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Curta “Barulho” destaca desigualdade no cinema negro - Marramaque

Curta “Barulho” destaca desigualdade no cinema negro

O curta-metragem “Barulho”, dirigido por Karen Suzane, amplia a circulação de narrativas negras no cinema brasileiro enquanto evidencia os desafios de acesso a financiamento e oportunidades profissionais. Com elenco 100% negro, o filme estreou em março de 2026 e já participou de mais de 15 eventos audiovisuais no Brasil e no exterior.

A produção aborda luto, amizade e samba a partir da história de Humberto, um viúvo que se fecha após perder a companheira. A chegada de novos vizinhos, ligados ao samba, altera sua rotina e cria um confronto entre o silêncio do protagonista e a música.

O filme também integra um cenário marcado por desigualdades raciais. Segundo dados apresentados pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan), 94% dos filmes que receberam recursos federais tiveram direção de pessoas brancas.

“Barulho” circula por festivais no Brasil e no exterior

Desde a estreia, o curta participou de mais de 15 eventos audiovisuais. Entre eles estão o 37º Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo, o 3º Festival Internacional de Nuevo Cine Independiente (FINCI), na Argentina, e o 16º Fórum de Cinema de Moçambique.

A programação prevista inclui ainda o 2º Festival Diaspóricas de Cinema e Música Negra, entre 12 e 14 de novembro, em Goiás. No dia 25 de novembro, a produção também tem participação prevista no Cineclube Lavradio 11, no Rio de Janeiro.

A circulação em diferentes eventos contribui para levar a história a públicos diversos. Além disso, coloca em evidência profissionais negros que desenvolvem projetos em um setor ainda marcado pela concentração de recursos e oportunidades.

Carlos Francisco interpreta viúvo que encontra no samba uma saída

O protagonista Humberto é interpretado por Carlos Francisco, ator conhecido por seu trabalho em Marte Um, longa-metragem dirigido por Gabriel Martins. Na nova produção, ele representa um homem que enfrenta o luto e precisa reconstruir sua relação com o mundo.

A narrativa utiliza a música como elemento de aproximação entre os personagens. O samba surge como contraponto ao isolamento de Humberto e abre espaço para que ele enfrente a própria dor.

Carlos Francisco relaciona a experiência à transformação da representação negra no audiovisual. Para o ator, o cinema tem ampliado as possibilidades de interpretar personagens negros com histórias, sentimentos e características que vão além dos estereótipos.

Ele também aponta a distribuição como um dos obstáculos para ampliar o acesso do público ao cinema negro contemporâneo. Sua reflexão destaca a importância de personagens mais complexos, capazes de expressar fragilidades, afeto e diferentes experiências de vida.

O elenco conta ainda com a participação especial da atriz, poeta e escritora Elisa Lucinda. Também integram a produção Dan Ferreira, Vitor Britto, Anne Belize, Joyce, Mihh Moraes e Veto Martins.

A atriz trans Alicia dos Anjos interpreta Lúcia, filha de Humberto e uma mulher cisgênero. A escolha amplia as possibilidades de representação no elenco, ao apresentar uma personagem cuja identidade de gênero não corresponde à da atriz que a interpreta.

Cinema negro enfrenta desigualdade no acesso a recursos

A participação de profissionais negros na produção audiovisual brasileira continua abaixo de sua representação na população. Os dados reunidos pela Apan mostram diferenças tanto no acesso ao financiamento quanto na distribuição dos postos de trabalho.

De acordo com a entidade, profissionais negros representam 29,3% da força de trabalho na produção cinematográfica. Pessoas brancas correspondem a 69,6% desse contingente.

Na televisão aberta, pessoas pretas e pardas ocupam 32,6% dos postos de trabalho registrados, enquanto pessoas brancas representam 65%. Considerando o conjunto do audiovisual, a participação negra não alcança 35%.

A Apan também chama atenção para a concentração desses profissionais em funções técnicas, frequentemente associadas a remunerações menores, informalidade e menor proteção trabalhista.

Em setembro de 2026, a associação divulgou a Carta do Audiovisual Negro às Candidaturas Antirracistas de 2026. O documento defende medidas para ampliar a equidade no setor e assegurar condições de permanência para profissionais negros.

A desigualdade também aparece entre as produções com maiores orçamentos. Segundo os dados apresentados pela associação, mais de 90% dos filmes que receberam recursos públicos superiores a R$ 5 milhões tiveram direção de pessoas brancas.

Produção de filmes dirigidos por pessoas negras cresceu

Apesar das barreiras, o volume de produções dirigidas por pessoas negras aumentou nas últimas décadas. A pesquisa Cinemateca Negra, desenvolvida pelo Instituto NICHO 54, identificou 1.104 filmes dirigidos por pessoas negras no Brasil entre 1949 e 2022.

O levantamento inclui curtas, médias e longas-metragens. Desse total, 83% foram realizados a partir de 2010, indicando uma expansão significativa da produção nesse período.

A pesquisa identificou seis títulos na década de 1960 e 117 nos anos 2000. Já a década de 2010 concentrou 586 filmes, o maior volume registrado pelo estudo.

Entretanto, o crescimento não eliminou a desigualdade de acesso. Dados preliminares divulgados em 2023 indicavam que apenas 10% dos filmes brasileiros lançados entre 2010 e 2020 haviam sido dirigidos por pessoas negras.

Os números apontam para um contraste entre o aumento da produção e as dificuldades de financiamento, contratação e distribuição. Nesse cenário, iniciativas que garantam oportunidades para diferentes realizadores permanecem centrais para a diversidade do cinema nacional.

Karen Suzane destaca a importância de permanecer na direção

Para Karen Suzane, realizar Barulho também representa a possibilidade de continuar trabalhando como diretora. Ela afirma que busca oportunidades para exercer essa função e desenvolver histórias relacionadas a questões humanas e sociais.

A cineasta defende que a competência artística precisa encontrar oportunidades concretas de realização. Sua perspectiva dialoga com o debate sobre a presença negra nas diferentes etapas da produção audiovisual, da concepção dos projetos à chegada dos filmes ao público.

O curta tem patrocínio da BB Seguros e é produzido pela Maruti Blue Produções. Tina Tigre assina a produção associada, enquanto a Tarrafa responde pela distribuição.

O roteiro é de JulyFrans, Leonardo Lumas e Caio Pudenzi. JulyFrans e Lumas também atuam como coprodutores.

Ao combinar uma história sobre luto e convivência com a presença de um elenco inteiramente negro, Barulho participa da discussão sobre representatividade no audiovisual. Sua trajetória também evidencia que ampliar a diversidade nas telas depende de condições para financiar, produzir e distribuir essas narrativas.

Acompanhe o curta: Instagram — https://instagram.com/barulhoocurta

As informações sobre o filme e sua circulação foram divulgadas pela assessoria de imprensa da produção.