Com o crédito mais caro, o endividamento e o custo de vida elevado, as famílias reduzem o lazer e reorganizam as compras de alimentos, o que pode comprometer a diversidade alimentar, o sono e a saúde mental.
Em agosto de 2026, o Comitê de Política Monetária reduziu a taxa Selic para 14% ao ano. Apesar da redução, os juros permanecem elevados e continuam afetando o custo do crédito, o pagamento das dívidas e o orçamento disponível das famílias.
A discussão sobre juros costuma ficar restrita à economia. No entanto, seus efeitos também chegam ao supermercado, ao prato e aos consultórios.
Quando uma parcela maior da renda é destinada ao pagamento de dívidas, juros e despesas essenciais, as famílias precisam reorganizar o orçamento. O lazer e a alimentação frequentemente estão entre os primeiros itens a sofrer cortes.
Encontros com amigos, cinema, teatro e outras formas de convivência social tornam-se menos frequentes. No supermercado, a redução do orçamento pode diminuir a variedade das refeições e limitar a compra de frutas, verduras, legumes e diferentes fontes de proteína, como carnes, peixes e ovos.
Isso não deve ser interpretado simplesmente como falta de conhecimento ou de força de vontade.
“Não existe escolha alimentar verdadeiramente livre quando o orçamento não oferece escolhas. Muitas vezes, a pessoa sabe o que deveria consumir, mas não possui condições financeiras para colocar essa orientação em prática.”
Para fazer a conta fechar, as famílias passam a priorizar alimentos mais acessíveis, como arroz, feijão, macarrão, batata e farinha.
Arroz e feijão formam uma combinação nutritiva e culturalmente importante. O problema não está nesses alimentos, mas na possível redução da diversidade alimentar, na menor presença de frutas, hortaliças e diferentes fontes proteicas e, em alguns casos, na maior dependência de produtos ultraprocessados de menor custo e alta densidade energética.
O endividamento também pode afetar o sono e a saúde mental
O impacto não se limita ao conteúdo do prato. Evidências científicas associam dificuldades financeiras e endividamento a níveis mais elevados de estresse, ansiedade, sintomas depressivos e pior percepção da própria saúde.
A preocupação constante com contas e dívidas também pode prejudicar o sono. Dormir mal interfere na regulação da fome e da saciedade, nas escolhas alimentares e na disposição para cozinhar e praticar atividade física.
Forma-se um ciclo:
Dificuldade financeira, estresse e sono ruim, piora da alimentação, maior risco para a saúde.
Discutir juros, renda, preço dos alimentos e endividamento também é discutir alimentação, saúde mental, prevenção e saúde pública.
A saúde de uma população não começa na porta do hospital nem dentro dos consultórios. Começa nas condições em que cada pessoa vive, trabalha, dorme e naquilo que consegue colocar no prato.
Escrita por:
Adriana Stavro – Nutricionista Mestre pelo Centro Universitário São Camilo
Curso de formação em Medicina do Estilo de Vida pela Universidade de Harvard Medical School
Especialista em Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT) pelo Hospital Israelita Albert Einstein
Pós-graduada em Nutrição Clínica Funcional pelo Instituto Valéria Pascoal (VP) Pós-graduada EM Fitoterapia pela Courses4U.
Instagram – @nutriadrianastavro – Mais informações https://lattes.cnpq.br/
