha é verdade. Em uma gravação ao vivo, existe uma honestidade muito grande. Você registra não apenas as notas, mas também as decisões tomadas no momento, as reações dos músicos uns aos outros e a energia compartilhada com o público.

Ao mesmo tempo, existe um risco. Não há a mesma possibilidade de controle e correção que existe em um estúdio. Você se expõe mais como artista. Mas acredito que justamente nessa vulnerabilidade está a beleza da música ao vivo. Nem tudo precisa ser perfeito para ser significativo. Às vezes, os momentos mais marcantes surgem justamente do inesperado.

3. Você descreve o projeto como uma celebração da amizade e da confiança entre os músicos. Como essas relações construídas ao longo dos anos influenciaram o resultado artístico do álbum?

Influenciaram completamente o resultado. Quando você toca ao lado de pessoas com quem compartilha anos de convivência, existe uma comunicação que vai além da música escrita. Muitas decisões acontecem sem precisar ser verbalizadas.

A confiança permite correr riscos, improvisar mais livremente e explorar ideias que talvez não surgissem em um ambiente menos familiar. Cada músico presente nesse projeto trouxe não apenas sua habilidade técnica, mas também sua personalidade, sua história e sua amizade. Por isso, vejo este álbum como uma celebração das relações humanas tanto quanto uma celebração da música.

4. A improvisação ocupa um papel central na sua linguagem musical. O que ela representa para você: liberdade, diálogo, descoberta ou uma combinação de todos esses elementos?

Definitivamente uma combinação de todos esses elementos.

A improvisação é liberdade porque me permite reagir ao momento presente. É diálogo porque depende da escuta e da interação com os outros músicos. E é descoberta porque frequentemente me leva a lugares que eu não planejava visitar.

Talvez o aspecto mais bonito da improvisação seja justamente esse equilíbrio entre intenção e surpresa. Você se prepara durante anos estudando seu instrumento, mas, no palco, precisa estar disposto a deixar que algo novo aconteça. É uma conversa entre tudo aquilo que você já aprendeu e tudo aquilo que ainda não conhece.

Eu me identifico muito com uma ideia expressada por Wayne Shorter, que diz que improvisar é trabalhar com o inesperado e não há possibilidade de ensaiar o desconhecido – “This music, it is dealing with the unexpected. No one really knows how to deal with the unexpected. How do you rehearse the unknown?”. Dessa forma, a improvisação me desafia como artista, não é sobre conseguir reproduzir uma canção, é sobre me expressar através da música, trazer voz e verdade em formato de notas e ritmo.

5. As sete composições autorais abordam temas como memória, transformação, identidade e fé. Como esses assuntos foram se incorporando ao seu processo criativo?

Esses temas surgiram naturalmente porque refletem as experiências que vivi nos últimos anos. Não costumo começar uma composição pensando em transmitir uma mensagem específica. Normalmente, a música nasce de algo que estou sentindo, processando ou aprendendo.

Minha trajetória entre Brasil e Estados Unidos, os desafios, o crescimento pessoal, as amizades construídas ao longo do caminho e minha fé acabaram se tornando parte da linguagem dessas composições. Quando escrevo, procuro traduzir essas experiências em sons. De certa forma, cada música funciona como um capítulo de uma história maior.

6. O álbum apresenta faixas compostas em diferentes momentos da sua trajetória. Revisitar essas obras em um contexto ao vivo trouxe novos significados para elas?

Sem dúvida.

Quando uma composição permanece com você por vários anos, ela passa a carregar novos significados à medida que você também muda. Algumas músicas foram escritas em momentos específicos da minha vida, mas, ao tocá-las hoje, percebo aspectos que talvez não enxergasse na época. Nós somos seres complexos em constante mudança, tocar “Eterno” em 2020, quando foi composta, tinha um sentimento completamente diferente de tocar agora.

“Eterno” foi uma canção escrita para o meu casamento, existia uma expectativa e intenção que hoje é ainda mais vívida e intencional. Hoje, eu tenho mais conteúdo emotivo para interpretar essa música, porque construí com a Fer, minha esposa, uma trajetória de conquistas, desafios, superação e parceria ainda mais forte.

O ambiente ao vivo também contribuiu para isso. A presença dos outros músicos trouxe novas interpretações, novas cores e novas perspectivas. Em muitos casos, senti que estava redescobrindo minhas próprias composições.

7. Sua formação na Berklee College of Music e sua vivência como músico brasileiro radicado nos Estados Unidos influenciam diretamente sua sonoridade. Como você equilibra a herança da música brasileira com as linguagens do jazz contemporâneo?

Para mim, esse equilíbrio acontece de forma bastante natural.

A música brasileira faz parte da minha identidade. Cresci ouvindo e tocando ritmos, harmonias e melodias que moldaram minha maneira de compreender a música. O próprio idioma português contribui para reforçar essa identidade. O jazz entrou na minha vida como uma linguagem que ampliou minhas possibilidades de expressão, principalmente através da improvisação e da interação coletiva. 

Eu não vejo o jazz como um estilo musical e sim como uma forma de fazer música, através de improviso, liberdade e expressão. 

Hoje não penso nesses elementos como coisas separadas. Minha intenção não é misturar estilos de forma artificial, mas permitir que tudo aquilo que faz parte da minha formação apareça de maneira autêntica. O resultado é simplesmente a música que surge quando minhas influências brasileiras encontram as experiências que vivi dentro do universo do jazz contemporâneo.

8. Após o reconhecimento internacional com “Solitude”, premiada no Global Music Awards, houve alguma mudança na forma como você encara sua carreira e seus próximos projetos?

O prêmio foi uma grande honra e uma confirmação de que a música pode alcançar pessoas muito além do contexto em que foi criada.

Ao mesmo tempo, ele não mudou a essência daquilo que acredito. Continuo vendo a música como um processo de crescimento contínuo. Talvez a principal mudança tenha sido ganhar mais confiança para investir em projetos autorais e acreditar que existe espaço para uma voz artística construída a partir das minhas experiências, da minha cultura e da minha visão de mundo.

O reconhecimento é importante, mas ele funciona mais como incentivo para continuar trabalhando do que como um ponto de chegada.

9. Além de compositor e guitarrista, você assina direção musical, engenharia de som, mixagem e masterização do álbum. Como foi conduzir tantas etapas do processo criativo e técnico?

Foi um grande desafio, mas também uma experiência muito enriquecedora.

Assumir diferentes funções me permitiu acompanhar o projeto desde a concepção artística até os detalhes finais da produção. Isso exige tempo, estudo e muita atenção, mas também oferece uma compreensão mais profunda da música como um todo.

Ao longo dos anos desenvolvi interesse não apenas pela performance, mas também pelos aspectos técnicos da gravação. Participar de cada etapa é um privilégio que poucos artistas possuem. Como artista independente, sou grato por essa oportunidade. 

Mas confesso que meu interesse não é focado apenas no resultado artístico. Um dos meus sonhos como educador é construir pontes entre meus alunos e o mercado profissional. Ter acesso às diferentes vertentes do mercado musical é fundamental para orientar meus alunos e expandir seus horizontes profissionais.

10. A música instrumental, muitas vezes, é vista como um gênero de nicho. Na sua opinião, quais caminhos podem aproximar novos públicos desse universo?

Acredito que a melhor forma de aproximar novos públicos da música instrumental é através da conexão humana.

Muitas pessoas pensam que música instrumental é algo complexo ou distante, mas, na verdade, ela fala diretamente às emoções. Quando o público entende que não precisa ter conhecimento técnico para apreciar uma música instrumental, a experiência se torna muito mais acessível.

Também acredito que contar histórias, compartilhar o contexto das composições e criar experiências ao vivo mais próximas do público ajuda muito nesse processo. No final das contas, as pessoas se conectam com significado.

11. Como educador musical, quais ensinamentos da sala de aula você leva para o palco e, em contrapartida, o que a experiência como performer acrescenta ao seu trabalho como professor?

As duas áreas se alimentam constantemente.

Como educador, aprendi a importância da clareza, da escuta e da adaptação. Cada aluno aprende de uma forma diferente, e isso me ensinou a prestar mais atenção às pessoas ao meu redor, algo extremamente valioso no palco. Nas apresentações, meu objetivo é entregar ao público que me assiste a melhor experiência para eles, não para mim. Eu quero garantir que cada pessoa presente, que confiou no meu trabalho e se interessou pela minha arte, viva um momento único e especial. Para isso, ouvir o meu público, perceber o ambiente, interagir e ter essa troca genuína é algo que valorizo muito.

Já a experiência como performer mantém meu ensino conectado à realidade. Tudo aquilo que vivencio em apresentações, gravações e colaborações musicais se transforma em exemplos práticos que posso compartilhar com meus alunos. Isso torna o aprendizado mais relevante e significativo. Outro aspecto que considero fundamental, é poder transmitir para o meu aluno a confiança que só a experiência do palco consegue entregar. Muitos alunos chegam até mim inseguros e engessados, eles tem ótimas ideias, mas não conseguem se expressar. Muitos até já possuem domínio técnico excelente, mas não sabem como transformar as ferramentas em música e ficam limitados. No palco, eu me desafio e me desenvolvo constantemente. Preciso lidar com imprevistos, adaptar repertório, absorver e responder ao que acontece em tempo real. Essa bagagem enriquece a experiência em ambiente de aula. 

Ao final do dia, todas as experiências que tenho no ambiente musical aumentam meu repertório como artista e educador, e expandir esse repertório é algo que eu realmente aprecio. 

12. Depois do lançamento de “Andre Correa ao Vivo”, quais são os próximos passos da sua trajetória artística? Há planos para novas apresentações, composições ou projetos internacionais?

Sim. Estou trabalhando em novas composições e desenvolvendo projetos que continuam expandindo a narrativa iniciada nos meus trabalhos recentes.

Um dos projetos que mais me entusiasma neste momento é um futuro álbum, em parceria com músicos incríveis que conheci em Orlando. É um trabalho que busca traduzir minha vivência nesse último ano, onde minha carreira nos EUA tomou forma e se consolidou. 

Nesses últimos meses, eu tive o privilégio de lançar meu primeiro álbum, participar de projetos musicais e festivais, conquistar residência no Jazz Tastings, receber prêmios, dar início ao lançamento da minha coletânea de livros, trabalhar com a ESPN Americana nas trilhas sonoras da emissora que vão representar o Brasil na copa… Realmente, foram muitas novidades, altos e baixos, emoções e trabalho árduo. Quero documentar essa jornada através da música, até como uma forma de gratidão a tudo que Deus tem me proporcionado. 

Também pretendo continuar atuando como performer, educador e colaborador em projetos internacionais, além de expandir minha produção de materiais educacionais. Meu objetivo é seguir construindo uma carreira que conecte música, educação e colaboração artística de maneira cada vez mais profunda e significativa.