- “Caroço” é um título que carrega uma imagem bastante simbólica: aquilo que incomoda, mas que também representa o núcleo de um alimento. Como essa dualidade se tornou o eixo conceitual do álbum?
A resposta para essa pergunta tem a ver com um assunto que passa pela minha cabeça há muito tempo. Que é o fato de nós seres humanos termos características que às vezes achamos, erroneamente, que são qualidades, mas que para algumas ou para muitas pessoas, na verdade podem ser coisas prejudiciais, para não dizer defeitos. Isso é uma coisa que me pega muito e nos últimos anos eu venho pensando sobre isso. Quanto que a gente deixou de tentar se rever e ser empático com o outro por conta de se firmar numa ideia de nós mesmos como se tudo que a gente faz fosse unicamente uma qualidade, sabe? Uma coisa que a gente faz com frequência pode não ser exatamente algo proveitoso ou benéfico para outras pessoas. Mas como que esse pensamento se tornou um eixo central do álbum? Na medida em que eu fui construindo as letras e músicas, fui percebendo que várias das canções possuíam essa característica. Não é só a música “Caroço”, que dá nome ao álbum, que tem esse viés, as faixas “Preconceito intolerante ou o samba do pleonasmo”, “À moda”, e mesmo a “Nem polícia, nem ladrão” também falam dessas dualidades. Do fato de não sermos uma coisa só. Depois de compor algumas das músicas, comecei a ver que esse pensamento que eu tinha, uma reflexão talvez maior, mais filosófica sobre o ser humano, acabou vindo de forma não tão consciente nessas músicas que, apesar de terem uma temática distinta em vários aspectos, acabaram por trazer essas características, de falar de dualidades, naturalmente.
- O disco reúne 12 faixas inspiradas em gêneros como samba, frevo e xaxado. Como suas pesquisas sobre as tradições musicais brasileiras influenciaram a composição dessas canções?
Para mim é impossível ser músico no Brasil e não beber na inestimável fonte musical que temos, ainda mais sendo percussionista e violonista de formação. Desde a adolescência sempre fui encantado por tudo que a gente tem nas manifestações artísticas tradicionais do nosso país e claro que isso culminou em pesquisas e experimentos com esse tipo de sonoridade desde o início da minha carreira como artista da música. Daí, para trazê-las como influência para as minhas composições é um passo.
- O álbum aborda temas como preconceito linguístico, hiperestímulo das máquinas e mídias e a dificuldade contemporânea de assumir erros. Por que você sentiu necessidade de transformar essas questões em música?
Sempre que me perguntam isso, vem na minha cabeça, como não pensar sobre isso? Como não falar sobre isso? Como não gastarmos um tempo refletindo sobre estas questões atualmente? Acho que cantar sobre esses temas é para mim algo urgente. É isso que faz com que minhas letras venham imbuídas dessas situações. Elas são latentes para mim e acho que deveríamos, na medida do possível e dentre outras coisas, falar sobre isso também.
- Uma das canções trata especificamente do preconceito linguístico. Que situações ou observações do cotidiano despertaram seu interesse por esse tema?
Bom, além de artista também sou professor e me relaciono com pessoas de diferentes faixas etárias e classes sociais todos os dias. Acho que há nas pessoas micro movimentos, pequenos olhares, intenções quase imperceptíveis que denotam esse preconceito e que vão passando de pessoa para pessoa sem que a gente se dê conta ou consiga parar para refletir sobre. Por exemplo, uma pessoa que não escuta outra com a devida atenção porque ela tem um determinado sotaque ou usa palavras de um vocabulário diferente do seu. Perceber isso me tira do sério e, quase sempre, não há possibilidade de dizer na cara de algumas pessoas: escuta direito esse outro ser humano que está na sua frente. Aí prefiro compor uma música bem-humorada para falar sobre esse assunto e torço para que quem ouvir minhas músicas, possa aplicar-se como um humano menos preconceituoso e melhor escutador.
5)Você também tem uma trajetória ligada à literatura e à poesia. Como a experiência de escritor interfere na maneira como você constrói letras e narrativas para suas músicas?
Interfere bastante, primeiro porque as funções de escritor e compositor não estão dissociadas completamente dentro de mim, elas estão sempre dialogando quando estou criando, quando faço canção. Na minha experiência como alguém que, além de músico, também escreve, sempre busco realizar primeiro as letras das músicas e depois venho com a melodia e a harmonia. Isso porque me parece mais orgânico pensar que a letra influencia não só na temática da música, mas também em como ela vai se comportar do “ponto de escuta” do andamento, da rítmica, dos acordes e até do arranjo. O contrário para mim, parece mais difícil de realizar.
As narrativas das letras sempre são construídas a partir de algo que tem me tocado no momento. Ainda assim, busco trazer elementos estilísticos como a ironia, o humor e formas diferentes de organizar as rimas nas estrofes para que meus textos consigam levar algo de novo para quem me escuta e, ao mesmo tempo, não comporem uma música muito ensimesmada ou que tenha características que só interessem a mim.
6) O álbum foi gravado na Associação Cultural Cachuera, espaço dedicado à pesquisa e difusão da música brasileira de tradição oral. O que esse ambiente representou para a construção sonora de Caroço?
O Cachuera é um espaço que visito há mais de vinte anos e que sempre acolhe eventos de música afro-brasileira, de música tradicional indígena e da música independente paulistana. Além disso, tem um estúdio maravilhoso onde eu pude escolher como gravar cada faixa do álbum e ter momentos de elaboração final de alguns dos arranjos desse meu trabalho recente. Não é todo lugar que propicia tudo isso. Ter gravado no Cachuera foi tão importante para mim que farei a última apresentação desta pequena temporada de lançamento do álbum Caroço por lá. Vai ser no dia 06 de novembro às 21h.
7) Rodrigo Caçapa assina os arranjos do disco. Como aconteceu esse encontro artístico e o que você buscava nessa parceria?
Eu já gostava do trabalho do Caçapa, de ter ouvido seus arranjos nos álbuns de outros artistas e de saber de parcerias dele com músicos e amigos próximos. Faz uns três ou quatro anos, uma grande amiga disse que tinha começado um relacionamento com ele e a partir daí acabamos ficando amigos, antes de trabalharmos juntos. Quando comecei a pensar em quem poderia fazer os arranjos do meu álbum, não foi difícil de escolher o Caçapa, não só pela proximidade que tínhamos, mas também pela pesquisa extraordinária que ele faz em música brasileira, pelo seu talento como compositor, instrumentista e por sua imensa generosidade como arranjador.
Eu buscava nessa parceria com o Caçapa fazer com que minhas músicas continuassem com a cara delas, mas vestidas com roupas que não caíssem na mesmice da moda. Brincadeiras à parte, com essa parceria, busquei trazer novas camadas sonoras para as minhas canções sem que elas perdessem as suas características iniciais e potencializar nelas o que há de influência da música popular brasileira. Ninguém faria isso tão bem como o Caçapa.
8) O álbum reúne instrumentos como rabeca, bandolim, violão de sete cordas, percussão e contrabaixo acústico. Como você chegou a essa formação e que papel esses timbres desempenham na identidade do trabalho?
Procurei com esses instrumentos trazer a sonoridade de grupos regionais de música popular e sair um tanto da estética “baixo-guitarra-bateria” tão presente na MPB e na música pop atual. Acho que esses timbres trazem um colorido peculiar ao meu álbum e permitem a escuta de uma música com um “gosto de ao vivo”, sabe? com instrumentos acústicos, em ambientes mais intimistas, menos envolvidos com a necessidade de ter palco e plateia, fazendo uma sugestão sonora daquela música que se pode escutar na casa dos amigos, no bar, no lugar em que a gente escolhe para dançar com quem gostamos.
9) O disco também conta com participações de Paola Pichersky, Mazé Cintra e Neila Khadí. O que cada uma dessas artistas acrescentou à obra a partir de suas próprias experiências e pesquisas?
Essas artistas são, além de amigas muito queridas, pessoas que me ensinaram um monte de coisas ao longo do processo de ensaio e gravações do álbum. Além disso, cada uma delas possui pesquisas muito interessantes em música brasileira, tanto como compositoras, como interpretando outras autoras e autores. Quando às convidei para participar desse trabalho, sabia que elas acrescentariam intensidade, timbres únicos e profundo conhecimento dos gêneros musicais que elas interpretaram no meu álbum.
10) Você afirma que Caroço representa uma síntese de cerca de duas décadas de pesquisa musical. Em que medida o álbum marca uma mudança ou amadurecimento na sua trajetória autoral?
Comecei na carreira musical como violonista “euro-dito” (como costumo chamar o “violão clássico” para identificá-lo histórica e geograficamente), mas sem nunca deixar de tocar percussão e ou me distanciar da canção. Acho que depois de tantos anos, tendo também tocado percussão em orquestras e bateria em grupos de música experimental, encontrei nos projetos atuais, nas composições que fiz nos últimos anos e no álbum Caroço a minha versão favorita de artista, em que posso criar com a palavra e, ao mesmo tempo, experimentar sobre sonoridades que me agradam desde sempre.
11) O primeiro encontro com o público acontece em um formato voz e violão, seguido de um bate-papo sobre o processo de criação e gravação. Por que você escolheu esse formato para apresentar o projeto inicialmente?
Na realidade, o bate-papo ocorre ao longo da apresentação das músicas. Vou explicando um pouco do processo de composição, gravação e lançamento entremeando a conversa com as canções. Essa ideia surgiu num almoço com uma amiga que me perguntou como se faz para chegar no lançamento de um álbum musical. Apesar de já ter notado que, em geral, as pessoas sabem pouco de como funcionam os processos artísticos, naquele dia, me deparei com algumas perguntas que poderiam ser “respondidas” durante uma apresentação. Daí resolvi que iria contar um pouco do processo de composição e gravação do álbum Caroço com palavras, mas também a partir dos formatos das apresentações da temporada de lançamento. Nas duas primeiras apresentações com esse formato voz e violão, toco algumas músicas do álbum e converso com a plateia. Na terceira apresentação, haverá convidados especiais tocando comigo alguns dos arranjos feitos pelo Caçapa, os quais mesclo com algumas músicas em versão voz e violão, em seu “estado” original. Já nas duas últimas apresentações, mostrarei todas as músicas do álbum, incluindo banda e arranjos completos e as convidadas especiais. Além disso, escolhi para apresentar meu álbum lugares que acolhem a música independente e que ajudam na divulgação do meu trabalho. Tenho certeza, de que quem for aos shows, vai curtir conhecê-los também. Bolei essa pequena temporada para dar a oportunidade das pessoas, caso queiram ir a mais que uma das apresentações, conhecerem as músicas de diferentes jeitos e em espaços acústicos variados.
12) Você define Caroço como um convite a “mastigar o desconfortável para chegar ao essencial”. O que espera que o ouvinte leve consigo depois de escutar o álbum?
Gostaria que as pessoas desfrutassem das minhas músicas com a curiosidade que temos ao experimentar algo que nunca comemos. Sabendo que podem encontrar ali amargores, momentos intensos e, quem sabe, doces. Se junto com isso, vierem algumas reflexões, vou gostar mais ainda.
