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Entrevista: Sinuhe LP e João Albino, musicos - Marramaque

Entrevista: Sinuhe LP e João Albino, musicos

  1. “São Ão” aparece no projeto como uma espécie de entidade simbólica dos encontros. De onde surgiu esse conceito e em que momento vocês perceberam que ele poderia conduzir todo o EP?

    Sinuhe- Eu e João completamos esse ano praticamente 10 anos de uma caminhada compartilhada na música. A nossa amizade nasceu de uma canção, a primeira que fizemos, “Hoje Não”, em 2016. Ao longo dos anos, viemos compondo uma série de canções para projetos variados, e tínhamos o ímpeto de registrá-las em um EP. Fomos para um sítio em Macatuba-SP, em 2025, e percebemos como cada pessoa presente naquele espaço fez a total diferença. Com a sua luz, sua musicalidade, sua presença. Juntos e juntas, todas e todos no sítio, para gravar o EP, ficamos extasiados em como aquele encontro era valioso. E como as canções também versavam sobre o encontro. Foi inevitável pensar sobre o encontro como tema e proposta do EP. Tudo fez e faz sentido, com o encontro como centro. São Ão aparece como o termo para a celebração do encontro. E o que é a canção, senão, um encontro?
    João- –O conceito surgiu no sítio e foi sendo construído até o último minuto do processo do fonograma. A principal epifania para chegarmos a ele aconteceu quando percebemos que a beleza daquele encontro estava justamente no ordinário. A célula básica de tudo aquilo era, simplesmente, estar no mesmo lugar. E só ocupar esse mesmo lugar já era divino o suficiente. Foi nesse momento, ao reparar na beleza do que estava acontecendo, que celebramos São Ão. 
  1. O projeto estabelece um diálogo direto com a literatura de Guimarães Rosa. Como a obra do escritor influenciou a construção das canções e da própria ideia de “São Ão”?

    S-Somos compositores e antes de tudo, leitores. A obra de Guimarães Rosa é atravessada pela canção, seja em Grande sertão: veredas (com a “Canção de Siruiz”), seja nos temas epílogos de Sagarana, etc. Eu cresci com o amarelinho Primeiras estórias (1962), apresentado a mim pelo meu pai, tomado principalmente por “A terceira margem do rio”. O livro tem o conto “Famigerado”, que se passa na terra de São Ão. O conto é sobre um encontro: entre um jagunço destemido e um médico hiperletrado, tudo sob o fundo de um problema de linguagem. Inspirados e tocados pela trama, emprestamos “São Ão” para definir a nossa celebração do encontro. 
  1. Vocês afirmam que a canção é uma “arte do encontro”. Para vocês, o que a música consegue proporcionar nos encontros entre artistas, público, memórias e diferentes gerações?

    S-Uma canção é um pedaço de tempo. Eu também sou, João também, quem está lendo este trecho também. Temos nossos tempos. Quando juntamos os nossos próprios tempos, temos um encontro. E ele é potente, bonito, mágico, algo que inspira. Registrar um tempo é registrar um encontro! Entre pessoas e suas intenções, nossos acordes, nossas letras, e a nossa história. Tudo isso está em uma canção.
    J-Não há música sem encontro. O sentido de uma música só existe porque alguém a escreveu, mas – principalmente – porque alguém a escutou. É aí que o milagre da música existe (como em diferentes artes). Ela tem poder, e a gente quis celebrar isso dentro do disco. Porque, inclusive, nossa amizade só passou a existir pela música. Sempre agradeço a Ela, deusa-música, e agora a São Ão.
  1. O EP reúne quatro faixas que abordam encontros e desencontros em momentos distintos da vida. Como foi definir essa sequência e construir esse percurso narrativo?

    S-“Hoje Não” nasceu em 2016. “Um Quarto de Mim” em 2019. “Infância” entre 2020 e 2021, e “Escola de Jorge” em 2025. Percebemos que as quatro canções falam sobre encontros interessantes. Em ordem cronológica: a recusa do encontro, o encontro entre dois, o encontro consigo mesmo, e o encontro com a espiritualidade. Deste entendimento, as canções se aproximaram e foram transformadas no EP.
    J- A ordem das músicas foi pensada também para reforçar uma narrativa. Os coros do início dão o prólogo de todos os elementos que ditam o EP. O início é igual ao fim. As 4 vozes começam e terminam em “Salve Jorge”. Procuraremos, com a ordem das músicas, dar uma cara coesa para a obra.
  1. “Um Quarto de Mim” fala sobre abrir espaço para outra pessoa dentro da própria história e ainda dialoga com “You Don’t Know Me”, de Caetano Veloso. Como essa referência entrou na composição?

    S-“You Don’t Know Me” é um grito de um brasileiro exilado, que canta em uma língua estranha à sua, mas reivindica a sua cultura, a sua terra, a sua história. Penso que “Um Quarto de Mim” é menos um grito exilado, e mais um convite ao descobrimento de novas terras. Como “venha conhecer o meu país”, você pode “get know me”, você não me conhece, mas pode me conhecer. Para além do “the wall”. “Dois corpos podem gostar de ocupar o mesmo lugar”.  Há também uma brincadeira com a pronúncia de “know me” e sua similaridade à pronúncia de “nome”. Conhecer é saber seu nome. “Que beleza é poder saber seu nome”, disse Tim Maia. Desta similaridade de pronúncia que a canção é citada no EP. E também porque tocando a canção, lembramos a canção de Caetano.
  1. “Hoy No” aborda o momento de reconhecer o fim de uma relação. O que vocês queriam explorar sobre os desencontros e sobre a dificuldade de aceitar que determinados encontros também chegam ao fim?

    S-O encontro é finito. E por isso é bonito. “Hoy No” versa sobre essa finitude, a mudança de atitude, uma escolha. O eu lírico conta o fim do seu encontro com a pessoa amada porque assim o quis.
    J-“Hoy No” inicia com um personagem ensaiando o fim. “Enquanto eu caminhava pelas ruas de Cuba…”. Dada a dificuldade que o eu-lírico teve em dizer, a canção é a mensagem do basta, é o finalmente ter coragem de dizer. E, por fim, a despedida: “Sayonara, mi amor”.
  1. “Infância” coloca passado, presente e futuro diante da mesma porta. De que maneira as lembranças de Bauru e da infância de vocês contribuíram para a construção dessa música?

    S-Bauru sempre será a nossa infância, o nosso pretérito, um lugar idealizado. A canção surgiu sob a perspectiva do adulto que ao visitar seus lugares da infância, percebe como as coisas mudaram. O que antes parecia grande, hoje na verdade é pequeno. É sobre o encontro com o passado, um revisitar.
    J-“Infância” também é diálogo. É revisitar as nossas histórias. Sinto que a canção pode produzir dois movimentos, dependendo do dia que a escuta. O primeiro, mais suave, pode ser a leveza bela de uma nostalgia. O carrinho de rolimã. Já em um segundo momento, a canção pode provocar um movimento de ter que lidar com assuntos que ainda estão abertos. Marcas mesmo. Todo dia a gente fala com a nossa criança (e nem sempre é fácil).
  1. “Escola de Jorge” reúne fé, misticismo, referências a Ogum e a São Jorge e uma homenagem aos professores. Qual é a relação pessoal de vocês com esses elementos e por que essa faixa foi escolhida para abrir o projeto?

    S-Escolhemos Escola de Jorge como uma canção envolvente e muito brasileira. Somos ligados à espiritualidade e filhos de professores. A fé na educação é um dos temas da canção, uma homenagem a nossos pais, professores, e também a fé de cada um, a fé de acreditar na travessia, no milagre da procissão.
    J-São Jorge/Ogum também sempre foi um tema correlato também. Lembro há algum tempo de uma conversa que tivemos sobre a figura de Ogum aparecer em diferentes aspectos de nossas vidas, desde momentos em celebrações religiosas ou até o porcelanato que uma de nossas avós tinha. Vejo mais como um outro tipo de encontro que nos instigou.
  1. O EP traz referências de artistas como Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Chico Buarque, Pablo Milanés, Caetano Veloso e Bad Bunny, além de Julio Cortázar. Como vocês equilibraram essas influências para construir uma identidade própria para o trabalho?

    S-As influências estão subentendidas. São citações às referências, seja em letra, seja em melodia, uma reverência ao que veio antes e que contribui para a nossa caminhada artística.
    J-E, dado o cenário geopolítico, cada vez mais acredito na necessidade de reafirmarmos a latinidade enquanto conceito. O período é delicado e demanda atenção. A arte é um meio interessante para esta exaltação. Acredito que trazer essas referências para dentro da obra nos ajuda a comunicar com o tempo do mundo. 
  1. A capa foi produzida a partir de uma festa real, com familiares, amigos, comida e elementos ligados às reuniões do interior. Por que era importante que essa imagem fosse construída a partir de um encontro verdadeiro, e não em um cenário de estúdio?

    S-Quisemos produzir um encontro de verdade. E foi sensacional celebrar o encontro entre amigos e registrá-lo para a capa do EP. Isso trouxe São Ão para a realidade. Um encontro real. Com bolo, suco, música ao vivo, e bandeirinhas penduradas, em um quintal de casa.
    J-E por fim, a festividade, em si – para além do ato de encontro – é a própria celebração. E para mim, é nesse ponto que mora a beleza da capa. É o sorriso do amigo. É a risada da criança. O disco é uma celebração, e acho que a capa precisava conversar com isso.
  1. Vocês são de Bauru e agora falam sobre abrir novas portas de encontros na capital paulista. O que a trajetória construída no interior ensinou à dupla e o que vocês esperam encontrar nessa nova etapa?

    S-Bauru é também um microcosmo do mundo. Em Bauru aprendi o que é o palco, como envolver o público, o que funciona, o que deve ser evitado. Bauru também tem a casa de meus pais, a comida da minha infância, meus amigos mais antigos e minhas memórias mais vivas. “Bauru tem hasteia a bandeira fincada em meu pensamento”. Queremos desbravar São Paulo com o que trazemos de Bauru. Propagar nossas canções no ar! E conhecer novos encontros.
    J-Mudamos para São Paulo há alguns anos. Querendo ou não, aqui se tornou nossa cidade também. Fazer daqui nosso ponto de divulgação vem sendo  importante para conseguirmos conversar com o diferentes cenas, inserir em múltiplos lugares. O movimento de nos lançarmos em São Paulo é a tentativa de expandir a capacidade de onde podemos ir.
    Bauru nos deu a régua. O que a gente pretende agora é ver até onde conseguimos levar nosso trabalho. 
  1. Depois de colocar “São Ão Tem Razão” no mundo, quais são as próximas portas que Sinuhe LP e João Albino querem abrir? Há planos de shows, novos lançamentos ou outras ações relacionadas ao EP?

    S-Fizemos dois shows no Parlapatões em São Paulo. Um lançamento no Teatro Municipal de Bauru e o próximo show é na Casa Odette (SP), dividindo palco com Luísa Ramos e Isabella Grossi. Já estamos afinados para um segundo EP, o segundo encontro, com novas canções!