O livro infantil “Cara de Nada”, de Ademir Luiz, propõe uma reflexão sobre identidade, autoestima e pertencimento durante a infância. Com ilustrações de Tiago Duarte e publicação pela Editora Mandru, a obra marca a estreia do escritor e historiador na literatura infantil e utiliza metáforas, humor e referências à cultura pop para abordar as inseguranças vividas pelas crianças.
O lançamento foi destaque na programação recente da União Brasileira de Escritores de Goiás (UBE-GO), que promoveu uma noite de autógrafos com o autor. A narrativa acompanha um menino que, desde o nascimento, sente que tem uma “cara de nada” e compara sua aparência a um zero.
A partir dessa percepção, a história aborda as comparações com outras pessoas e a influência do olhar alheio na construção da identidade. Ao longo do livro, o protagonista enfrenta situações que o levam a questionar a maneira como se enxerga e a reconhecer suas próprias características.
Livro infantil “Cara de Nada” discute autoestima
A obra utiliza situações cotidianas e imagens simbólicas para tratar de questões presentes na infância. O personagem é comparado a familiares e recebe associações inusitadas, como a expressão “cara de joelho”. Essas experiências ajudam a construir uma narrativa sobre as pressões sociais e as inseguranças relacionadas à aparência.
Para Ademir Luiz, a literatura infantil precisa respeitar a capacidade de compreensão dos leitores. O autor explica que a ideia do livro surgiu de sua experiência como gestor cultural e crítico literário, ao observar publicações que, em sua avaliação, apresentavam histórias pouco convincentes ou subestimavam a inteligência das crianças.
O escritor buscou desenvolver uma narrativa que dialogasse com o repertório das novas gerações. Entre as referências mencionadas por ele estão produções da Marvel e de Star Wars, além de álbuns de figurinhas da Copa do Mundo, skate e videogames.
A proposta é aproximar a literatura das experiências contemporâneas sem recorrer necessariamente a contos de fadas ou a histórias construídas em torno de uma lição moral explícita.
Metáfora do zero representa o valor individual
Um dos recursos centrais de “Cara de Nada” é a matemática como metáfora para discutir o valor de cada pessoa. Inicialmente, o protagonista associa o zero à ausência de importância. Ao longo da narrativa, porém, ele descobre que o significado desse número depende também de sua posição.
Quando colocado à direita do número um, o zero transforma o valor de um em dez. Ao acrescentar mais zeros, a sequência pode representar números ainda maiores. A descoberta ajuda o personagem a compreender que aquilo que parecia insignificante pode assumir outro significado em diferentes contextos.
A metáfora amplia a discussão sobre autoestima e pertencimento. Em vez de definir seu valor exclusivamente pela comparação com outras pessoas, o menino começa a reconhecer a importância de sua individualidade.
A narrativa também aborda a expressão das emoções. Ao questionar a ideia de que meninos não devem chorar, o livro permite que o protagonista manifeste suas angústias sem esconder o que sente.
Nesse percurso, as lágrimas se transformam simbolicamente em um mar no qual ele pode nadar com sua “cara de nada”. A imagem aproxima sentimentos difíceis de uma representação poética, mantendo o tom lúdico da história.
Óculos simbolizam uma nova forma de enxergar o mundo
Outra transformação importante ocorre quando o menino deixa de utilizar máscaras de brincadeira, como as de pirata ou policial, e passa a usar óculos. A mudança representa uma nova maneira de observar o mundo e compreender a si mesmo.
O recurso também reforça a reflexão sobre a identidade. O personagem começa a perceber que não precisa recorrer a disfarces para construir sua imagem nem aceitar como definitivas as avaliações feitas por outras pessoas.
Ademir Luiz conta que escreveu o livro pensando em seus sobrinhos, Netto e João Paulo, a quem dedicou a publicação. Segundo o autor, a intenção é conversar com crianças que vivem cercadas por diferentes referências culturais e que desenvolvem interesses diversos.
Ele também considera a possibilidade de escrever futuramente uma obra voltada às meninas. A declaração indica que “Cara de Nada” pode representar o início de uma nova frente em sua produção literária.
Ademir Luiz estreia na literatura infantil
Doutor em História, com especialização no período medieval, Ademir Luiz realizou pós-doutorado em Poéticas Visuais e Processos de Criação. Também foi bolsista pesquisador do Instituto Camões, em Portugal, e recebeu indicação ao Prêmio Capes de Teses.
O autor atua como professor universitário e editor da revista acadêmica Revista Nós: Cultura, Estética e Linguagens. Sua produção inclui romances, contos, histórias em quadrinhos e ensaios.
Entre seus livros estão Apologia ao fim, vencedor do Prêmio Cora Coralina, e Fogo de Junho, que recebeu o Prêmio Hugo de Carvalho Ramos. Ele também publicou o romance O Wikiota.
No universo dos quadrinhos, escreveu o roteiro da graphic novel Conclave, ilustrada por Rafael Campos Rocha. Ademir Luiz também criou a chamada Teoria do Chaves, publicada na Revista Bula.
Com “Cara de Nada”, o escritor leva sua experiência com a literatura e a reflexão crítica para o público infantil. A obra combina elementos matemáticos, referências culturais e situações do cotidiano para discutir como as crianças desenvolvem a percepção de si mesmas.
Serviço: livro “Cara de Nada”
- Título: Cara de Nada
- Autor: Ademir Luiz
- Ilustrações: Tiago Duarte
- Editora: Mandru
- Gênero: Literatura infantil e infantojuvenil
- Preço sugerido: R$ 79,90
- Lançamento: evento de autógrafos promovido pela União Brasileira de Escritores de Goiás (UBE-GO)
A obra acompanha a jornada de um menino que parte da sensação de não ter uma identidade própria até reconhecer sua individualidade. Com humor, referências à cultura pop e um projeto gráfico baseado na geometria circular, o livro propõe uma conversa sobre autoestima, diferenças e pertencimento, sem subestimar a inteligência das crianças.
