Entrevista: Grupo Choronas
“Alma Feminina” marca os 30 anos de trajetória das Choronas. De que forma esse álbum dialoga com a história do grupo e com o caminho percorrido até aqui?
Esse trabalho dialoga com a trajetória e história do grupo. É uma evolução do trabalho, com muitas músicas autorais e, principalmente, músicas de mulheres. Além da nossa representatividade resolvemos dar luz às compositoras.
O disco nasce com a proposta de evidenciar compositoras que muitas vezes ficaram invisibilizadas na história da música brasileira. Como foi o processo de pesquisa e curadoria para selecionar as obras presentes no álbum?
Observamos que havia muitas músicas de compositoras que não eram citadas, por exemplo, em “Eu Só Quero um Xodó” todos reverenciam Dominguinhos, e raramente Anastácia é citada. Então fizemos uma pesquisa para revelar essas autoras, essa pesquisa tornou-se constante, e encontramos outras obras que invisibilizam as mulheres. É o caso de “Chiclete com Banana”, que todos acham que é de Jackson do Pandeiro, mas ele é intérprete e não autor. Quem compôs a música foi Almira Castilho e Gordurinha.
O repertório reúne composições autorais, músicas de compositoras contemporâneas e releituras de clássicos da música popular brasileira. Como vocês pensaram esse equilíbrio entre tradição e renovação?
Resolvemos gravar musicistas próximas ao grupo, é o caso de Rosana Bergamasco, que conhece muito as Choronas e participa como diretora musical, arranjadora e autora, além das próprias integrantes.
O choro é historicamente um ambiente predominantemente masculino. Na prática, quais foram os principais desafios enfrentados pelo grupo ao longo dessas três décadas?
Os desafios são constantes, conforme a sociedade foi trazendo à tona questões fundamentais como misoginia e machismo fomos ganhando mais espaço. Sempre digo que são 30 anos de resistência, não foi fácil, não é fácil, mas somos incansáveis.
Ao mesmo tempo, vocês também abriram caminhos importantes para outras instrumentistas. Como enxergam o impacto das Choronas na ampliação da presença feminina no choro?
Eu esperava mais. Tinha o sonho de que o grupo Choronas – por sermos pioneiras e corajosas – ia trazer mais e mais mulheres para a cena do choro, mas ainda acho muito tímida essa presença feminina.
O single “Luminar” nasceu de uma experiência de conexão com a natureza na Serra da Mantiqueira. Como esse processo pessoal e espiritual se transformou em música?
O Hotel Ponto de Luz é uma inspiração para nós. Essa conexão com a natureza é fundamental, pois assim como a natureza nós somos resilientes. Essa música também traz luz para o nosso caminho e para as mulheres instrumentistas.
O álbum percorre diferentes gêneros como choro, samba, baião e maxixe. Como essas influências ajudam a construir a identidade sonora do disco?
O grupo Choronas sempre optou pela pesquisa incansável da música brasileira, afinal a nossa diversidade musical é infinita. Por isso, aproveitamos essa diversidade para evoluir e expandir nosso universo musical.
A direção musical de Rosana Bergamasco teve um papel importante no projeto. Como foi essa colaboração e o que ela acrescentou ao resultado final?
Rosana está muito envolvida com o grupo desde o início. Ela foi, muitas vezes, substituta da Paola (Paola Picherzky, violão 7 cordas) e isso ajudou na concepção do trabalho. A Rosana trouxe muitas contribuições e, com seus arranjos, foi ajudando a dar forma ao disco ‘Alma Feminina’.
A partir dessas perguntas, quem respondeu foi a Paola Picherzky (violão 7 cordas)
O grupo costuma contextualizar historicamente as músicas durante os shows. Qual é a importância de aproximar o público da história do choro e de suas compositoras?
Todas as integrantes do grupo são pesquisadoras, doutoras e mestres. Então, a informação e a contextualização de tudo o que a gente faz é super importante desde o início do nosso trabalho. Não tem como a gente não expressar isso no nosso show. E se dá através da explicação para o público, às vezes mais profunda, outras mais superficial, sobre as obras, as compositoras ou os compositores, de forma a aproximar o público da gente, não só musicalmente, mas também intelectualmente no sentido de conhecimento. E também, a gente se preocupa muito com a formação de público, não só do público que está no show, mas de levar a nossa música para as escolas e ONGs. Cada vez mais nesse mundo internético, as pessoas estão muito afastadas do ponto inicial de onde as coisas acontecem. E, muitas vezes, as pessoas não sabem quem são os artistas, quem são os músicos. Cada vez mais, a gente, enquanto artistas, educadoras e pesquisadoras, assume essa responsabilidade.
Algumas canções do álbum são de compositoras que tiveram suas obras associadas principalmente a intérpretes masculinos. Por que é importante revisitar essas histórias e dar o devido crédito a essas artistas?
De uma vez por todas, é preciso entender que a gente faz parte de uma corrente histórica E se a gente não nomear as mulheres, lá na frente a gente nunca vai ser nomeada. Dá para entender? Pensando num futuro. Em algum momento a gente precisa dar nome às compositoras, atletas, médicas, mulheres que atuam de forma significativa para que a gente possa construir essa história. E a gente é parte dessa história: Choronas, em 30 anos é um grupo que influenciou muitas mulheres, e a gente carrega isso com muita responsabilidade. E hoje, além de a gente dar nome para as artistas que a gente apresentou no nosso álbum, temos também uma equipe composta de mulheres, e que durante o nosso show a gente também nomeia cada uma delas. A nossa produtora executiva, a produtora local, a intérprete de Libras, a fotógrafa e a assessora de imprensa. O que não quer dizer que a gente não trabalhe com homens. Temos homens na nossa equipe também, mas fazemos questão de nomear as mulheres. Então a importância está em dar luz ao trabalho que as mulheres de fato fizeram e que foram apagadas.
Depois de 30 anos de estrada, o que ainda motiva as Choronas a seguir pesquisando, criando e expandindo os horizontes do choro?
Percebemos que a gente pesquisa, cria e expande os horizontes para além do choro. Expandimos os horizontes das mulheres na música instrumental, das mulheres na educação musical, das mulheres em lugares e em atividades que elas querem fazer. De qualquer forma, o grupo é de pesquisadoras e a cada novo trabalho a gente tem um novo desafio. A nossa motivação é de vida, é um modus operandi das Choronas pesquisar, criar e expandir horizontes.
Para finalizar: o que o público pode esperar dos próximos passos das Choronas após o lançamento de “Alma Feminina”? Há planos de shows, turnês ou projetos especiais ligados ao disco?
As Choronas sempre têm um projeto em andamento e outro sendo gestado. Certamente, em breve, a gente lançará outro projeto, que ainda não podemos revelar. Após o lançamento de ‘Alma Feminina’, temos sim a intenção de realizar turnês, shows e palestras com esse mote.
