O bullying pode afetar a saúde mental de crianças, adolescentes e adultos, com consequências que incluem isolamento social, baixa autoestima e ansiedade. O tema voltou à discussão após o influenciador Felca relatar, em vídeo divulgado em 20 de outubro, episódios de bullying sofridos durante oito anos na escola e os impactos em sua vida.
Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), apontam que os registros policiais de bullying e cyberbullying contra pessoas de 0 a 17 anos cresceram 67,3% em 2025, na comparação com 2024.
No ano passado, foram registradas 5.226 ocorrências envolvendo as duas práticas, ante 3.161 no ano anterior. O levantamento identificou o maior crescimento entre os indicadores de violência contra crianças e adolescentes analisados pela publicação.
Os registros policiais, porém, não representam todos os casos. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indica que quatro em cada dez estudantes de 13 a 17 anos já sofreram bullying na escola.
Como o bullying afeta a saúde mental
A neuropsicóloga Aparecida Tavares, que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, explica que o bullying envolve uma relação de poder entre agressor e vítima e pode provocar diferentes consequências emocionais e comportamentais.
Segundo a especialista, quem sofre esse tipo de violência pode apresentar isolamento social, queda no desempenho escolar ou acadêmico, insegurança, baixa autoestima e sentimento de rejeição.
O bullying pode envolver agressões psicológicas, verbais e físicas, além de violência de gênero. Os efeitos variam conforme a situação e podem comprometer as relações sociais e as atividades cotidianas da vítima.
Fobia social: quais são os sinais e sintomas?
A fobia social, atualmente denominada transtorno de ansiedade social, caracteriza-se pelo medo intenso de situações de interação social ou de exposição diante de outras pessoas.
De acordo com Aparecida Tavares, a pessoa pode evitar encontros e situações sociais por receio de constrangimentos ou de novas agressões. Entre os sinais citados pela neuropsicóloga estão:
- Isolamento social e dificuldade de interação;
- Medo intenso de situações sociais;
- Taquicardia e aumento da frequência respiratória;
- Tremores e sudorese;
- Rubor facial e tonturas;
- Náuseas, dores abdominais e outros sintomas gastrointestinais;
- Tristeza e possíveis sintomas depressivos.
No vídeo divulgado em 20 de outubro, Felca relatou que sofreu episódios de exclusão e violência física durante o período escolar. Ele também falou sobre o desenvolvimento de fobia social e o uso de álcool para lidar com a ansiedade em situações sociais.
O relato trouxe novamente à discussão os possíveis efeitos duradouros do bullying, embora a experiência de cada pessoa dependa de diferentes fatores.
Como identificar o bullying em crianças e adolescentes
Pais e professores podem observar mudanças no comportamento de crianças e adolescentes que enfrentam situações de intimidação. Segundo a especialista, o isolamento, a tristeza e sintomas físicos recorrentes podem indicar sofrimento.
Dores de cabeça, náuseas, diarreia e dores estomacais, por exemplo, podem aparecer antes de a criança ir à escola ou a outro ambiente em que sofre agressões. Esses sinais não confirmam, isoladamente, que há bullying, mas merecem atenção, principalmente quando se repetem.
A neuropsicóloga destaca que o enfrentamento do problema exige a participação conjunta da família, da escola e de profissionais especializados. Psicólogos, psiquiatras e psicopedagogos podem integrar o acompanhamento, conforme as necessidades de cada caso.
Consequências do bullying podem persistir na vida adulta
Embora seja frequentemente associado ao ambiente escolar, o bullying também ocorre entre adultos e em diferentes contextos. A especialista ressalta que algumas vítimas podem ter dificuldade para reconhecer que estão passando por esse tipo de violência.
Quando não recebem apoio adequado, crianças e adolescentes podem carregar consequências emocionais para a vida adulta. Entre os possíveis impactos estão dificuldades nos relacionamentos e o surgimento ou agravamento de transtornos de ansiedade, humor e adaptação.
Aparecida Tavares também alerta para situações de sofrimento psíquico intenso, que podem envolver pensamentos de autolesão e ideação suicida. Por isso, mudanças importantes de comportamento e sinais de sofrimento precisam ser acolhidos e avaliados por profissionais de saúde.
A prevenção do bullying depende da identificação das agressões, da atuação das instituições de ensino e do apoio às vítimas. A escuta sem julgamentos e a busca por ajuda especializada são medidas importantes para interromper a violência e reduzir seus efeitos.
