8 ago 2026, sáb


Os Barraquinhos da Favela marca sua estreia na literatura infantil. O que despertou o desejo de escrever para crianças neste momento da sua trajetória?

As memórias da infância me inspiraram a escrever Os Barraquinhos da Favela. Revisitar a criança que fui por meio da poesia também. Para dizer a verdade, sempre que escrevo sou impelido pelo vento da lembrança, de algo que aconteceu ou que me fez pensar naquele espaço geográfico da favela. A periferia é um poço de inspiração, e eu mergulho nesse poço sempre que posso.

O livro nasce de memórias pessoais vividas na periferia. Como foi transformar lembranças tão íntimas em uma narrativa voltada ao público infantil?

Eu fiquei pensando no menino que fui, na criança que ainda mora dentro de mim, no adulto que me tornei, mas que não esqueceu as próprias raízes. Penso que Os Barraquinhos da Favela é um livro sobre afetos. Um livro singelo, mas que retrata a complexidade de uma criança negra em meio à pobreza e ao descaso do Estado. Aqui, os barracos são os verdadeiros personagens. Mas quem nasceu e se criou em casas como essas? As nossas crianças negras e periféricas, que muitas vezes estão vendendo água no farol.

A obra apresenta a favela a partir do afeto, das lembranças e da esperança. Por que era importante fugir de estereótipos e mostrar esse outro olhar sobre o território?

Eu gosto muito de ressaltar que, sem as ilustrações do Tainan Rocha, talvez o livro não tivesse o peso que tem, pois, como eu já disse na pergunta anterior, este é um livro de afetos. E o colorido do livro não deixa de mostrar que, na periferia, não há apenas sangue, violência, miséria e dor. Na periferia, há vida, há sonhos e resistência.

A janela quebrada e os “barraquinhos” aparecem como metáforas ao longo da narrativa. Como esses símbolos ajudam a contar a história e dialogar com os leitores?

A janela quebrada e os próprios barraquinhos são imagens presentes na minha memória e na memória de muita gente que nasceu e viveu na favela. A palavra “barraquinho” foi para suavizar um pouco, mas sem tirar a profundidade do que é ver, à noite, as estrelas, a lua, as nuvens e um possível amanhã. Os barraquinhos, que muitas vezes são demolidos pelo caminhão da prefeitura, são destruídos, mas nós vamos lá e construímos novamente. Aqui, no livro, eles também representam a esperança por meio da poesia, da cultura, do livro e da força da favela.

Você já publicou obras voltadas ao público jovem e adulto. Quais foram os maiores desafios de adaptar sua escrita para crianças sem perder a potência da mensagem?

Eu não escrevi pensando que estava escrevendo algo para crianças. Mas sabia que havia alguma coisa especial naquele poema. Algo singelo, que vem da alma, se assim eu posso dizer. Sem pretensão. Apenas uma voz que, por mais de 30 anos, esteve presa dentro de mim. Eu não adaptei. Apenas fui lá e escrevi.

Como foi o processo criativo ao lado do ilustrador Tainan Rocha? De que maneira texto e ilustrações se complementam na construção da narrativa?

Trabalho com o Tainan há muitos anos. Ele já ilustrou alguns dos meus textos. Eu sabia que ele poderia fazer um trabalho profundo em relação à minha poesia e, para quem já leu o livro ou mesmo o pegou nas mãos, sabe do que estou falando. O Tainan é um artista sensível e complexo. Mas ele também sabe ser prático. Acredito que, pelo fato de ele também ser da periferia — não sei se da favela, como eu, mas da periferia —, ele foi a pessoa perfeita para interpretar as imagens do poema.

Sua literatura costuma abordar identidade, território e cultura periférica. Você acredita que esses temas ainda são pouco explorados na literatura infantil brasileira?

Eu acredito que a literatura infantil deva explorar cada vez mais as crianças pretas e periféricas. Este livro também é como se fosse um álbum de fotografias. Eu não sei como era o meu rosto na infância, porque não tenho fotos dessa época. Então, o Tainan me fotografou com suas pinceladas. As grandes editoras deveriam investir mais nessas publicações. Seria um belo resgate cultural de pessoas com tanto a dizer.

O lançamento acontece durante a FLIP, em uma roda de conversa na Casa da Favela. Qual o significado de apresentar esse livro em um espaço que valoriza as vozes e as narrativas das periferias?

A Casa da Favela abraçou o meu trabalho desde a primeira edição. Para mim, foi a maior casa da FLIP, porque tinha o baile, as rodas de conversa, o afeto e a empolgação dentro de um evento extremamente elitista. Ainda assim, lá estávamos nós, favelados, escritores e escritoras, apresentando nossos livros. Nossas artes. Os Barraquinhos da Favela não poderia ter sido lançado em outro lugar. Eu estava em casa.

Muitas crianças periféricas ainda têm pouco acesso a livros nos quais possam se reconhecer. Que impacto você espera que Os Barraquinhos da Favela tenha para esses leitores?

Eu espero que este livro alcance muitas crianças da periferia por meio de projetos como o PNLD e que, daqui a alguns anos, ele chegue gratuitamente às escolas públicas. O que uma criança poderá sentir ao ler o livro e ver as ilustrações eu jamais saberia dizer, pois isso é algo subjetivo. Mas uma coisa é certa: para uma criança negra, este livro poderá ser um espelho.

Ao mesmo tempo, o livro também chega a crianças que talvez nunca tenham conhecido a realidade retratada. Como você espera que elas recebam essa história?

Acredito na inocência das crianças. Desde sempre, elas têm um olhar para a poesia. Este livro é para todas as idades. Crianças de todas as classes. Creio que pode haver algo de pertencimento no universo do lúdico. Não do barraco, do lixo e da fome, mas da beleza representada. É como diz a música dos Racionais: “Até do lixão nasce flor.” E as flores são objetos de admiração para todos nós.

Ao revisitar sua infância para escrever este livro, houve alguma lembrança ou descoberta que o surpreendeu durante o processo de criação?

Eu sempre me surpreendo ao imaginar como sobrevivi a tudo aquilo: ao medo de não ter casa, ao medo do caminhão da prefeitura, à fome, ao frio e ao abandono do pai. Alguns buracos são preenchidos por meio da escrita.

Depois dessa estreia na literatura infantil, você pretende continuar escrevendo para esse público? O que os leitores podem esperar dos seus próximos projetos?

Pretendo escrever outros livros relacionados às infâncias. Já tenho outro a caminho. Na verdade, mais dois livros: um infantil e outro para adultos. Estou sempre pensando em novos projetos. A criança que vive dentro de mim não para quieta.