Entrevista: Cristal, cantora e compositora

1. Cristal, como foi o processo de criação de “EPIFANIA”? Quais foram os maiores desafios que você enfrentou ao longo dos três anos de desenvolvimento do álbum?
Eu já tinha um tempo sem lançar um projeto ‘’sólido’’, como o EP QUARTZO em 2021, tinha alguns singles bem espaçados, e tava buscando uma forma diferente de me comunicar, eu senti a necessidade de soltar mais minha voz e as melodias que eu criava. ‘’EPIFANIA’’ veio sem muita pretensão, eu tava mergulhando nas músicas fora do gênero HIP HOP, RAP. E voltei a ouvir com mais frequência as músicas que fizeram parte da minha infância, dos encontros da família, alguns discos herdados do meu Tio Doni, da minha mãe, da minha vó… Então me encantei com o universo da Soul Music no Brasil. Todas aquelas vozes já familiares tinham se apresentado agora com outra percepção, agora eu era artista assumida! Adulta. A maior dificuldade foi tirar a EPIFANIA da cabeça. ‘’Eu quero cantar, mas eu tenho voz pra isso?’’ ‘’Como vai ser a recepção do meu público?’’, ‘’Eu tenho melodias e ideias que acho que são incríveis, mas vai dar certo quando eu botar pra fora?’’.
Processos. Foi uma construção e desconstrução do que entendia como MINHA VOZ. Resolvi não esperar pra fazer algo que gosto, que me brilhava os olhos. Falo isso, porque a indústria nos pede imediatismo, e muito é dito que nós como artistas, só podemos finalmente lançar algo ‘’do nosso jeito’’ quando já estamos com a carreira consolidada, quando chegamos lá nos 50 e poucos, mas eu queria fazer isso agora. Foram 3 anos construindo essa confiança de quebrar a expectativa e a limitação do mercado, eu amo música! Eu quero construir esse álbum agora! Não quero esperar.
2. Você se inspirou em grandes nomes da Soul Music brasileira, como Tim Maia e Sandra de Sá. Como essas influências se manifestam em “EPIFANIA” e de que forma você busca trazer a sua própria identidade para o gênero?
Desde o início eu tive um cuidado com as obras reverenciadas não se tornarem parodias. Não queria um projeto que tivesse um conceito vazio, queria que as pessoas sentissem o que em cada obra, cada cantor me inspirava, de forma natural. Tive muitos bloqueios criativos, porque sempre que sentia que tava passando a linha e ficando ‘’forçado’’, a estética, a sonoridade, eu parava. Dava um tempo só ouvindo, vendo entrevistas, falas das referências, processos criativos, ensaios, letras das músicas. Tirando daquela fonte, o que já tinha em comum com meu trabalho. O projeto desde o início tem função e objetivo de HOMENAGEAR essas lendas. Muitos artistas negros se foram sem ser recoinhecidos pela influência no cenário músical, e quando eu ouvia cada um deles… Eu sentia ORGULHO, era algo inexplicável, eu me sentia parte daquilo, eu queria fazer parte daquilo. Sempre fui uma criança muito musical, muito incentivada em casa a consumir arte e cultura em geral, principalmente cultura negra por questões naturais de origem mesmo.
Eu gostava de imaginar como os artistas eram quando jovens e se passavam pelos mesmos processos que eu na minha carreira. Eu me via em cada obra, me reconhecia, me sentia representada, então eu sabia que eu podia escrever a minha história.
3. A participação de Drik Barbosa em “EPIFANIA” simboliza uma conexão importante. Como foi trabalhar com ela e qual foi o impacto dessa colaboração no álbum?
Quando eu conheci a Drik, eu entendi que era o RAP mesmo que era o meu destino, me identifico muito com ela, ela é uma referência antes mesmo do meu primeiro single lançado. Quando fazia poesias nas batalhas de poesia, já era uma inspiração. Abri o show dela na minha cidade, Porto Alegre, em 2019. Só tinha dois singles lançados e ela já conhecia Ashley Banks. Foi um sonho, desde então ela me acompanha e me incentiva, hoje posso chamar minha referência de amiga! Pra mim é linda essa conexão e LOVE COMMUNITY é um produto dessa troca. Meu primeiro álbum, ela tá lá!
4. O projeto foi patrocinado pela Natura Musical, um importante reconhecimento do seu trabalho. Como você vê o apoio de plataformas como essa para artistas emergentes e projetos inovadores?
A maior dificuldade de ser artista independente é poder viabilizar nossos sonhos. Eu tinha um pré projeto de EPIFANIA pronto: roteiro do filme, briefing do álbum, das faixas. Eu pensava que ia acabar engavetando aquele projeto, por saber que precisaria de uma estrutura que não tinha pra realizar. Quando veio as inscrições pro Edital Natura Musical, eu sabia exatamente o que fazer. E aí tudo fluiu mais, quando a gente tem a oportunidade, a possibilidade, a nossa criatividade e a produtividade crescem mil vezes mais! É incrível! Eu lancei um filme, homenageando meu Tio Doni, com profissionais que admiro, em sua maioria negros, um álbum com artistas que admiro, com visuais lindos, uma capa linda… Eu lancei um DESENHO ANIMADO! Isso é um sonho de criança. Dar voz aos sonhos independentes, eu alimentei minha criança, sabe? Sou muito feliz de ter sido contemplada e de EPIFANIA ter sido selecionado.
5. O álbum destaca o potencial do Sul na musicalidade negra. Você poderia falar mais sobre a importância de representar essa cena e como o Rio Grande do Sul influenciou o seu som?
Muito é relacionado meu trabalho como representatividade negra no Sul, mas se não fossem artistas como Marietti Fialho, Paulo Dionísio, Bira Mattos, Jorge Cidade, Lilian Rocha, Marieta Silveira, Sopapo Poético, Oliveira Silveira e tantos outros que mantiveram e acenderam a luta, a nossa arte e dignidade… Eu não estaria aqui. Eu não sou nem um terço do que a cultura preta gaúcha é. Quis mostrar no meu primeiro álbum que o mais precioso e os artistas grandiosos que me abençoaram nesse projeto, estava na minha cidade, ao meu lado. São vozes que vivem de arte antes mesmo de eu nascer.
Então se eu trago comigo a honra e orgulho, (não de viver num estado que tem sua fama racista e preconceituosa, mas sim, de um estado marcado pela luta e resiliência de povos negros e originários, de todo povo rejeitado em mazelas sociais.) eu vou levar comigo as figuras que abriram os palcos, os teatros, as ruas pra que eu hoje, com 21 anos, artista negra pudesse viver do meu sonho.
O Sul tem muitas vozes potentes, e histórias que foram abafadas pela censura, violência, supremacia… A cada dia eu reconheço e me reencontro com vozes que tem lá seus mais de 20 anos de cultura, que seguem na luta por acreditar, e ainda sim, são invisibilizados, não só pelo próprio estado, mas também pelo próprio país. A arte negra, periférica, indígena, a arte de mulheres gaúchas, a arte feita pela comunidade LGBTQPI+, a arte do verdadeiro povo gaúcho é rica em conhecimento! E seguimos criando e lutando ainda que ao mesmo tempo tenhamos que provar nossa EXISTÊNCIA.
Eu espero que pelo meu trabalho eu consiga mostrar isso a quem ainda não nos enxerga nessa magnitude.
6. “EPIFANIA” não é apenas um álbum, mas também inclui uma animação que conta a história da personagem “Soul”. Como surgiu a ideia de criar essa animação e qual é o seu significado dentro do projeto?
Em uma fantasia, a cada música que ouvia, imaginava uma cor, um cenário, uma cena, um lugar! Então a história começou a surgir: ‘’ E se tivesse um lugar, onde todos os artistas vão quando criam suas melhores obras?’’. EPIFANIA era o lugar.
Se eu fosse pra essa dimensão, poderia assumir outra personalidade, um alter-ego, ou uma nova ‘’pele’’ que simboliza o processo de reencontrar minha voz, meu motivo. Escolhi o nome de ‘’SOUL’’, por mais óbvio que seja, é uma palavra linda, e que podemos brincar com o verbo ‘’ser’’ em português, não sei muito bem como foi a escolha, foi mais intuitivo, imaginei ela de cabelo roxo, sensível, esperta, curiosa, insegura… Até encontrar ‘’a música que vem da Alma’’. Tá aí! Eu entendo quem eu SOU através da Soul,hehe.
Acredito que ‘’EPIFANIA – O FILME’’ tem um tanto de ‘’Alice No País Das Maravilhas’’ e um tanto de ‘’Midnight Gospel’’. Como toda aventura, o personagem principal tem um melhor amigo, um ‘’grilo falante’’ que ajuda a passar pelos obstáculos durante a jornada. Como o meu falecido Tio Doni, estava muito presente durante o processo de inspiração, afinal muitas das obras e artistas que eu ouvia, eram do gosto dele, do seu universo, e de sua época jovem, eu escolhi ele pra ser inspiração pro personagem que acompanha SOUL nessa viagem.
Eu sempre fui apaixonada por filmes, e animação, dublagens… Era meu sonho conceber um universo só meu, então foi a deixa, EPIFANIA era o projeto perfeito pra isso. Muita fantasia e ao mesmo tempo a história puxa pra realidade de novo, cores e formas mágicas, e relatos como na cena de ‘’CORRE’’ dramáticos. Eu acho que é a forma como eu vejo o mundo quando escuto, escrevo música.
7. Sua trajetória vem dos Slams e da poesia de rua. Como essas experiências influenciam a sua música e a narrativa de “EPIFANIA”?
Sempre digo que o SLAM foi base pra me criar experiências de performance, de voz, de composição e interpretação. Um grande palco ao ar livre onde eu podia ser eu mesma. E pra chegar assim numa roda, na rua, cheia de desconhecidos, tem que ter coragem! E a poesia de rua, a arte de rua me deu coragem. Não só pro EPIFANIA, mas pra vida, sabe? Ter coragem pra não rimar mais do mesmo jeito, pra mudar a forma de cantar, pra dançar no palco, coragem pra dar uma pausa, coragem pra recomeçar, coragem!
8. O single “Redial” foi o primeiro a ser lançado do álbum. Como essa faixa se relaciona com o restante do projeto e o que ela representa para você?
REDIAL foi a primeira composição do álbum, ela veio inteira: melodia, rima, refrão. Eu segurei ela um tempo, porque não queria lançar de qualquer jeito. Ela foi um guia de pra onde podia ir com minha voz, e melodias. Meu Tio Doni, era muito sensível e romântico, e tinha vários poemas de amor nos seus cadernos, eu queria trazer esse drama ‘’meloso’’, quase que uma súplica ‘’Telefona!’’. E isso vem de encontro com as grandes canções de amor das referências como ‘’ O Telefone Tocou Novamente’’ de Jorge Ben, que traz a história de amor através da espera de uma ligação, eu gosto dessa espera, dessas relações vintage hahaha. Hoje em dia, as pessoas são práticas demais, não se ligam mais! E acho que falar ao telefone é um ato de amor hahaha. Outras referências pra ‘’REDIAL’’ são as músicas ‘’Você’’, e ‘’Lamento’’, também pela composição, mas não é o principal, o grande elo é a entrega! É como ele se declara nessas interpretações. Queria trazer esse drama, essa súplica, mas de uma forma mais moderna, e ainda dentro do recorte de um romance no meio artístico, ‘’como é se relacionar com um sonhador?’’.
9. Você foi indicada ao Prêmio Multishow 2023 e selecionada para o programa “All Stars” da Converse. Como essas conquistas impactaram a sua carreira e o lançamento de “EPIFANIA”?
Foi incrível. Uma injeção de esperança e motivação. Durante esses anos trabalhando EPIFANIA vieram muitas dúvidas, e obstáculos. Ter ‘’KAWO’’ uma música muito intuitiva e íntima, não tinha pretensão de agradar o público nela, queria desabafar, me libertar. E a música me trouxe essa indicação especial demais pro momento que vivia. E ser All Stars da Converse é um sonho! É como ver meus artistas favoritos usando peças, e marcas que eu queria usar também… Hoje eu sou uma das influencers e contempladas do projeto! A Converse é muito marcada pelos seus modelos clássicos e retrô, o que deu MUITO certo com a vibe de EPIFANIA e a construção da imagem da Soul, que hoje se mistura comigo, Cristal! Fora os artistas e mentes criativas que tenho conhecido através do projeto, é inspirador demais. Tenho certeza que vai rolar muitas collabs dessa conexão.
10. A presença de backing vocals femininos, como suas irmãs Kenia e Quinara, é uma característica marcante de “EPIFANIA”. Qual é a importância dessa união familiar e como ela contribui para a essência do álbum?
A Kenia e Quinara são irmãs, mas não minhas kkkk!
As duas são naturais de Porto Alegre, também. E as conheci através do grupo gaúcho de rap DAGUEDES, referência no estado. Nos conectamos antes mesmo de ter as faixas pra apresentar pra elas, e elas toparam de primeira. E fomos construindo a distância as gravações. Deu muito certo, elas são geniais.
Mas sim, no álbum trabalho em família, o produtor da maioria das faixas é MDN Beatz e ele foi diretor musical comigo em todo projeto, meu parceiro, meu primo! Apresentei os projetos e referências pra ele de sonoridades, vibes, tonalidades e fomos construindo juntos uma identidade nossa, da nossa parceria. Onde ele pudesse trazer a marca dele na
produção e eu a minha também. Isso sempre foi muito fluido, somos família, a gente se entende muito fácil, é muito natural!
11. O que você espera que os ouvintes sintam ao ouvir “EPIFANIA” e qual é a mensagem central que você deseja transmitir com esse trabalho?
Eu quero que ao ouvir cada faixa, o álbum leve a algum lugar da memória, a algum cheiro, quero que sintam nostalgia, quero que voltem no tempo, que possam se inspirar e buscar as referências, os artistas homenageados. E pra além de viajar pelo passado, que possam se inspirar, que traga esperança, futuro. Eu disse nas redes sociais esses dias algo como ‘’EPIFANIA te inspira? Então faça um texto, um vídeo, um desenho, compartilhe com o mundo!’’.
O projeto ‘’EPIFANIA’’ não é só um álbum-filme, é um começo, é um apelo pra brindarmos mais, pra termos mais dignidade, pra contemplarmos nossas vitórias, nossa luta, nosso descanso. Somos dignos de falar de amor, de fazer festa, de usar roupas coloridas e brilhosas, de sermos felizes. Quero poder lembrar nosso povo, que nossa origem não é sofrimento, e sim felicidade, vida!