O terceiro álbum do projeto ULTRASONHO mergulha o ouvinte em um labirinto sonoro repleto de nostalgia, ecos de TV e rádio, e estéticas obsoletas ressignificadas.
O artista paranaense por trás do projeto ULTRASONHO acaba de lançar seu terceiro álbum, “Nós Nunca Vamos Morrer”, trazendo à tona o conceito de “arqueologia do efêmero”. Enraizado nas estéticas do Signalwave e da Hauntologia, o trabalho resgata a decadência das mídias analógicas e transforma falhas, estáticas e distorções em arte. A expressão “ULTRASONHO” ganha corpo ao reconstruir memórias coletivas de uma geração conectada ao som das fitas VHS, jingles de desenhos animados e rádio AM.
Hauntologia e Signalwave ainda soam estrangeiros para o público nacional, mas ganham versão abrasileirada nas mãos do criador do ULTRASONHO. O artista explica que o projeto busca simular um zumbido nostálgico entre o real e o imaginado. A proposta é criar músicas com múltiplos fragmentos, onde samples são esticados, ecoados e até “engolidos” por ruídos. O resultado é uma paisagem sonora tão reconfortante quanto inquietante, como se lembranças da infância estivessem sendo reproduzidas por um rádio quebrado.
Com apoio da Política Nacional Aldir Blanc, o álbum traz como pano de fundo a cidade natal do artista, São Mateus do Sul (PR). Trechos de programas de rádio locais foram coletados e transformados digitalmente, tornando-se portais sonoros disfarçados. Essa ligação regional não apenas confere identidade ao trabalho, mas também ressalta o desejo do artista de valorizar o Paraná na cena musical alternativa.
O álbum, deliberadamente lo-fi, utiliza técnicas digitais para simular a degradação de fitas cassete e VHS. Dessa maneira, sons com interferência, baixa fidelidade e modulação errática são tratados como matéria-prima valiosa. “Pode parecer simples, mas deixar um som corretamente degradado exige precisão”, explica o autor, com bom humor. A ideia central é provocar sensações dúbias, onde o ouvinte oscila entre conforto e estranhamento.
A construção das faixas ignora a linearidade cronológica. Fragmentos dos anos 70, 80 e 90 convivem em um mesmo espaço sonoro, embaralhando percepções temporais. O resultado é uma experiência auditiva semelhante a um sonho lúcido ou uma fita de memórias embaralhada. “Quando você acha que reconheceu algo, ele já se distorceu novamente”, comenta o artista.
Entre os samples utilizados estão desde falas icônicas de apresentadores da TV brasileira até trechos de músicas de artistas como Beach Boys e Aphex Twin. Mas nada aparece como originalmente conhecido. Tudo é filtrado, remixado e devolvido ao ouvinte em novas formas, intensificando o efeito de nostalgia não linear.
“Nós Nunca Vamos Morrer” não pretende apenas ser ouvido, mas sim sentido. O artista equilibra o grotesco e o belo, o perturbador e o acolhedor, criando paisagens sonoras que parecem transitar entre sonhos e pesadelos. Segundo ele, o projeto sempre buscou essa dualidade. “É como um som que parece familiar, mas que veio de um universo paralelo”, define.
Apesar de não ter intenção de se apresentar ao vivo, o criador do ULTRASONHO planeja expandir a experiência sensorial do projeto com videoclipes e outras mídias. Seu foco está na composição e edição, sempre experimentando novas possibilidades. “É um universo infinito”, afirma.
O uso dos recursos do PNAB reforça a relação entre cultura, memória e políticas públicas. Para o artista, essas iniciativas são fundamentais para dar espaço à arte experimental e permitir que projetos como o ULTRASONHO floresçam fora dos grandes centros. “O alternativo precisa estar também no edital”, conclui.

