Warning: Undefined array key 1 in /home/u687759733/domains/marramaque.jor.br/public_html/wp-content/plugins/visitors-online/visitors-online.php on line 505

Warning: Undefined array key 2 in /home/u687759733/domains/marramaque.jor.br/public_html/wp-content/plugins/visitors-online/visitors-online.php on line 505
Entrevista: Rodrigo Lessa e Edu Neves - Marramaque

Entrevista: Rodrigo Lessa e Edu Neves

1.O álbum “Tempo de Samba” nasce da parceria construída ao longo de décadas entre vocês. Como essa convivência artística influenciou a criação deste trabalho?

Totalmente. Esse trabalho é o desaguadouro disso.  Nossa parceria musical combina admiração mútua e uma grande amizade. Nós nos construímos juntos como artistas. Quando nos conhecemos, estávamos começando na música.  Acho que nos completamos em nossa parceria. O Edu é muito objetivo, decide rápido, já eu tendo a cultivar as dúvidas. Digo mais: o Edu decide rápido porque tem uma fabulosa capacidade de concentração. Acho essa tensão interessante, e acho que tiramos bom partido disso. 

2.O título do disco sugere diferentes interpretações sobre o samba. Qual foi a principal ideia por trás da escolha desse nome?

O nome foi dado pelo Edu. Tempo de samba, tempo de misturar, de ouvir, de dançar. Tempo de desfrutar o nosso melhor como povo. O samba tem um território onde ele foi temperado, preparado, degustado, misturado e exportado para o mundo, que é o Rio de Janeiro. Rio e samba são indissociáveis. Samba e Brasil, por consequência, tornaram se indissociáveis por desdobramento linear. Se você pegar a linha choro-maxixe- samba, vai reconhecer um parentesco forte entre eles. Essa é a coluna central (por tamanho de repertorio, relevância, diferenciação e desenvolvimento) da música brasileira.  Hermano Viana, em seu livro ‘O Mistério do Samba’ ,  mostrou que o samba, por ser o produto cultural do mestiço urbano carioca, foi o gênero escolhido por uma vasta aliança de atores sociais nacionais e estrangeiros, como o ritmo que deu identidade ao Brasil.  Esse livro foi muito importante para o processo criativo que resultou no repertório do grupo.  Quando começamos o Pagode Jazz Sardinha’ s Club, no primeiro disco, Hermano Viana nos deu a honra de escrever nosso encarte. Tempo de Samba /Tempo de Brasil. 

3. O álbum transita entre samba, choro, jazz e influências latinas. Como vocês equilibram tradição e experimentação sem perder a identidade brasileira?

O principal traço da identidade brasileira é a mestiçagem. A música é o espaço de excelência onde o Brasil realizou seu melhor como civilização mestiça. Nenhum país, nem os Estados Unidos, misturou as influências europeias letradas com a tradição oral africana como nós. Nenhum país tem um repertorio, variedade estilística e rítmica, riqueza harmônica, diálogo entre arte culta e oral, como tem o Brasil. O Brasil tem a Europa, a África e América do Sul em si, e tivemos o gênio da boa mistura dessas influências. A mestiçagem na música brasileira ganha status de excelência com Ernesto Nazareth que foi, para mim, o grande profeta da música brasileira. Depois do Nazareth, tudo de melhor que aconteceu no Brasil foi seguindo o projeto traçado brilhantemente por ele. Misturar é destruir a identidade integral das duas ou mais coisas que formaram a mistura, mas essa mistura também pode ser vista como ato de preservação, pois em sua criação, com toda sua nova potencia, cada parte será representada no ritmo, na harmonia, na melodia, na forma, ou o que mais seja.  O ato de preservar, o museu, a biblioteca, é uma tradição europeia: já a espontaneidade e o ritmo vieram daqui mesmo e da África. Tempo de samba tem essa dialética.

4.O repertório é formado majoritariamente por composições inéditas. Como foi o processo de seleção das músicas que entraram no disco?

Fizemos encontros para levar som na casa do guitarrista Bernardo Bosisio, e depois disso, fizemos um show para testamos algumas músicas. Logo em seguida, o Edu fez um aniversário com uma turma da pesada na percussão, então perguntei o que ele achava de fazermos um álbum juntos.  A partir daí, reunimos temas nossos que não tinham sido gravados e acrescentamos outros da lavra individual de cada um. A pedido do Edu, regravarmos “No Gurufim do Tio Sam” em sol maior, um tom que os músicos gostam de tocar. Edu tinha tentado incluir “Tô Cãozinho”, terceira música que fizemos juntos, em todos os discos do Pagode Jazz Sardinha’s Club, mas eu achava que o tema não estava pronto. Nesta feita, nos encontramos e terminamos a música, que finalmente foi gravada. 

5.Faixas como “Montuno Carioca” e “Maxixe Acebolado” revelam diálogos entre diferentes matrizes musicais. O que mais inspira vocês na hora de compor?

Para mim, existe mais de uma forma. A inspiração muitas vezes vem incompleta. Seria um momento yang da criação. Depois, há que se olhar para ela, conversar com ela, conhecê-la profundamente e descobrir quais caminhos deverá seguir. Esse segundo momento é mais feminino, de acolhimento, escuta e rendição à voz que deseja falar da forma mais plena possível.  Outro processo é estabelecer um projeto, e quando isso acontece, o conceito moldará as composições. “Montuno Carioca 1”, por exemplo, é um recurso que os pianistas e violonistas cubanos usam para acompanhar. Neste montuno, pequena célula que acontece em um ou dois compassos, tem melodia, harmonia e uma levada. É um mini combo tem-tudo. Minha ideia nessa música foi trazer o padrão rítmico do samba e usá-lo como um montuno nosso, melodia secundaria para o tema. No “Maxixe Acebolado”, destaco a mistura do violão do Recôncavo com o nosso 7 cordas no acompanhamento da primeira parte. A rigor, esse foi um dos conceitos que norteou muitos arranjos e marca a sonoridade do disco: usar o violão 6 cordas como estilo do Recôncavo, ladeado pelo 7 cordas carioca. Ficou interessante, pois temos três planos melódicos. Grave, médio grave e agudo. Esse disco, como o que fazemos normalmente, é afro barroco.  A melodia está sendo buscada, em quase tudo que é feito, no baixo, no médio e no agudo.

6. “Samba Infinito” parece refletir a capacidade de renovação do gênero. Como vocês enxergam o momento atual do samba instrumental no Brasil?

Acho que o samba instrumental, do ponto de vista de produção vai muito bem: o dificil hoje é escoar a produção. Os espaços para música instrumental diminuíram drasticamente.

Respostas Edu Neves – de 7 a 12 

7– O disco reúne músicos de grande relevância na cena instrumental. De que forma a contribuição desse time ajudou a moldar o resultado final do álbum? 

A contribuição desse time é a própria vida das músicas, o molho, o suingue. O que não está escrito nas partituras. São músicos geniais, nossos parceiros em diversos projetos, além de amigos da música e da vida. Sem eles esse trabalho seria outra coisa. Certamente foi a melhor escolha para esse som. 

8- Vocês possuem trajetórias marcadas pela valorização do choro e da música instrumental brasileira. Quais são os maiores desafios para manter esse legado vivo junto às novas gerações?

Os mesmos de sempre: depender de lugar para tocar, canais para divulgar, projetos culturais afins, educação musical na rede pública e privada, enfim, criar toda uma cadeia que permita manter essa música viva. A mesma batalha de sempre. Isso não é novidade.

9- A gravação aconteceu na histórica Companhia dos Técnicos e também no Estúdio Umuarama. Como os ambientes de gravação influenciaram a sonoridade do projeto?

Foi muito importante termos gravado toda base ao vivo, fez toda a diferença. A Cia dos Técnicos é o que nós temos de melhor, em termos de estúdio. Gravei dezenas de seções lá, em discos de Zeca Pagodinho, Elza Soares, Joyce Moreno. Já vivi muita coisa neste estúdio.  O Willian Júnior é um craque! Tira o maior som!

O Umuarama é do nosso parceiro Ricardo Calafate, bandolinista também, que é muito cuidadoso. Lá pudemos fazer todos os complementos necessários com calma e capricho. A mixagem ficou por conta do David Brinkworth , que é muito fera: ele mixou e masterizou no próprio estúdio.

10- Em um cenário musical cada vez mais acelerado, qual a importância de lançar um álbum instrumental que convida à escuta atenta e à apreciação dos detalhes?

Bem, a gente faz artisticamente o que acha que é bom, relevante, e que vai tocar as pessoas. É necessário um tempo para ouvir (para qualquer coisa, aliás…). O prato a gente serviu, agora, como cada um vai curtir e saborear não depende mais da gente. Música é uma arte cujo ambiente é o próprio tempo (mais que o som): há que se ter tempo pra ouvir sem pressa, sem objetivo.

11- Ao longo da carreira, vocês trabalharam com alguns dos maiores nomes da música brasileira. Que aprendizados dessas experiências estão presentes em “Tempo de Samba”?

Diria que todos os ensinamentos que recebemos estão na nossa forma de tocar e compor, também. Desde os mestres que não conhecemos até esses grandes nomes que ainda estão por aqui, ou que partiram recentemente, com quem tivemos a honra de trabalhar. Há uma influência enorme de todos eles, damos sequência. E também aos nossos colegas com quem sempre tocamos por aí. Uma infinidade de músicos e tocadas pelo mundo que sempre nos inspira e faz a gente crescer artisticamente.

12- Se pudessem resumir a essência deste álbum em uma única mensagem para o público, qual seria?

O ponto central desse trabalho é o Rio de Janeiro. Damos sequência a toda música que foi e está sendo feita nessa cidade. Love Rio❤️