John Dewey inspira debate sobre IA e educação
John Dewey e inteligência artificial na educação são temas centrais de uma entrevista concedida pelas pesquisadoras Vera Teresa Valdemarin e Carlota Boto ao canal da Editora Unesp no YouTube. A conversa revisita os princípios apresentados em Democracia e educação: uma introdução à filosofia da educação e demonstra como reflexões formuladas há mais de um século continuam relevantes diante dos desafios impostos pelas tecnologias digitais.
Publicado originalmente em 1916, o clássico do filósofo e educador norte-americano John Dewey ganhou uma nova tradução em português, realizada por Guilherme Mirage Umeda. A edição busca aproximar leitores brasileiros de conceitos que seguem influenciando os debates sobre formação cidadã, participação democrática e o papel da escola na sociedade contemporânea.
Ao longo da entrevista, as pesquisadoras discutem temas como redes sociais, bolhas digitais e o uso da inteligência artificial no ambiente educacional.
Democracia e educação seguem atuais, afirmam pesquisadoras
Segundo Vera Teresa Valdemarin, um dos principais legados da obra está na compreensão da democracia como uma experiência cotidiana e não apenas como um sistema político.
Para John Dewey, a vida democrática depende da capacidade de indivíduos e grupos estabelecerem relações, compartilharem experiências e ampliarem suas formas de participação social.
Carlota Boto destaca que essa visão alterou profundamente a função atribuída à escola.
Em vez de apenas transmitir conhecimentos sobre cidadania, a instituição escolar deveria funcionar como um espaço onde práticas democráticas são vivenciadas diariamente.
Assim, a democracia deixa de representar apenas um objetivo da educação e passa a constituir também um método de ensino.
John Dewey ajuda a compreender desafios das redes sociais
Durante a entrevista, as pesquisadoras chamam atenção para os impactos das chamadas bolhas digitais na convivência democrática.
De acordo com Vera Valdemarin, a experiência democrática pressupõe o contato com perspectivas distintas. No entanto, muitas plataformas digitais tendem a reunir pessoas com opiniões semelhantes.
Esse fenômeno pode limitar o diálogo e reduzir as oportunidades de interação entre diferentes grupos sociais.
Para Dewey, a ampliação dos canais de comunicação era uma condição indispensável para fortalecer a vida coletiva.
Escola deve promover experiências de convivência
Carlota Boto observa que estudos recentes apontam para uma redução das interações presenciais entre jovens.
Diante desse cenário, a escola assume um papel ainda mais relevante ao proporcionar experiências de convivência e troca de ideias.
Ao reunir estudantes de diferentes origens e trajetórias, o ambiente escolar contribui para o desenvolvimento da empatia, do pensamento crítico e da participação social.
Inteligência artificial exige reflexão crítica
Outro tema abordado pelas especialistas foi o avanço da inteligência artificial na educação.
As pesquisadoras reconhecem que ferramentas baseadas em IA podem apoiar processos de pesquisa e produção de conhecimento. Contudo, alertam para questões relacionadas à autoria, à autonomia intelectual e à integridade acadêmica.
Segundo elas, essas tecnologias devem ser utilizadas como recursos complementares, sem substituir os processos de elaboração, reflexão e criação desenvolvidos pelos estudantes.
A discussão dialoga diretamente com princípios defendidos por John Dewey, que valorizava a aprendizagem ativa e a construção do conhecimento a partir da experiência.
Nova tradução amplia acesso ao pensamento de Dewey
A nova edição de Democracia e educação também foi destacada pelas entrevistadas.
Traduzida por Guilherme Mirage Umeda, a publicação recupera nuances importantes do texto original e oferece maior precisão conceitual ao público brasileiro.
Ao atualizar o acesso a uma das obras mais influentes da história da educação, a iniciativa contribui para fortalecer debates sobre democracia, cidadania e os desafios educacionais do século XXI.
Mais de cem anos após sua publicação, o pensamento de John Dewey continua oferecendo ferramentas para compreender questões urgentes do presente e refletir sobre os caminhos possíveis para uma educação comprometida com a participação, o diálogo e a formação humana.
