Exil nasceu durante um período de isolamento e suspensão provocado pela pandemia. Como aquele momento de afastamento e impossibilidade de encontro transformou sua maneira de compor e criar?
Tínhamos, eu e o Caê, planejado de começar a gravar o disco em abril de 2020, a pandemia impediu isso. Fiquei isolada um bom tempo do COVID 19 em Ubatuba, perto do mar, isso mudou minha maneira de criar e compor porque eu tive acesso a um silêncio que eu nunca tinha tido. Essa impossibilidade de me encontrar com o Caê fez que trocamos áudios, ideias e o repertorio que supostamente estava fechado continuou. Escrevi a faixa La Mer, nesse momento.
O título do álbum é inspirado no filme Exil, de Tony Gatlif. O que a ideia de viver entre territórios, culturas e identidades representa para você e para sua trajetória artística?
Eu assisti esse filme ainda adolescente, ele me marcou profundamente. Me reconheci nessa melâncolia como rastro que a colonização deixou em alguns corpos, essa divisão e essa sensação de pertencer a nenhum lugar. Viver entre territórios, culturas e identidades para minha trajetória artística é algo que eu considero rico, sinto que essa imersão em São Paulo que é uma cidade em si multi-cultural, imensa, fervente me abriu muitos caminhos para ousar compor, criar minha linguagem própria numa cidade que as vezes parece ser um outro planeta. Penso em duas línguas e acho que para mim a melodia é uma terceira língua, um terceiro lugar para expressar essa estranheza de viver fora de onde eu nasci.
O disco transforma o exílio em um espaço de criação, encontro e pertencimento. Em que momento você percebeu que essa experiência poderia se tornar o eixo conceitual do álbum?
Esse nome veio com a composição “Minha irmã”, no começo essa musica se chamava “O exilado”, falava da travessia do mar de um exilado. Só que eu a escrevi toda torta e eu não estava satisfeita com a letra. Eu mostrei essa melodia para uma amiga e contei um pouco do que eu imaginava e começamos com “minha irmã” o refrão ficou igual da original que eu tinha escrita. Nessa mesma época, eu fui atrás de textos sobre o exilio e achei um livro “poétique de l’exil” de um escritor franco armênio Stéphane Cermakian. Achei que esse encontro do exilio com o poético era o que eu queria contar, dessa minha trajetória como mulher miscigenada que muitas vezes se sentiu exilada na França.
A pesquisa musical de Exil aproxima referências do Senegal, Mali, Caribe e Brasil. Como aconteceu o processo de construção dessas pontes entre diferentes tradições e experiências da diáspora africana?
Essas pontes foram conectadas com minhas pesquisas pessoas, o Caribe veio através da figura do Toto Bissainthe uma cantora, compositora, atriz haitiana que se exilou na França e fundou a primeira companhia de teatro negro na Europa. Descobri a sua voz no filme “la noire de” do diretor senegalês Ousmane Sembene. Ela que é a voz off da personagem principal do filme. Eu fiquei curiosa com essa voz e eu fui atrás, descobri esse nome e descobri um disco “Toto Bissainthe chante Haïti”. Esse disco me marcou muito, nas composições e na sua força espiritual. O Senegal e o Mali vêm do meu avô que era senegalês, na casa dele tocava bastante o Ali Farka Touré, o Boubacar Traoré, Oumou Sangaré.
Você e o produtor Caê Rolfsen trabalharam com samples de cantos tradicionais do Senegal, linhas de coro, diferentes possibilidades da voz e beats contemporâneos. Como essas escolhas ajudaram a construir a identidade sonora do disco?
O disco e suas composições, na maioria nasce de melodia que eu criei vocalmente, fora “Rêver” que eu criei a partir de uma base instrumental que o Caê fez e me mostrou. Nas minhas composições muitas vezes eu trabalho com as camadas de coros como uma maneira de imaginar os possíveis instrumentos. Os beats e os samples foram pensados num desejo de criar imagens, colagens, viagens entre o instrumento tocado e os recursos do que já existe e que pode ser transformado, assimilado.
O álbum transita por diferentes idiomas. Qual é o papel da diversidade linguística na construção das canções e na ideia de romper fronteiras presente em Exil?
A diversidade linguística veio naturalmente, eu tenho mais facilidade para compor na minha língua materna mas o português no qual me banho no meu dia dia também veio de forma espontânea, e eu gostei de poder misturar as línguas, me permitir de assumir meu sotaque, acho que me inspirei um pouco das línguas crioulas na maneira de musicar uma língua.
O disco reúne participações de Jota.pê, Tiganá Santana e Anelis Assumpção. O que cada encontro acrescentou às respectivas faixas e ao diálogo que você propõe entre diferentes territórios musicais?
Essas três participações trazem três tons diferentes, o Jota.pê trouxe um toque muito sensual a “Rêver”, o Tiganá Santana deu uma outra dimensão, uma profundidade para “Je chanterai pour toi”, ele que tem essa conexão muito forte com a Africa tanto a Africa central e ocidental e a Anelis Assumpção veio trazer essa irmandade, essa reza entre irmãs para se dar força, eu senti na Anelis também essa complexidade da miscigenação, acho que me reconheci, vi algo familiar.
Você reinterpreta “Je chanterai pour toi”, de Boubacar Traoré, ao lado de Tiganá Santana. O que essa canção representa dentro do repertório e por que ela fez sentido para o universo de Exil?
Essa canção para mim é um canto imenso com poucas letras “se você soubesse como eu te amo, você também tem que me amar, se você soubesse o quanto eu te amo, você também tem que me amar, me abraça eu cantarei para você”. Eu acho essa letra de uma grandeza, e é isso poder se tocar, se amar. Ela é uma possível cura frente ao exilio dessa grande epidemia que é a solidão. Para mim ela tinha que estar no disco por uma questão também estética, ter esse respiro, voz e violão com poucos elementos percussivos.
Em “Minha Irmã”, você divide os vocais com Anelis Assumpção e parte de uma composição feita em parceria com Irene Atienza. Como nasceu essa canção e o que a ideia de irmandade representa no álbum?
Eu e a Irene Atienza compartilhamos eu acho esse amor pelo Brasil, viver fora do seu país, cantar num outro país, numa outra língua. A irmandade nessa musica é algo que remete a um sussurro, algo que você precisa estar atenta para ouvir, discernir e continuar caminhando. Essa melodia inicial para mim tinha algo de cigano, desses cantos lamentos, foi muito natural escrever em quatro mãos essa canção com a Irene.
Você define o processo de criação como uma maneira de “sublimar a existência”. O que a música permitiu elaborar ou transformar durante os anos de desenvolvimento de Exil?
Eu acho que Exil me permitiu de me abrir para uma forma poética de me comunicar, de abrir meu diário e poder assumir essas sensações estranhas em voz alta com melodias foi quase criar um refugio dentro de mim.
Sua trajetória no Brasil inclui trabalhos autorais, parcerias com artistas da cena brasileira e a participação na banda de João Donato. Como essas experiências contribuíram para a artista que chega agora a Exil?
Estou muito grata pelas parcerias que eu criei aqui, vejo o Brasil como um mar de criatividade e criadores, aprendi muito com essas colaborações.
Depois de um processo tão longo de criação, o que você espera que o público leve consigo ao ouvir Exil pela primeira vez?
Eu espero que o publico possa viajar e se deixar levar a um universo hibrido. Agradeço desde já pela atenção e pela disponibilidade. Será um prazer contar com Anaïs Sylla no Marramaque.
