Entrevista: Ana Flausina, cantautora
1. “Rabiscos para o Mar” chega como seu primeiro álbum, mas também transmite uma forte sensação de maturidade artística. Como foi o processo de decidir que era o momento de dar voz às suas próprias composições?
Como tudo que envolve o sagrado na minha vida, cantar foi mais um chamado do que propriamente uma escolha. Há muito tempo me relaciono com a música como compositora e sempre foi muito bonito ver intérpretes dando vida às minhas canções.
Mas desde que me assaltou o impulso de fazer um disco em homenagem a Yemanjá, fui tomada por urgência de entregar as músicas como uma espécie de oferenda. E isso só poderia ser feito a partir da minha própria voz.
Então a cantora nasce muito desse lugar. De uma tentativa de honrar a espiritualidade que me guia e zela por mim. Acho que foi justamente essa travessia que acabou amadurecendo também minha relação com o canto e me fazendo entender que eu precisava ocupar esse espaço de interpretação das minhas próprias composições.
2. O samba aparece no disco como matriz estética, espiritual e política. De que forma esses três elementos se conectam dentro da obra?
Acho que esses elementos aparecem porque o próprio samba já nasce desse encontro entre espiritualidade, estética e política. O samba carrega a memória dos batuques das religiões de matriz africana, atravessa diferentes linguagens musicais no Brasil e também sempre foi um espaço muito importante de afirmação negra. E o disco tenta dialogar com tudo isso.
Há músicas mais ligadas aos arquétipos dos orixás, outras atravessadas pela ideia de resistência negra e também canções que caminham por dimensões mais cotidianas do samba, da malandragem, do humor, da celebração.
Acho que Rabiscos para o Mar acaba sendo uma síntese dessa potência negra que sempre fez da arte um espaço de reinvenção da vida. Para mim, o samba é exatamente esse lugar em que a alegria, a luta e a espiritualidade andam de mãos dadas.
3. Você menciona que cantar exigiu coragem e exposição. O que mudou emocionalmente em você ao assumir também o papel de intérprete das próprias canções?
Foi um processo muito desafiador e, ao mesmo tempo, profundamente gratificante. Cantar exige coragem não apenas pela dimensão técnica, mas porque a voz sempre carrega algo muito íntimo da nossa verdade. Passar por essa experiência foi importante para meu amadurecimento como artista e como pessoa, porque me fez perceber o quanto a gente pode se reinventar quando aceita se lançar no desconhecido.
Ao mesmo tempo, foi uma experiência muito prazeirosa. Interpretar as próprias palavras faz com que a gente entre em contato novamente com a magia da composição. É como se, através do canto, eu fosse, a um só tempo, mãe e parteira das músicas. É sobre gestar e também ser a mediadora de como as músicas vêm ao mundo. Achei muito potente poder ocupar esses dois lugares ao mesmo tempo.
4. Salvador parece atravessar o álbum de maneira muito intensa. Como a cidade influenciou sua escrita e sua musicalidade ao longo desses anos?
Salvador é o chão negro que dá sentido ao disco. É uma cidade profundamente musical, atravessada por referências artísticas muito fortes. Eu canto muito das minhas vivências da cidade no disco: suas feiras, suas mandingas, seu axé.
Foi aqui que compus algumas das faixas mais fortes do álbum e acho que isso tem a ver com uma ambiência musical que estimula a criatividade e com um sentido de coletividade que me atravessou desde que aportei nesse chão.
Salvador também me ensinou muito sobre escuta, sobre presença. E isso acabou inevitavelmente atravessando minha escrita, minha forma de compor e também a sonoridade do disco.
5. O disco dialoga com diferentes sotaques do samba brasileiro. Como foi equilibrar tradição e contemporaneidade na construção sonora do projeto?
Sou filha de cariocas e fui forjada nesse sotaque do samba. Então foi muito bonito chegar em Salvador e me deparar com um outro oceano de possibilidades musicais. Acho que os arranjos acabaram refletindo esses dois mundos de forma muito orgânica, porque eles fazem parte das referências afetivas e musicais de todas as pessoas envolvidas no projeto.
E fomos guiados por um compromisso com a tradição do samba e quisemos honrar diferentes vertentes: do partido alto ao samba de roda, do samba-canção ao samba afro. Ao mesmo tempo, o disco também é atravessado pela assinatura estética de uma geração muito talentosa de músicos baianos que participou da construção do trabalho e trouxe uma sonoridade contemporânea.
Então acho que conseguimos chegar numa síntese interessante, em que o samba segue sendo o centro da obra, mas aparece numa leitura muito viva e arrojada. E, embora ele seja o eixo principal do disco, as faixas também dialogam com outras matrizes sonoras, do ijexá aos toques da capoeira, passando por guitarras e texturas que aproximam o trabalho de sonoridades muito marcantes da música negra brasileira.
6. A presença simbólica dos orixás, especialmente Yemanjá, é muito forte no álbum. Como a espiritualidade atravessa sua criação artística?
A melhor maneira de definir o disco é como um álbum-oferenda. E isso significa que a espiritualidade atravessa o trabalho de muitas formas diferentes. Há canções mais diretamente ligadas aos arquétipos dos orixás e às suas qualidades sagradas, especialmente Yemanjá, que é uma presença muito forte em todo o processo criativo do disco. Mas existe também uma outra camada importante, que é honrar o próprio samba e a dimensão espiritual que existe nele.
O samba sempre foi um espaço de encontro, de cura, de resistência, de celebração da vida negra apesar de todas as violências. Então, para mim, espiritualidade não aparece só quando a música fala explicitamente dos orixás. Ela também está na alegria, na coletividade, na irreverência, no riso, na memória, na roda.
No final das contas, eu enxergo o disco como um grande balaio onde cabem todas essas dimensões. As músicas mais diretamente conectadas às tradições de matriz africana convivem com as canções de protesto, de amor, de humor, de celebração. Tudo isso faz parte da mesma pulsação. De certa forma, sinto que essas músicas me foram entregues pelas águas, e o disco é justamente a tentativa de devolver isso ao mundo.
7. Você é professora, pesquisadora, escritora e compositora. Como essas diferentes dimensões da sua trajetória conversam dentro de “Rabiscos para o Mar”?
Esse projeto me deu a possibilidade de assumir de forma mais inteira essas minhas diferentes facetas. A imagem de uma intelectual ainda está muito associada à austeridade, à contenção, à ideia de uma certa distância emocional. E eu acho importante desafiar esse tipo de fronteira.
Para mim, isso é particularmente atravessado pela questão racial e de gênero. Homens como Vinicius de Moraes, Chico Buarque e tantos outros sempre puderam ser reconhecidos ao mesmo tempo pela densidade intelectual e pela potência artística, afetiva, boêmia, sensível. Com as mulheres, especialmente as mulheres negras, existe muitas vezes uma cobrança para que, se quisermos ser levadas a sério, precisemos conter partes importantes de nós mesmas.
Então acho que Rabiscos para o Mar também fala sobre isso. Sobre a possibilidade de ocupar esses espaços de maneira plenamente humana, sem precisar fragmentar a própria existência. Eu não quero escolher entre ser pesquisadora, professora, escritora ou compositora, porque todas essas dimensões se atravessam o tempo inteiro na forma como eu penso o mundo e na forma como eu crio.
Mergulhar profundamente no processo do disco me ajudou justamente a encarar esse desafio de frente e a entender que vulnerabilidade, sensibilidade e elaboração intelectual podem caminhar juntas.
8. O álbum reúne diversas participações especiais e uma equipe majoritariamente conectada à cena baiana. Como as trocas coletivas ajudaram a construir a identidade do disco?
O disco é resultado da generosidade de músicos baianos de uma nova geração que considero extremamente potente. Marília Sodré e Tiago Nunes assinam a direção musical e foram os grandes responsáveis pela atmosfera sonora do trabalho e por tudo o que ele entrega em termos estéticos. Acho que eles produziram algo muito raro: uma assinatura artística muito forte e, ao mesmo tempo, profundamente sensível. Foi muito bonito vê-los conduzindo esse processo juntos, com tanta escuta, cuidado e generosidade.
Dede Fatuma também foi fundamental nessa construção, participando da base percussiva desenhada por Tiago em boa parte das faixas, e Rayra Mayara empresta ao disco todo o tempero e a personalidade do seu cavaquinho. Não posso deixar de citar também a participação do grande violonista Ruan de Souza, que assina os arranjos de duas músicas do álbum.
Além disso, foi uma honra dividir essas canções com intérpretes tão importantes da cena baiana e também de Brasília. São artistas extremamente talentosos, pessoas que admiro profundamente e que aceitaram participar do projeto pelo respeito ao samba e pela conexão afetiva com o trabalho: Márcia Short, Aloisio Menezes, Gab Ferruz, Cris Pereira, Breno Alves, Mylane Mutti, Deyse Ramos, Janja Araújo e Matheus Crippa. Só tenho a agradecer pela generosidade e pela beleza que cada um deles trouxe ao disco.
9. Em um cenário cada vez mais guiado pelos algoritmos, você afirma que o álbum prioriza um fazer artístico genuíno. O que significa resistir a essa lógica atualmente?
Acho que essa é uma das dimensões que mais me toca nesse trabalho. Poder fazer um disco que pulsa verdade, apesar das pressões comerciais, foi algo muito importante para mim. Existe hoje uma relação muito violenta entre mercado e produção artística, que acaba empurrando os músicos para fórmulas cada vez mais homogêneas, pensadas a partir da lógica das rádios, dos streamings e do funcionamento dos algoritmos. E isso inevitavelmente produz um empobrecimento estético.
Para mim, um fazer artístico genuíno passa justamente pela possibilidade de criar a partir de escolhas livres, de narrativas corajosas, de experiências que não estejam totalmente condicionadas pelo que é considerado mais consumível ou mais facilmente viralizável. Acho que a arte perde muita força quando ela passa a ser produzida apenas para responder a métricas.
Ao mesmo tempo, resistir a essa lógica não significa negar o diálogo com o público ou com as novas formas de circulação da música. Não acho que seja sobre romantizar isolamento ou pureza artística. O que estou defendendo é a necessidade de não permitir que isso determine completamente o processo criativo.
Existe algo muito valioso em sustentar uma obra comprometida com a própria verdade estética, mesmo quando ela não corresponde exatamente às fórmulas que organizam o consumo musical hoje. E acho que Rabiscos para o Mar conseguiu preservar isso. Tenho muito orgulho desse resultado.
10. “Rabiscos para o Mar” também parece afirmar a presença e a autoria de mulheres negras na música brasileira. Qual é a importância dessa ocupação de espaço hoje?
Nomes como Dona Ivone Lara, Leci Brandão e tantas outras referências formam um panteão de compositoras negras que ajudaram a forjar a música brasileira. Existe uma herança muito poderosa construída por essas mulheres e, de alguma forma, gravar um disco autoral é entrar em diálogo com esse legado.
Mas fato é que ainda hoje existe muito pouco espaço para que mulheres negras tenham suas identidades artísticas reconhecidas e divulgadas, especialmente quando falamos de trabalhos autorais. Há muitas artistas extremamente talentosas que enfrentam enormes dificuldades para gravar e circular suas músicas, mesmo com produções potentes.
Então acho que existe uma dimensão política importante em ocupar esse espaço sem abrir mão da própria voz. Poder produzir música dizendo exatamente o que eu quero dizer, da maneira como eu quero dizer, é algo muito valioso. E isso passa também por afirmar nossa complexidade, nossa sensibilidade, nossas narrativas e nossas referências sem precisar caber em expectativas limitadas sobre o que uma mulher negra pode ou deve produzir artisticamente.
Por isso, para mim, gravar Rabiscos para o Mar foi, acima de tudo, um grande ato de resistência.
11. Sua música já foi gravada por nomes como Nelson Rufino. Como foi receber esse reconhecimento antes mesmo da estreia oficial como cantora?
É como se eu tivesse pedido bênção ao samba e ele tivesse me dito amém. É isso o que me vem à cabeça toda vez que vou a um show de Nelson Rufino e ele canta “Jangadeiro”. Eu sempre passo vergonha, porque as lágrimas simplesmente começam a cair sem parar. (risos)
E, claro, o próprio nome da música já revela que esse também foi um presente vindo do mar.
Foi uma emoção ouvir um dos grandes nomes da música brasileira interpretando um samba meu. E isso diz muito sobre a generosidade de Rufino, sobre essa disposição de olhar para a nova geração e apostar em novos compositores. Acho que existe algo muito bonito quando artistas dessa dimensão ajudam a abrir caminhos e legitimam novas vozes dentro do samba.
Para mim, receber essa espécie de bênção logo no começo da caminhada teve um significado muito profundo. Foi algo que me deu força, confiança e a sensação de que eu estava, de fato, sendo acolhida por esse universo que sempre amei tanto.
12. Depois desse primeiro mergulho fonográfico, quais caminhos você imagina para o futuro da sua trajetória musical?
Uma vez uma professora me disse que, na vida, a gente precisa ter compromisso com o compromisso, e não com o sucesso. Acho que é isso que espero da minha relação com a música.
Quero seguir fazendo samba a partir desse lugar de respeito, de entrega e de compromisso coletivo. Pelo prazer da partilha, pela alegria que o samba me evoca, pela possibilidade de construir encontros verdadeiros através da música.
Espero poder continuar emprestando minha sensibilidade ao samba e, ao mesmo tempo, seguir sendo profundamente nutrida por ele. Porque o samba também cuida da gente.
E quero que isso continue acontecendo da forma como esse disco foi construído: a muitas mãos, em roda, em bando. Se a música puder seguir me permitindo viver encontros tão generosos quanto os que vivi em Rabiscos para o Mar, eu sinceramente não tenho mais nada a pedir.
