Livro debate prevenção de acidentes de trabalho no Brasil

O Brasil registrou 222.139 notificações de acidentes de trabalho entre janeiro e maio de 2026, segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), com base em dados do Ministério da Saúde. Diante desse cenário, o engenheiro de segurança do trabalho Carlos Henrique de Souza da Silva, conhecido como Nico, propõe uma reflexão sobre a eficácia das medidas de prevenção em seu livro Humanizar para Proteger.

Com lançamento previsto para 27 de novembro, em São Paulo, a obra questiona práticas de segurança que priorizam o cumprimento burocrático das normas sem garantir sua aplicação efetiva na rotina profissional. O autor defende que a participação dos trabalhadores e a atenção às condições reais de trabalho devem orientar as decisões das empresas.

Nico tem mais de 17 anos de experiência na área e aborda a relação entre prevenção, saúde ocupacional e gestão empresarial. Para ele, documentos, treinamentos e equipamentos de proteção são necessários, mas precisam estar associados a medidas que reduzam efetivamente os riscos.

Acidentes de trabalho expõem limites da prevenção formal

Os dados de mortalidade também dimensionam o problema. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 3.644 trabalhadores morreram em acidentes de trabalho em 2025. O número equivale a quase dez mortes por dia.

Entre 2016 e 2025, o país acumulou 27.486 óbitos e mais de 106 milhões de dias de trabalho perdidos em decorrência de acidentes, de acordo com os dados citados no material de divulgação do livro.

Na avaliação de Nico, esses números reforçam a necessidade de verificar se os programas de segurança funcionam nas operações cotidianas. Um procedimento pode estar formalmente correto, mas não oferecer proteção suficiente quando ignora as características da atividade ou as dificuldades enfrentadas pelos profissionais.

O autor também destaca a importância de ouvir os trabalhadores. Quem atua diretamente nas operações pode identificar situações perigosas que nem sempre aparecem em auditorias, relatórios ou inspeções.

Segurança do trabalho pode reduzir custos nas empresas

Em Humanizar para Proteger, Nico apresenta a prevenção como parte da estratégia de gestão, e não apenas como uma obrigação legal. A redução de acidentes e doenças ocupacionais pode contribuir para diminuir afastamentos, rotatividade de profissionais, interrupções operacionais e despesas relacionadas a processos trabalhistas.

Segundo o autor, investimentos em humanização dos processos podem gerar retorno financeiro de até R$ 6,45 para cada R$ 1 aplicado. O resultado citado considera benefícios associados à melhoria das condições de trabalho e à prevenção de riscos.

“Humanizar não significa romantizar a segurança do trabalho. É aplicar as normas de forma prática, colocando as pessoas no centro das decisões e mostrando que proteger vidas também pode ser lucrativo para as empresas”, afirma Nico.

A proposta envolve avaliar se os equipamentos de proteção são adequados às atividades, se os procedimentos correspondem à realidade das operações e se os profissionais conseguem comunicar situações de risco sem receio.

O envolvimento das lideranças também faz parte desse processo. Quando a segurança integra as decisões diárias, a prevenção deixa de se limitar a documentos e passa a orientar práticas e comportamentos.

Atualização da NR-1 amplia debate sobre riscos ocupacionais

A discussão sobre prevenção também envolve a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece disposições gerais de segurança e saúde no trabalho e orienta o gerenciamento de riscos ocupacionais.

O material de divulgação do livro destaca as novas disposições relacionadas aos fatores de riscos psicossociais no trabalho, cuja entrada em vigor ocorreu em 26 de maio de 2026. Entre os aspectos que exigem atenção estão sobrecarga, assédio e falta de apoio organizacional.

Esses fatores ampliam a discussão para além das condições físicas do ambiente profissional. A organização das tarefas, a distribuição das responsabilidades e as relações de trabalho também podem influenciar a saúde dos trabalhadores.

A abordagem está relacionada ao reconhecimento, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), de um ambiente de trabalho seguro e saudável como princípio e direito fundamental no trabalho, em 2022.

Nesse contexto, o livro propõe avaliar os resultados das medidas preventivas pela capacidade de reduzir a exposição aos riscos e melhorar as condições de trabalho, em vez de considerar apenas a quantidade de documentos e treinamentos realizados.

Livro reúne orientações práticas para profissionais e gestores

Dividido em 12 capítulos, Humanizar para Proteger apresenta orientações para aplicar as Normas Regulamentadoras e discute diferentes aspectos da segurança ocupacional.

Entre os temas abordados estão a atuação das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e de Assédio (Cipas), a escolha de equipamentos de proteção individual, a ergonomia, a prevenção em atividades de maior risco e os impactos financeiros da negligência.

A obra é direcionada a técnicos e engenheiros de segurança do trabalho, empresários, gestores e profissionais de recursos humanos interessados em aprimorar as práticas preventivas nas organizações.

O lançamento está previsto para 27 de novembro de 2026, em São Paulo, data em que se celebra o Dia do Engenheiro de Segurança do Trabalho e do Técnico de Segurança do Trabalho no Brasil.

A proposta central do autor é aproximar as exigências legais da realidade das operações, colocando a proteção dos trabalhadores no centro das decisões empresariais.