18 jul 2026, sáb

“Love Kills” mistura terror, romance e fantasia urbana em um cenário muito brasileiro. Como nasceu a ideia de adaptar essa graphic novel para o cinema?
R. Eu já havia produzido algumas adaptações tanto de livros quanto de HQs.  Em uma conversa com o Danilo Beyruth ele me contou a história de Love Kills antes mesmo de desenhar o quadrinho, foi naquele exato momento que enxerguei o filme, já começou ali, antes mesmo de o quadrinho ser feito.

O centro de São Paulo funciona quase como um personagem do filme. Qual foi a importância da cidade na construção estética e emocional da narrativa?
R.  O centrão é um universo em si, tem muita vida, muita pluralidade, entre conflitos e harmonias gente muito diferente atravessa aquele lugar. Ao mesmo tempo tem uma arquitetura muito poderosa, é um cenário pronto.  Uma verdadeira Gotham City.

A obra aborda vampirismo em meio a temas sociais contemporâneos, como drogas, solidão e violência urbana. Como equilibrar entretenimento e crítica social dentro da trama?
R. Vampiros sempre foram uma metáfora de muita coisa, passando pelos excluídos do sistema aos marginalizados pela sociedade, neste sentido uma obra de gênero fala muito sobre o ser humano, por debaixo das camadas de fantasia tem muita realidade.

O termo “romantasia” vem ganhando força nos últimos anos. O que diferencia “Love Kills” dentro desse universo híbrido entre fantasia e romance sombrio?
R. Helena é uma vampira de 5.000 anos, sabe tudo mas não sabe amar, conhece o humano Marcos, que pouco sabe, mas sabe amar.  Ela viciada em sangue, ele em crack.  Esta combinação de forças foi o que trouxe a mágica de Love Kills.

Como foi transformar o universo visual criado por Danilo Beyruth em linguagem cinematográfica?
R. O quadrinho é um ponto de partida muito poderoso, naturalmente são necessárias várias adaptações, porém quando se tem uma obra desta qualidade por trás, já se tem vários fundamentos apresentados, isso ajuda muito.  Foi um processo muito legal, em que o quadrinho foi influenciando o filme e os desafios de produção foram delineando a possibilidade.  

Helena foge da imagem clássica dos vampiros tradicionais. O que torna essa personagem única dentro do gênero?
R. Além de ser uma vampira negra, o que é uma raridade no audiovisual vampírico, Helena se encantou por São Paulo, uma verdadeira metrópole sul-americana, por isso decidiu morar ali.  Justamente no centro, onde a vida pulsa de uma forma muito urbana, mas ao mesmo tempo também muito brasileira.

O filme já passou por festivais importantes como Sitges, BIFFF e Festival do Rio. Como tem sido a recepção internacional de uma fantasia urbana tão brasileira?
R. Estou encantada com a recepção do filme, não só no Brasil mas no exterior.  Esta é uma nova realidade do audiovisual, em que os nichos mundo a fora podem entrar em contato com o cinema de outros países através dos festivais e das plataformas de streaming.

O terror brasileiro vive um momento de expansão criativa. Você acredita que o gênero finalmente conquistou mais espaço e reconhecimento no país?
R. Esta é uma luta de todos os dias. Acho que estamos avançando, mas gostaria de ver mais filmes de gênero feitos no Brasil, temos ainda uma produção muito tímida.

A fotografia e o desenho de som parecem fundamentais para criar a atmosfera do longa. Como foi o trabalho de construção dessa experiência sensorial?
R. Fazer filme de fantasia pede muita técnica e muita equipe especializada, neste sentido tivemos a sorte de encontrar profissionais brasileiros talentosíssimos que se entregaram de corpo e alma (e sangue!).  Como brasileiros temos uma capacidade de inovar e reinventar que surpreende.  Traz um oxigênio novo para as nossas produções.

Depois do sucesso de “A Princesa da Yakuza”, quais desafios e aprendizados você levou para “Love Kills”?
R.  No Yakuza eu estava no roteiro e na produção, já no Love Kills estou na direção.  Foi uma transição lenta, depois de anos produzindo e escrevendo agora estou dirigindo.  Encontrar a minha voz como realizadora foi fundamental para dar este passo.

O filme dialoga com referências clássicas do horror e também com o cinema contemporâneo. Quais obras, diretores ou movimentos influenciaram sua visão para este projeto?
R. O mundo dos vampiros tem referências maravilhosas, desde Nosferatu, o clássico atemporal, até Deixa Ela Entrar.  Amantes Eternos de Jim Jarmusch foi uma mega ref também.  Claro que o Drácula do Coppola também trouxe muita coisa, mas ao final foi um podcast do Lord A, uma das maiores autoridades vampíricas do Brasil, quem trouxe muita inspiração para a adaptação.

O que você espera que o público sinta ao ver “Love Kills”?
R. Espero que o filme comunique o amor, mesmo que enviesado, mesmo que de uma forma diferente.  E o amor, não apenas entre os protagonistas, mas na inclusão de pessoas que sob o olhar de um simples mortal possam parecer muito diferentes.  No fundo, no fundo, somos muito parecidas.