Entrevista: Anderson Maia, baterista e percussionista

1. Após mais de 30 anos atuando como baterista e percussionista, o que o motivou a assumir também o papel de cantor e compositor em Caminhos da Ladeira?

Tô ficando velho, cansado de carregar tambor! (risos) Brincadeira!
Eu gosto de compor há bastante tempo, mas durante muitos anos não mostrava minhas ideias para ninguém — ou talvez não mostrasse para as pessoas certas. Muitas vezes acabava deixando as músicas de lado e desistindo delas.
Quando decidi produzir um EP, a ideia inicial era que ele fosse formado por músicas de amigos, inclusive algumas instrumentais. Só que, de repente, começaram a surgir muitas ideias minhas. Tomei coragem e comecei a mostrar esse material para o Breno Góes e para o Roberto Stepheson. Foi aí que começaram a surgir nossas primeiras parcerias. Hoje já temos parceria em oito músicas, por enquanto, e cinco delas estão neste EP.
Em relação ao canto, eu já vinha experimentando essa possibilidade desde 2023, em dois grupos dos quais faço parte. Em um deles, canto uma música ou outra; no outro, venho assumindo cada vez mais esse papel de cantor, além de percussionista. Algumas pessoas começaram a comentar que gostavam da minha voz, que achavam minha voz bonita, e isso foi me dando confiança para cantar cada vez mais.
Quando iniciei as gravações do EP, a princípio a maioria das músicas seria instrumental. Para as canções, eu já tinha pensado em convidar a Roberta Keller e, talvez, outro cantor para fazer a parte masculina.
Até que um dia assisti a uma entrevista do Dominguinhos em que ele contava que havia recebido um conselho de Luiz Gonzaga: que deveria cantar suas próprias músicas, porque isso valorizava ainda mais o artista. Aquilo ficou na minha cabeça e comecei a me perguntar: “Por que não?”
E, para reforçar essa ideia, o Roberto Stepheson, meu amigo, arranjador e produtor do EP, me deu exatamente o mesmo conselho. Foi então que resolvi encarar o desafio e assumir também esse lugar de cantor no projeto. Hoje vejo que foi uma das decisões mais importantes de todo esse processo.

2. Você define este EP como um divisor de águas na sua trajetória. Quais foram os maiores desafios e descobertas durante esse processo de protagonismo artístico?

O maior desafio foi cantar! (risos)
Mas, brincadeiras à parte, uma das grandes descobertas foi perceber que sou capaz de compor coisas que me alegram, me estimulam e fazem sentido para mim. Isso foi muito importante, porque passei a olhar para a minha própria produção de uma maneira diferente e a acreditar mais nas minhas ideias.
Também descobri — ou talvez tenha percebido ainda mais — que tenho amigos que realmente querem o meu bem, que acreditam em mim, no meu potencial e estão dispostos a caminhar comigo.
Acho que Caminhos da Ladeira sinaliza muito sobre essa força que existe nas amizades. O processo de construção do EP foi quase todo colaborativo. Cada pessoa que participou colocou um pouco de si no projeto e ajudou a transformar aquelas primeiras ideias em algo maior.
Com isso, passei a valorizar ainda mais os processos, as parcerias e o caminho percorrido até chegar ao resultado. E, principalmente, ganhei confiança para assumir esse lugar de artista autoral, que talvez já estivesse dentro de mim há muito tempo, mas que eu ainda não tinha tido coragem de mostrar.

3. O conceito de “ladeira” aparece em diferentes momentos do trabalho. O que essa imagem simboliza para você pessoal e artisticamente? Como surgiu a parceria com o letrista Breno Góes e de que forma essa colaboração contribuiu para a identidade do EP?

Eu adoro uma ladeira! É sério! Até os meus 29 anos morei em uma rua chamada Caminho da Ladeira, em Petrópolis-RJ, minha cidade natal. Foi justamente nessa época que me interessei pela música e comecei a minha trajetória profissional.
Além da ladeira, havia uma escadaria entre a rua e a minha casa. Para sair de casa para tocar, eu subia aquela escadaria com a bateria nas costas. Na volta, era escadaria abaixo. E Petrópolis é uma cidade de muitas ladeiras, então essa imagem fez parte do meu cotidiano durante muitos anos. Foi um período muito importante e decisivo na minha vida, tanto pessoal quanto musicalmente.
Quando comecei a compor as músicas para o EP, de certa forma revisitei o início da minha jornada. E as ladeiras estavam lá, como uma espécie de metáfora para esse caminho: os altos, os baixos, os esforços, as conquistas e tudo o que acontece ao longo de uma trajetória. “Caminhos da Ladeira” acabou sendo, então, não apenas um título, mas uma imagem que representa a minha própria caminhada na música.
Conheço o Breno Góes desde 2012, quando tocávamos juntos na banda Os Inventores do Vidro. Ficamos alguns anos sem contato, mas em 2024 ele me convidou para participar do projeto autoral dele, o Dobra. Essa reaproximação foi muito importante, porque acabei mostrando algumas das minhas músicas para ele e a parceria aconteceu de forma muito natural e instantânea.
Eu apresentava as melodias e as ideias que tinha, e o Breno conseguia captar muito rapidamente o que eu queria dizer, mesmo quando ainda não sabia exatamente como dizer. Ele trouxe palavras, imagens e uma narrativa que ajudaram a dar identidade às canções. Mais do que escrever as letras, o Breno captou a essência do EP e ajudou a construir a estética do projeto.
Acho que essa parceria foi fundamental para transformar experiências e memórias muito pessoais em canções que conseguem dialogar com outras pessoas. O EP tem muito da minha história, mas também tem muito do olhar e da sensibilidade do Breno.

4. “Ladeira Acima” nasceu de memórias da sua infância e da relação com Petrópolis. Quais lembranças tiveram maior influência na construção da canção? O EP reúne músicos amigos de longa data. Como foi transformar essas conexões pessoais em um projeto tão íntimo e autoral?

Sim. “Ladeira Acima” nasceu de uma conversa despretensiosa numa mesa de bar. Eu estava contando para o Breno como era a minha vida no Caminho da Ladeira, em Petrópolis: as brincadeiras de carrinho de rolimã, as aventuras da infância, as dificuldades, as alegrias e tantas outras lembranças daquele período. Ele ouviu tudo aquilo e acabou transformando essas memórias em letra. Quando li, me identifiquei imediatamente. Era como se ele tivesse conseguido traduzir em palavras imagens e sentimentos que estavam guardados na minha memória.
O EP reúne músicos que são amigos de longa data e outros que foram chegando mais recentemente à minha trajetória. Infelizmente, não consegui gravar com todos os músicos e parceiros que gostaria — alguns ficaram para o próximo EP! Mas acho que isso também faz parte do processo.
Trabalhar com essas pessoas foi muito natural e prazeroso. São músicos que admiro, pessoas generosas e extremamente talentosas. Existe uma confiança e uma liberdade criativa que fazem muita diferença quando você está fazendo um trabalho tão íntimo e autoral. Acho que essa proximidade aparece no resultado: o EP tem muito da minha história, mas também carrega a personalidade, a sensibilidade e a história de cada músico que participou dele.

5. “Jequitibá” surgiu a partir de uma experiência em contato com a natureza. Qual é a importância da observação do cotidiano e dos ambientes naturais no seu processo criativo?

Acho que é muito importante estar disponível para ouvir e observar o que está à nossa volta. Um canto de passarinho, o som do mar, de um rio, do vento nas árvores ou até mesmo uma combinação de sons que, de repente, pode sugerir uma ideia melódica ou rítmica.
“Jequitibá” nasceu um pouco dessa experiência de estar na natureza e perceber essas pequenas grandes coisas que muitas vezes passam despercebidas. Para mim, o processo criativo também está nisso: estar atento, abrir os ouvidos e os olhos e deixar que o cotidiano provoque alguma coisa dentro da gente.
Como músico, estou o tempo todo pensando em sons e ritmos. Então, às vezes, uma paisagem, um movimento, um som da natureza ou uma situação aparentemente simples pode se transformar em música. Acho que a natureza tem essa capacidade de nos colocar em um estado de escuta diferente, mais atento e mais sensível.

6. “Amigo Ouvinte” aborda questões ligadas ao trabalho e à pressão dos algoritmos. O que inspirou essa reflexão e qual mensagem você espera transmitir ao público?

Acho que o Breno Góes responderia melhor a essa pergunta, porque a letra é dele, mas vamos lá! (risos)
A melodia que eu fiz acabou levando o Breno a pensar naquelas músicas que tocavam nas rádios FM há 20 ou 30 anos. E daí surgiu essa ideia do “amigo ouvinte”. Mas hoje fica a pergunta: quem é que ouve rádio? Eu mesmo, praticamente só quando estou dirigindo. E aí percebemos que existe um público que ainda passa bastante tempo dentro do carro: os motoristas de aplicativo.
A partir daí, a música foi ganhando esse universo dos “corres” e das dificuldades de quem trabalha como motorista de aplicativo, muitas vezes tendo que se adaptar às regras e às exigências de um algoritmo. O “grão-vizir” da música representa justamente essa figura quase invisível que determina os caminhos, as avaliações, os ganhos e, de certa forma, o ritmo de trabalho.
Acho que a intenção não é dar uma resposta pronta, mas provocar uma reflexão sobre esse novo tipo de relação de trabalho, em que muitas decisões passam a ser mediadas por uma tecnologia que nem sempre conseguimos compreender.

7. Em “Tatá Mirim”, diferentes ritmos brasileiros convivem na mesma composição. Como você enxerga a riqueza dessa diversidade dentro da música brasileira contemporânea?

Esses ritmos fazem parte do meu repertório musical e de tudo o que eu mais gosto de tocar. O samba, o baião, o xote, o xaxado, o maracatu, o ijexá e tantos outros ritmos brasileiros fazem parte da minha formação e da minha maneira de enxergar e sentir a música. Então, para mim, seria muito difícil criar algo que não carregasse essas referências.
Eu valorizo muito essa diversidade da música brasileira e acho que ela é justamente uma das nossas maiores riquezas. Em “Tatá Mirim”, essa mistura aconteceu de uma maneira muito natural, quase como um reflexo das músicas que fazem parte da minha trajetória. Acho bonito quando esses diferentes ritmos podem dialogar, se transformar e ganhar novos sentidos dentro de uma composição contemporânea, sem perder suas raízes.

8. Roberto Stepheson assina os arranjos e a produção musical do EP. Como foi a construção dessa parceria e o que ela agregou ao resultado final?

Eu e o Roberto Stepheson já somos amigos e temos uma parceria musical de longa data. Trabalhamos juntos em dois grupos, o Arariboia Jazz e o Batuque de Pife, além de já termos feito uma parceria em um single que gravamos durante a pandemia. Então, quando comecei a pensar no meu primeiro EP autoral, ele foi uma das primeiras pessoas com quem conversei.

Um dia comentei com ele que gostaria de produzir esse trabalho e ele imediatamente me incentivou e se colocou à disposição para me ajudar nos arranjos e na produção musical. A partir daí, fomos construindo o EP juntos, sempre com muito diálogo e troca.

O Stepheson foi essencial para o resultado final. Ele conseguiu entender as minhas ideias, ampliar as possibilidades das músicas e trazer uma visão musical muito rica para os arranjos e para a produção. Seu trabalho, sua dedicação e seu envolvimento elevaram o projeto a outro nível. Sem ele, com certeza, “Caminhos da Ladeira” não teria chegado ao resultado que chegou.

9. Sua trajetória passa pela música, educação e musicoterapia. De que maneira essas experiências influenciam suas composições e sua forma de se relacionar com a arte?

Acho que todas essas experiências acabam se misturando de alguma maneira. A música está no centro de tudo, seja tocando, ensinando ou trabalhando com a musicoterapia. A educação me ensinou muito sobre escuta e sobre a importância de respeitar o tempo e a individualidade de cada pessoa. A musicoterapia também ampliou meu olhar para a música como uma forma de comunicação e de conexão. Tudo isso influencia minha maneira de criar e de me relacionar com a arte, de uma forma muito natural.

10. Depois do lançamento de Caminhos da Ladeira, quais são os próximos caminhos que Anderson Maia pretende percorrer como cantor, compositor e instrumentista?

Pretendo continuar com o show, amadurecendo o repertório e também o meu jeito de cantar e de me colocar no palco. Fiquei muito animado e encorajado com a experiência de fazer um show autoral ao vivo, tocando bateria e cantando ao mesmo tempo. Foi uma experiência muito especial e que me deu vontade de seguir por esse caminho.

Já temos um segundo show marcado para o dia 30 de outubro, no Centro da Música Carioca Artur da Távola, no Rio de Janeiro, e estou articulando outras possibilidades. Também tenho outras composições que pretendo gravar em breve, provavelmente como singles. Tomei gosto pela coisa!