1. A Cigarra Autista nasceu também da sua experiência pessoal como mãe de uma adolescente autista. Em que momento você percebeu que essa vivência poderia se transformar em um projeto artístico e educativo?
A Cigarra Autista nasceu de uma experiência muito íntima, da minha vivência como mãe, mas desde o início eu senti que essa história não poderia ficar somente dentro da minha família. Percebi que aquilo que eu estava vivendo poderia se transformar em uma ponte para outras famílias, para as crianças, para os educadores e para toda a sociedade.
A arte sempre foi a minha forma de comunicar sentimentos e de dialogar com o mundo. Então, naturalmente, comecei a transformar minhas experiências em música, em personagens e em uma história que pudesse falar sobre autismo de uma maneira leve, afetiva e acessível.
A própria história de Sibelle foi inspirada nessa realidade: uma personagem que encontra na música e na arte uma maneira própria de se expressar. A obra começou como uma expressão de amor e acabou se tornando também uma missão de conscientização e inclusão.
Eu queria mostrar que, quando uma criança não se comunica da maneira que a maioria das pessoas espera, isso não significa que ela não tenha o que dizer. Muitas vezes, precisamos simplesmente aprender a escutar de outra maneira.
2. A personagem Sibelle é uma cigarra autista que vive na Floresta Amazônica e encontra na arte e na música formas de se expressar. Como foi construir essa personagem e definir a floresta como cenário da história?
Sibelle nasceu de uma mistura muito profunda entre a minha experiência e a experiência da minha filha. Ela representa uma criança que possui uma maneira singular de sentir, perceber e se comunicar com o mundo.
Eu quis que Sibelle fosse uma personagem artista, porque acredito profundamente que a arte pode abrir portas quando outras formas de comunicação encontram barreiras. E a cigarra tem uma simbologia muito bonita: ela tem uma voz própria, um canto próprio. Ela não precisa cantar como os outros animais. Ela precisa encontrar o seu próprio canto.
A escolha da Floresta Amazônica também foi muito consciente. A Amazônia representa a nossa identidade, a nossa biodiversidade e uma riqueza que precisa ser conhecida e protegida. É uma floresta onde milhares de formas de vida coexistem, cada uma com suas características. Para mim, essa diversidade da natureza é uma metáfora muito poderosa para falar sobre a diversidade humana.
Sibelle vive em uma floresta onde ninguém deveria precisar ser igual ao outro para ter o direito de existir. Essa é uma das mensagens mais importantes da obra.
3. O projeto reúne livro infantil, música, musical, curta-metragem de animação e ações educativas. Como esses diferentes formatos se complementam na proposta de falar sobre autismo e inclusão?
Acredito que a inclusão também precisa ser pensada de maneira plural. Nem todas as pessoas aprendem, sentem ou se comunicam da mesma maneira. Por isso, não queria que A Cigarra Autista fosse apenas um livro ou apenas uma música.
A literatura permite que a criança imagine e entre na história. A música no CD e Musical permite sentir e participar. A animação cria uma experiência visual e emocional. E as ações educativas permitem transformar aquela experiência em conversa, reflexão e conhecimento.
É uma obra que procura alcançar diferentes portas de entrada. Uma criança pode conhecer Sibelle pelo livro, outra pela música, outra pelo cinema. E, a partir daí, podemos iniciar uma conversa sobre autismo, diferenças, respeito, amizade, natureza e inclusão.
O projeto foi crescendo justamente porque percebi que a mensagem precisava atravessar diferentes linguagens. Hoje, ele reúne literatura, música, animação e educação, e também vem ganhando versões em diferentes idiomas e recursos de acessibilidade.
4. O que você gostaria que uma criança autista encontrasse em A Cigarra Autista e percebesse sobre sua própria forma de se expressar e se relacionar com o mundo?
Gostaria, que ela se reconhecesse. Que uma criança autista pudesse olhar para Sibelle e pensar: “Eu também tenho uma voz. Eu também tenho sentimentos. Eu também tenho talentos. Eu também posso criar.”
Não quero que a criança autista sinta que precisa deixar de ser quem é para ser aceita. Quero que ela compreenda que existem diferentes formas de comunicação e diferentes maneiras de estar no mundo.
Às vezes, uma criança fala com palavras. Outra fala através da música, do desenho, do movimento, do olhar, de gestos ou de outras formas de expressão. Precisamos aprender a reconhecer essas linguagens.
A mensagem que eu gostaria que Sibelle deixasse para cada criança é: você não precisa ser igual para ter valor. Você merece ser ouvido, respeitado, amado e ter oportunidades para desenvolver todo o seu potencial.
5. Para crianças não autistas, familiares e educadores, que tipo de reflexão você espera provocar por meio da história de Sibelle?
Gostaria que eles saíssem da história com uma pergunta muito simples: “Será que eu estou realmente escutando o outro?”
Porque inclusão não é apenas colocar uma pessoa em determinado espaço. Inclusão é criar condições para que ela participe, se expresse, seja respeitada e tenha suas diferenças reconhecidas.
Para as crianças não autistas, quero estimular desde cedo a amizade, a empatia e o respeito às diferenças. Para os familiares, quero transmitir acolhimento e esperança. E para os educadores, quero lembrar que cada criança aprende e se comunica de uma maneira particular.
Também gostaria que as famílias percebessem que não estão sozinhas. A maternidade atípica muitas vezes vem acompanhada de desafios que nem sempre são compreendidos pela sociedade. A arte pode ajudar a transformar esses desafios em diálogo.
6. O projeto também estabelece uma relação entre inclusão e preservação ambiental. Por que foi importante conectar a conscientização sobre o autismo à Floresta Amazônica e às questões ambientais?
Porque, para mim, diversidade é uma palavra que atravessa tudo.
Quando olhamos para a natureza, percebemos que a vida existe justamente porque existe diversidade. A floresta não é formada por uma única árvore, um único animal ou uma única espécie. É a convivência entre diferentes formas de vida que cria aquele ecossistema.
Eu vejo uma grande beleza nessa metáfora para falar sobre inclusão.
A Floresta Amazônica também é um patrimônio brasileiro que precisa ser valorizado e protegido. Então, ao colocar Sibelle nesse cenário, eu consigo falar simultaneamente sobre respeito às diferenças humanas e respeito à natureza.
A mensagem é: não precisamos destruir aquilo que é diferente para construir um mundo melhor. Precisamos aprender a conviver, cuidar e preservar.
7. O curta-metragem está disponível em nove idiomas e conta com recursos de acessibilidade, como Libras e audiodescrição. Quais desafios surgiram para tornar uma produção artística sobre inclusão acessível a públicos tão diversos?
Esse foi um dos grandes desafios e, ao mesmo tempo, uma das partes mais importantes do projeto.
Quando falamos de inclusão, não podemos produzir uma obra sobre inclusão e esquecer a acessibilidade. A acessibilidade precisa fazer parte da própria concepção da obra. E isso também acontece no Musical na França e no Brasil, tenho no elenco autistas-artistas, para não somente falar sobre inclusão, mas promover inclusão.
Levar A Cigarra Autista para nove idiomas significa pensar em diferentes culturas, diferentes formas de compreensão e diferentes públicos. O curta atualmente está disponível em português, francês, inglês, espanhol, italiano, mandarim, alemão, japonês e árabe, além de contar com Libras e audiodescrição.
Mas traduzir não significa apenas trocar palavras de um idioma para outro. É preciso preservar o sentimento, a mensagem e a essência da história.
E a acessibilidade também nos ensina uma coisa muito importante: quando criamos pensando em diferentes pessoas, a obra se torna maior. Ela deixa de pertencer a um único público e passa a dialogar com uma sociedade muito mais diversa.
8. A apresentação no Center for Family Support, em Nova York, marcou o lançamento da edição em inglês do livro The Autistic Cicada. O que essa primeira experiência com o público norte-americano revelou sobre a recepção do projeto fora do Brasil?
Foi um momento muito especial porque representou uma passagem importante da obra para uma dimensão internacional.
Apresentar The Autistic Cicada em Nova York, em um espaço ligado ao atendimento de pessoas com deficiências do desenvolvimento, mostrou que a mensagem de Sibelle pode atravessar fronteiras culturais. O evento reuniu literatura, animação e música, permitindo que o público conhecesse o projeto através de diferentes linguagens.
O que mais me emociona é perceber que, mesmo quando mudam o idioma, a cultura ou o país, existe algo que permanece universal: o desejo de ser respeitado, de ser compreendido e de poder se expressar.
Eu saí dessa experiência com a certeza de que a inclusão é uma linguagem internacional. E que a arte pode ser uma das pontes mais bonitas para construir esse diálogo.
9. Você vive na França há mais de 23 anos e construiu uma trajetória internacional na música e na produção cultural. De que maneira essa experiência contribuiu para levar A Cigarra Autista a outros países?
Viver tantos anos fora do Brasil me ensinou a olhar para a minha própria identidade de uma maneira muito mais ampla. Eu carrego comigo o Maranhão, o Brasil, a música brasileira, a cultura amazônica e, ao mesmo tempo, todas as experiências que tive na Europa e em outros lugares do mundo.
Essa trajetória internacional me mostrou que a arte brasileira pode dialogar com públicos muito diferentes sem perder sua identidade.
A Cigarra Autista nasce profundamente brasileira, mas fala de sentimentos universais. A música, a maternidade, a infância, a diferença, o amor e a necessidade de inclusão não pertencem a um único país.
A minha experiência na França também me deu a possibilidade de trabalhar com diferentes culturas e idiomas. Isso ajudou a criar uma obra que pudesse viajar e ser compreendida em diferentes lugares. Hoje, essa internacionalização já passa por versões da obra em vários idiomas e por apresentações em diferentes países.
10. Como você avalia o papel da arte na discussão sobre inclusão e diversidade? Existe algum limite entre conscientizar o público e transformar uma questão social em uma obra artística?
Acredito que a arte tem uma capacidade enorme de tocar lugares que muitas vezes uma palestra ou uma estatística não conseguem alcançar.
Quando uma criança conhece Sibelle, ela não está recebendo simplesmente uma informação sobre autismo. Ela está acompanhando uma personagem, conhecendo seus sentimentos, suas dificuldades, seus sonhos e sua maneira de se expressar. Ela cria uma relação afetiva com aquela história.
Para mim, existe uma diferença importante entre transformar uma questão social em arte e transformar uma questão social em produto. Eu não quero transformar a dor de uma família em espetáculo. Quero transformar uma experiência de vida em consciência, diálogo e possibilidade.
A arte não substitui políticas públicas, educação, saúde ou direitos. Mas ela pode ajudar a mudar o olhar das pessoas. E quando o olhar muda, muitas vezes começa também uma mudança na maneira como a sociedade trata o outro.
É por isso que digo que A Cigarra Autista é uma obra artística, mas também é uma ferramenta de conscientização e uma declaração de amor à diversidade.
11. Depois da etapa nos Estados Unidos e da participação em eventos internacionais, quais são os próximos caminhos que você imagina para A Cigarra Autista no Brasil e no exterior?
Vejo A Cigarra Autista como uma obra que ainda tem muitos caminhos para percorrer.
No Brasil, quero continuar levando o projeto para escolas, cinemas, famílias, instituições culturais e espaços onde possamos conversar sobre inclusão. Quero que Sibelle chegue principalmente às crianças, porque acredito que a transformação precisa começar cedo.
No exterior, quero ampliar as apresentações e as traduções, aproximando o projeto de diferentes comunidades e países. A experiência de Nova York e do Centro Cultural da China em Paris, foi muito importante nesse processo, e a circulação internacional mostra que existe espaço para essa conversa em diferentes culturas.
Também quero fortalecer a dimensão educativa do projeto. Meu sonho é que A Cigarra Autista não seja apenas assistida ou lida, mas que gere atividades, conversas e novas possibilidades de expressão para crianças autistas e não autistas.
E existe um objetivo que permanece desde o começo: contribuir para que inclusão deixe de ser apenas uma palavra bonita e se transforme em prática cotidiana.
Além das 157 salas de cinemas do CINESYSTEM em todo o Brasil, o curta da Cigarra estará no SESC e CINE LUME de Sao Luis, e na TV Americana Brazilian Times, durante todo o mês de outubro.
Dia 11/11 lançarei o curta de animação da Cigarra Autista em Londres, em 2027 será o Festival de Curta-metragem da UNESCO de Paris e o Festival de Cinema Brasileiro de Paris, JANGADA, durante todas as seções.
12. Se pudesse deixar uma mensagem para famílias atípicas, crianças autistas e pessoas que ainda têm pouco contato com o tema, o que gostaria que elas levassem consigo depois de conhecer A Cigarra Autista?
Diiria para as famílias atípicas: não desistam de procurar a linguagem dos seus filhos. Talvez ela não seja a linguagem que a sociedade espera, mas isso não significa que ela não exista.
Para as crianças autistas, eu diria: vocês têm uma voz. Nunca deixem que alguém faça vocês acreditarem que ser diferente significa valer menos.
Para os irmãos, amigos, professores e todas as pessoas que convivem com uma criança autista, eu diria: aprendam a escutar antes de julgar. Tenham paciência. Observem. Perguntem. Acolham.
E para quem ainda conhece pouco sobre o autismo, eu gostaria que A Cigarra Autista fosse um convite para se aproximar, conhecer e perder o medo daquilo que ainda não compreendemos completamente.
Sibelle me ensinou — e continua me ensinando — que cada pessoa tem o seu próprio canto.
Nem todo mundo canta da mesma maneira. Nem todo mundo se comunica da mesma maneira. Mas toda pessoa merece ser ouvida.
É essa a essência de A Cigarra Autista: transformar a diferença em encontro, a arte em linguagem e a inclusão em uma prática de amor, respeito e cidadania.
