Entrevista: João Marcondes, compositor

1.                          Como surgiu a ideia de criar Synesthetic Nature e transformar os quatro elementos da natureza — ar, água, fogo e terra — em matéria para a composição musical?

Outros meios de compor nos levam a composições mais originais, entendo que a primeira ideia foi essa. Para então descrever situações que poetizassem a criação. Vivaldi se inspirou nas estações, Villa-Lobos na floresta amazônica, Smetana em um rio, algo que fiz na obra O indelével prenúncio das águas, também disponível para apreciação no Streaming. Então água, fogo, ar e terra nos levam a muitos caminhos, e foi isso que planejei. Curiosamente antes de lançar a primeira obra trabalhei o conceito com meus estudantes de composição, propondo que pensassem sua música de maneira diferente. Uma das obras lançadas descreve a água pingando, pingando, até formar uma poça, e escorrer capciosamente por um percurso até acalmar-se reunindo-se a um fluxo maior, um rio. A intenção de formar imagens e direcionar uma obra é a ideia por detrás.

2.             O conceito de sinestesia é central no álbum. Como você transforma sensações como temperatura, textura, cheiro ou cor em decisões concretas de composição?

Criando situações em que o elemento está exposto direciono a inspiração. Por exemplo a água e o ar são fluídos, entendo como sons que tenham pouco ataque e mais release e sustentação; a terra quando se encontra em contato com a ação humana ou da natureza, representa ataque; então se para o som fluído tenho sustentação penso em um movimento arqueado das cordas, do violino, violoncelo e viola, se é algo com mais ataque associo, por exemplo, a um pizzicato das mesmas cordas. A sinestesia é uma razão experiencial e particular, cada compositor pode compreender a sua maneira e interpretar através da associação de técnicas instrumentais e elementos sensoriais da melodia, ritmo e harmonia, para tanto está a imaginação em primeiro plano.

2.                          No projeto, cada elemento está associado a um estado de expressão: ar às ideias, água aos sentimentos, fogo ao conflito e terra à pacificação. Como essas correspondências orientaram a criação das peças?

Pautar o elemento e imaginar uma história, a terra sendo cavada, o fogo ou a brasa estalando, e em seu estampido, e daí se associam os elementos ao que representa movimento. O Ar pode ser brisa, pode ser ofegância, pode ser vendaval, pode ser maresia; a água pode ser chuva, pode ser garoa, pode ser tempestade, pode ser lágrima, pode ser nascente e pode ser mar; o fogo pode ser brasa, fogueira, fumo, queimada – tudo aqui representa movimento, estamos em movimento, e um movimento que não depende da natureza humana. E a terra, a terra está ali aparentemente parada em seus ciclos infinitos, a natureza as move no movimento das placas tectônicas, ou depende da natureza humana, a violenta natureza humana. Aí acho que faz sentido esse desequilíbrio, e acabam se associando a uma maneira mais humana do que associação do ar com ideia, da água com sentimento, do fogo com conflito, e a terra a pacificação. A água também nos impõe conflito em um mar revolto, a terra nos pune pelas alterações em nosso planeta – e tudo que fazemos na terra é invasivo. Trata-se então de como interpretar a história por de trás.

4.             A proposta de Natureza Sinestésica também aparece em seu trabalho pedagógico. De que maneira a experiência em sala de aula contribuiu para o desenvolvimento do álbum?

Desenvolvimento de processos criativos é uma das disciplinas mais emblemáticas nos cursos técnicos que desenvolvi. Tanto na produção musical quanto no técnico de trilha sonora, o tema inspiração é repetido. Fato que eu mesmo nos meus processos de aprendizado tive apontamentos que me fizeram travar o processo criativo, e muitos estudantes chegam nesse estado. Então por exemplo, a natureza sinestésica faz com que o estudante retorne a um estado mais primitivo de quem somos, e cultivar novamente a imaginação. Esse é o fundamento mais importante para criar, imaginar. Tenho outra proposta pedagógica chamada Interlocução Criativa entre múltiplas artes, como criar inspirado em uma foto? A foto ou o ato de fotografar é uma iniciativa humana, somos seres humanos, e o conhecimento é algo que vamos legando a cada nova geração. Caetano Veloso fez a obra literomusical Terra inspirada em uma fonografia. Smetada no Rio Moldávia; imaginar para dali extrair a criação que está aprisionada em muitos por preocupações excessivas com Harmonia, forma e estilo. Resgatar a imaginação, esse é o ponto.

5.             A inspiração nos   elementos dialoga com a tradição filosófica associada a Empédocles e Aristóteles. O que o levou a aproximar esse pensamento antigo da música de concerto contemporânea?

Entendo que pensar de forma complexa, é pensar dentro de um legado que nos é humano. Abandonamos o pensamento no período medieval, mil anos de idade das trevas, e algumas coisas ficaram esquecidas. Na construção de uma obra artística a filosofia deu vez a vontades apenas estéticas, combinatórias, e isso sempre me incomodava. Refletir sobre a sensação que o som traz é uma abstração, mas a construção da abstração é parte do que é humano, entendo que essa vontade de existir cerceado do que é humano que me faz levar a sinestesia como algo que me leva a percorrer outros caminhos sensoriais com a música, e desse modo constituir estética.

6.             A primeira obra do álbum é escrita para clarinete e violoncelo, enquanto a segunda é destinada a quarteto de cordas. O que você buscou explorar de diferente em cada formação?

Os instrumentos tem características diferentes. Eu particularmente gosto muito de observar esses elementos através de um conceito chamado BLEND. Combinação em grosso modo ou em tradução literal. O clarinete tem mais sustentação na sua execução habitual, mas pode ter mais ataque. A corda friccionada do violoncelo, pode aferir na execução com pizzicato uma outra característica que passa de mais sustentação para mais ataque. Então dois pólos sustentação e ataque; alguns instrumentos podem ser combinados de forma a sustentar mais o som e isso chamo de blend pobre por não trazer um outro timbre, dois instrumentos combinados com muito ataque também formam blends pobres; o blend rico é aquele momento que combinamos características opostas, o ataque do pizzicato com a fluidez e sustentação, isso promove a combinação para um terceiro som. Violoncelo em pizzicato e clarinete fluído, blend rico; ou violoncelo em arco e clarinete em stacatto, blend rico. O que move são as combinações dentro desses ciclos, e aí até de certo modo indefere a instrumentação, sendo valorizada a característica pontual em cada execução musical. A próxima oportunidade vou gravar peças solo Natureza sinestésica Três e Quatro que é para violão solo e piano solo explorando esse mesmo conceito na construção da execução.

7.             Como foi trabalhar com intérpretes como Sérgio Burgani, Joel Silva de Souza e os músicos do Quarteto Topázio? Houve elementos interpretativos que surpreenderam você durante o processo?

Generosos e amados. Gosto de trabalhar com intérpretes amigos, gente da gente. Sérgio Burgani é um dos maiores clarinetistas brasileiros de todos os tempos, adoro quando ele reclama que está difícil o que criei, e toca com uma fluidez absoluta o que pensei. E isso é a generosidade, estar disposto a conceber o que o imaginário do compositor propôs. E a amizade vai se desenhando Sérgio, Joel, Marialbi Trisólio, Leandro Dias, André Rodrigues e Anderson Farinelli, os quatro últimos do quarteto Topázio trazem essa generosidade. E como atuo como produtor, estou presente em todas as gravações, ver a música nascer acusticamente, sair da imaginação, é perfeito com eles. E os seis gravaram tantas coisas minhas, talvez estejamos falando de doze álbuns diferentes em que esses músicos atuam. Confesso que não parei para contar.

8.             As peças são relativamente concisas, mas exploram contrastes de timbre, registro, densidade, movimento e silêncio. Como você trabalha a síntese para construir uma atmosfera completa em poucos minutos?

Entendo tudo como movimentos, e a obra acaba sendo o conjunto entre quatro e cinco movimentos. Ocorre que eu como compositor quero objetivamente produzir o máximo de músicas em vida, as músicas que eu criei, quero eu gravar e orientar os músicos, não quero lançamentos internacionais que a música é tocada uma única vez, quero aprovar algo que criei que pode ser ouvido daqui para enquanto o ser-humano existir em nosso planeta. Sempre penso a síntese em uma história que pretendo publicar na edição das partituras, que estou em planejamento, então a Natureza Sinestésica n.1 é a reunião de quatro movimentos de uma única história. E acabam por chegar entre dez e quinze minutos, optei gravar sem ritornelos, mas ao vivo provavelmente indicaria a repetição, o que faria a obra maior, no streaming músicas muito longas acabam sendo puladas, na experiência aovivo a pessoa se envolve em uma dinâmica mais profunda.

9.             O álbum foi gravado no Estúdio Arsis, com gravação, mixagem e masterização de Adonias Souza Jr. Que cuidados técnicos foram necessários para preservar na gravação as nuances tímbricas imaginadas durante a composição?

Sempre. O Adonias é um artista. Ele pensa como artista da escolha de cada microfone ao desenho que o som representa. E seus cuidados em todos os meus álbuns é precioso para mim e para os músicos. Adonias gravou Antônio Meneses à Milton Nascimento, e sempre com a primazia absoluta de quem vê o áudio como arte. As orientações as vezes são profundas as vezes pontuais, mas algo que o olhar dele como artista resolve de uma maneira dinâmica que admiro muito.

10.          Ao ouvir Synesthetic Nature, você espera que o público reconheça os elementos representados ou prefere que cada ouvinte construa sua própria associação sensorial?

Tenho uma reflexão de classe que costumo trazer chamada Contextualização. A contextualização aberta é aquela que uma obra permite ao expectador pontuar e relacionar com experiências próprias para contextualizar o que está apreciando. A hipercontextualização é quando o compositor propõe algo que tem que ser apreciado a partir de uma determinada premissa. Eu prefiro a contextualização aberta e conservar certos segredos, que nessa entrevista estou falando pela primeira vez. Acho importante o ouvinte estar independente para construir sua relação com a obra.

11.          Este álbum inaugura uma série dedicada à experiência sinestésica e à interlocução entre natureza e música. O que você já imagina para os próximos trabalhos dessa série?

Como mencionei acima é uma série que já tem próximos capítulos, e venho criando com essa premissa a todo momento. Entendo que a prática do compositor deve ser diária como de um instrumentista virtuoso, ouvindo, construindo repertório estético e criando sobre diferentes facetas. Eu tenho a série Brazilian Suíte que já tem seis obras gravadas, quatro lançadas, e duas a espera. A Brazilian Suite n1 para Piano e Viola representa meu maior êxito comercial, vamos chamar assim, é um álbum que contém dodecafonismo e diatonismo juntos, e mesmo assim atingiu dois milhões e meio de streamings. A Suíte Latinoamericana vem sendo um motivo de orgulho, e sendo amplamente aceita pelo público. A Natureza Sinestésica vem me surpreendendo por chamar a atenção de maneira até que inesperada para mim, e que sem dúvidas me faz entender que essa criação é importante para meu desenvolvimento artístico. Estou em movimento e espero deixar para posteridade uma obra de valor reunidos em diferentes frentes estilísticas, e projeções sensoriais, tanto quanto metodologias criativas.

12.          Para quem ouvir Synesthetic Nature pela primeira vez, qual seria a melhor maneira de se colocar diante dessas obras: buscando identificar os elementos da natureza ou simplesmente permitindo que a música provoque suas próprias sensações?

Simplesmente permitindo que a música provoque suas próprias sensações. Criar pontes entre pessoas, isso é o que me faz ser artista. Não faço música para alimentar meu ego, mas para ser ouvido e significado no ente de cada um.

Agradeço a oportunidade falar sobre arte em meu trabalho. Muito obrigado.