Entrevista: Sistah Mari, cantora, compositora e produtora

1- “Ascender” chega como o segundo capítulo de uma trilogia iniciada com “Evoluir”. O que mudou em você, como artista e como pessoa, entre esses dois momentos, e como essa transformação aparece no novo álbum?
R: Entre “Evoluir” e “Ascender”, a maior mudança foi perder o medo da vulnerabilidade e confiar na minha intuição. Quando lancei “Evoluir”, eu estava saindo do lugar, tentando decifrar o mundo e buscando algo  mais pessoal. Era um disco de movimento e descoberta. Já “Ascender” nasce de um olhar para dentro. Amadureci, aceitei minhas cicatrizes e entendi que evoluir também é ganhar perspectiva.

2- O conceito de “ascender” está relacionado à ideia de crescimento, conquista de espaços e iluminação diante das questões sociais. O que significa ascender para você dentro da realidade de uma mulher negra, periférica e artista no Brasil?
R: Para mim, como mulher negra, periférica e artista no Brasil, “ascender” é subversão e emancipação coletiva.Não é sobre subir sozinha; é sobre ocupar espaços que nos foram negados, ditar nossas próprias narrativas e puxar os meus comigo. Em um sistema que nos quer na base, a nossa existência e o nosso brilho são ferramentas de transformação social.

3- O álbum aborda temas como empoderamento, identidade, amor, luto, racismo e desigualdade social. Como você equilibra questões tão diferentes sem perder a unidade conceitual do trabalho?
R: O equilíbrio vem do fato de que todos esses temas atravessam o mesmo corpo: o de uma mulher negra e periférica. Na minha pele, o amor, o luto, o racismo e o empoderamento não são gavetas separadas; eles acontecem ao mesmo tempo.

4- “Espelho de Rainha” e “Mulher e Poder” tratam da união e do apoio entre mulheres negras. De que maneira suas próprias experiências influenciaram a construção dessas duas faixas?
R: Essa é sobre ancestralidade e futuro. Escrevi pensando nas artistas que vieram antes de mim e abriram os caminhos com o facão, nas que chegaram depois dividindo o corre comigo, e nas que virão amanhã. nasceram das minhas vivências reais com as mulheres periféricas que me cercam:O cotidiano em “Espelho de Rainha”: Essa música nasceu  do pensamento que sempre tive enquanto ser humano ouvindo os desabafos e a sabedoria das mulheres da minha família e amigas. É ali, na rotina da periferia, que a nossa autoestima é construída e acolhida

5- “Rebel Ato” é uma homenagem a um professor, mestre e amigo que faleceu recentemente. Como o luto e a memória dessa pessoa atravessaram o processo de criação e gravação da faixa?
R: “Rebel Ato” foi a faixa mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais necessária de fazer. Gravar essa música foi um processo de transformar a dor do luto em combustível político e poético.Assim como o Rodrigo foi aqui em Vida. Essa faixa não é uma despedida triste, é a eternização de um mestre. Ele partiu, mas a semente que ele plantou em mim ecoa em cada linha desse som.

6- “Vozes do Silêncio” e “Bem-Vindo ao Brasil” trazem para o centro do álbum a violência estrutural e o racismo nas periferias. Que situações ou reflexões motivaram essas composições e o que você espera provocar no público ao ouvi-las?
R: Essas composições foram motivadas pela realidade violenta e diária das nossas periferias, onde o racismo estrutural dita quem vive e quem morre. Elas nasceram da urgência de quebrar o silêncio diante de dores que a sociedade tenta normalizar.

7- O álbum transita por reggae roots, dub, Lovers Rock e Reggae do Maranhão. O que levou você a reunir essas diferentes vertentes em “Ascender” e como elas ajudam a contar a história que você queria construir?
R: O que me levou a reunir esses ritmos foi o desejo de mostrar que a nossa jornada de ascensão é diversa, global e cheia de texturas. Eu queria uma sonoridade que fosse ao mesmo tempo ancestral e contemporânea. Só deixando claro que a minha intenção não foi fazer um Reggae do Maranhão, mas sim explorar a riqueza da música periférica de forma ampla e diversificada. O álbum transita por caminhos como o reggae dub , Lovers , cumbia e steppa com um toque de Brasilidades

8- Você nasceu na Zona Leste de São Paulo e construiu uma trajetória de quase 20 anos na música. Como a relação com o território e com a cultura periférica influencia sua identidade artística e sua maneira de fazer reggae?
R: A influência da ZL traz exatamente isso: a urgência urbana e o peso do sound system de quebrada. A periferia me ensinou que a nossa música precisa de propósito, mas não precisa ser chata.Minha trajetória dita a minha forma de fazer reggae através dessa dualidade:Papo reto e pista de dança: Minha música traz cultura e informação, mas também é entretenimento. O público pode rebolar, curtir o som, mas com a mão na consciência. O grave bate na bunda e a letra bate na mente.Reggae com a cara do asfalto: O reggae que eu faço não nasce de uma brisa caribenha idealizada; ele tem a crueza do rap de SP, a versatilidade de ritmos latinos e a energia dos bailes da ZL.

9- “Teu Corpo”, “Envolver” e “Leoa Sedenta” apresentam outras dimensões do álbum, relacionadas ao desejo, ao amor e à paixão. Qual é a importância de falar sobre afeto e sensualidade dentro de um trabalho que também discute resistência e questões sociais?
R: É fundamental porque o afeto também é uma forma de resistência. Para nós, que somos bombardeadas por estatísticas de violência e dor, reivindicar o prazer e o amor é um ato profundamente político rs

10- Você participou diretamente das produções de “Ascender”, ao lado de Ras Lillo e Piroupo, enquanto Rodrigo Loli assinou arranjos adicionais, mixagem e masterização. Como foi assumir uma participação tão ampla na construção sonora do álbum e como funcionou essa colaboração com os demais produtores?
R: Assumir a produção de Ascender ao lado do Ras Lillo e do Piroupo, com o toque do Rodrigo Loli, foi o que garantiu a minha assinatura em cada detalhe do álbum. Essa construção coletiva foi muito especial porque envolveu quem caminha comigo de verdade, como o meu primo Alex Vizzate, que assina a produção de “Leoa Sedenta”. Além disso, a liga sonora aconteceu  tambem com meu time de músicos: o Edgard Tacconi na digital drum, o Fabio Piruka na guitarra, o Gabriel Ruffo no teclado e a Denise de Paula nos backings. Estar na linha de frente com essa equipe foi um processo de liderança e respeito, onde pude amarrar o conceito do disco do início ao fim com a nossa verdadeira identidade.

11- A ideia de “Ascender” envolve não apenas chegar a novos espaços, mas também compartilhar aquilo que foi conquistado com a comunidade. O que você deseja devolver à cena do reggae e às pessoas que acompanham sua trajetória a partir deste novo momento?
R: Para mim, “Ascender” só faz sentido se for no plural. O que eu desejo devolver para a cena do reggae e para quem me acompanha é autonomia, inspiração e o fortalecimento da nossa estrutura. Quero que esse álbum sirva de espelho para que outras mulheres pretas e periféricas vejam que é possível liderar as próprias produções e ditar as suas próprias narrativas. Devolvo ao meu público música com cultura, informação e entretenimento de alta qualidade , para fazer rebolar com a mão na consciência. Minha conquista é uma ferramenta para abrir portas, gerar oportunidades para os meus e garantir que a nossa cultura periférica continue avançando com dignidade, respeito e o pé fincado na realidade de onde viemos.

12- Depois do lançamento do álbum, você tem shows marcados para 10 de outubro, na Okupação Cultural Coragem, e 28 de outubro, na Galeria Olido, em São Paulo. O que o público pode esperar dessas apresentações e quais são os próximos passos de Sistah Mari após “Ascender”?
R: Na Okupação Cultural Coragem, estarei em casa, na Zona Leste, celebrando com a minha comunidade; na Galeria Olido, levaremos a força do asfalto para o centro de São Paulo. Serão apresentações para dançar, se emocionar e, claro, rebolar com a mão na consciência.