Entrevista: Táia, cantora e mutiartista
- OBÁ TAJÁ surge após o disco visual Renasço. Em que momento você percebeu que era hora de iniciar um novo capítulo artístico e conceitual na sua trajetória?
Assim que pari Renasço. Muita coisa já borbulhava na minha mente e algumas letras já tinham nascido. Sentia que um novo processo já estava me atravessando. Procurei primeiro Cah, Alê e Rayra para começarmos a construir juntos esse novo caminho, muito motivada também por uma descoberta dentro da minha própria história familiar.
Passei a conhecer melhor a trajetória do meu bisavô, Euthíquio, que era maestro e multi-instrumentista. Meu avô também tocava, assim como a irmã dele, e isso despertou em mim um questionamento profundo: por que essa história musical tinha sido apagada dentro da nossa família? OBA TAJÁ nasce muito desse desejo de reencontrar essas memórias, entender de onde eu venho e transformar essas descobertas em música.
- O álbum parece nascer de uma busca muito íntima por identidade e pertencimento. Como esse processo pessoal se transformou em linguagem musical?
Esse disco nasce de um movimento de investigação sobre quem eu sou e de onde eu venho. Quando comecei a olhar para a história da minha família e para as memórias que formam minha trajetória, percebi que essas perguntas começaram a atravessar naturalmente as letras, as imagens e as escolhas sonoras do álbum.
A linguagem musical de OBA TAJÁ surge justamente desse encontro entre memória, território e criação coletiva. Minhas vivências em Sergipe, minhas referências afetivas e as trocas com as pessoas que estavam construindo o disco comigo foram dando forma a uma sonoridade que mistura diferentes influências, mas que carrega uma intenção muito clara de traduzir identidade e pertencimento em música.
No fim, o álbum transforma uma busca muito íntima em algo compartilhado. Aquilo que começa como uma pergunta pessoal se abre para o coletivo, porque memória e pertencimento nunca são experiências só de uma pessoa — eles sempre atravessam muitas histórias.
- A história do seu bisavô, maestro autodidata e multi-instrumentista, aparece como uma referência importante no projeto. De que forma essa descoberta sobre sua ancestralidade impactou a criação do disco?
Até então eu não tinha dentro da minha família uma referência da música como algo profissional. A arte sempre aparecia mais como hobby ou passatempo, e isso me deixava inquieta, porque desde a infância eu já me percebia como uma pessoa muito atravessada pela criação, interessada por várias linguagens, mesmo sem entender ainda o que era ser uma multiartista.
Quando comecei a conhecer melhor a história do meu bisavô, Euthíquio, isso mudou muito a forma como eu enxergava essa trajetória. Foi como se uma parte da minha própria história ganhasse outro sentido. Perceber que a música já existia na minha linhagem me trouxe uma sensação de pertencimento e também de responsabilidade em continuar esse caminho.
De certa forma, OBA TAJÁ nasce desse reencontro com uma ancestralidade que estava ali, mas que por muito tempo ficou apagada dentro da narrativa da nossa família.
- O título OBÁ TAJÁ carrega um simbolismo forte ligado ao seu nome artístico e à lenda da planta taiá. Como essa imagem da planta e da lágrima de um amor perdido dialoga com as emoções presentes no álbum?
Minha história com a composição começa a partir de um amor perdido. Foi nesse momento que percebi na música uma possibilidade de transformar a dor em criação. Eu precisava dar forma ao que estava sentindo, e a música virou esse lugar de atravessamento e de ressignificação.
Quando conheci a lenda do tajá, essa imagem me tocou profundamente. A história fala de uma planta que nasce da lágrima de um amor perdido, e isso dialogava muito com o meu processo naquele momento. Existe algo muito bonito nessa ideia de que da dor pode nascer vida.
Além disso, o próprio nome carrega outros sentidos. “Taioba”, que vem do tupi taîoba, significa literalmente “folha de tajá” (tajá ou taiá + oba, folha). Um planta muito presente na alimentação popular sendo conhecida por suas folhas nutritivas e usadas na culinária tradicional. No título do álbum, eu trago a ideia da folha especificamente dita também porque dialogo com referências do candomblé, onde tem um significado muito importante — é um elemento de cura, de axé e de conexão espiritual.
Então OBA TAJÁ reúne todas essas camadas: a dor transformada em criação, a memória ancestral e a força simbólica da folha como lugar de vida, alimento e espiritualidade.
- Musicalmente, o trabalho mistura brega pop, elementos orquestrais e performance. Como foi construir esse encontro entre referências populares e arranjos mais sofisticados?
Esse encontro foi naturalmente construído a partir do diálogo dentro do processo de criação. Talibã traz uma relação muito forte com o brega, que aparece como uma base importante na sonoridade do disco e eu cheguei misturando essa referência com outras escutas e com o desejo de experimentar timbres e sonoridades mais contemporâneas, além dos sopros inspirada no meu bisa.
Então o álbum vai nascendo justamente desse encontro entre duas forças. De um lado, a presença muito viva do brega, que é uma música profundamente popular e afetiva no nosso território, e do outro, uma busca por camadas, texturas e elementos que ampliam essa sonoridade.
Foi um processo de muita troca, onde a gente foi experimentando caminhos para que essas referências conversassem entre si e criassem uma linguagem própria para o disco.
- A direção musical de Talibã e a presença de artistas como Jotaerre, Julico e Diane Veloso ajudam a dar forma ao projeto. Como foi esse processo colaborativo no estúdio?
O processo teve uma dinâmica bem diversa. As únicas pessoas que acompanhei presencialmente em estúdio foram Diane Veloso e Cah. Já Jotaerre, Julico e Maysa Reis gravaram suas participações à distância e me enviaram os materiais.
Mesmo quando estou presente nas gravações, procuro deixar as pessoas muito à vontade para colocarem sua própria identidade na música. Acredito muito na força do encontro criativo, então cada artista que participa do disco traz um pouco da sua linguagem para dentro das canções.
Isso aconteceu tanto nas vozes quanto nos instrumentos. Julico e Jotaerre, por exemplo, trouxeram suas próprias leituras nas guitarras, o que acabou ampliando muito as possibilidades sonoras do álbum. No fim, OBA TAJÁ se constrói justamente assim: como um trabalho coletivo, onde cada pessoa deixa sua marca dentro do universo do disco.
- Você menciona que o álbum desloca o brega para um lugar de sofisticação sonora e potência simbólica. Como enxerga o papel desse gênero dentro do pop brasileiro contemporâneo?
Eu tenho um certo cuidado com essa ideia de que o disco “desloca o brega para um lugar de sofisticação”, porque isso pode acabar reforçando um preconceito histórico que já existe em torno do gênero. O brega sempre foi uma música extremamente rica e potente dentro da cultura popular brasileira.
Durante muito tempo essa produção foi diminuída ou tratada como algo menor, especialmente por vir do Nordeste. Muitas vezes esse reconhecimento só aparece quando a grande indústria musical passa a reproduzir essas estéticas na voz de artistas do Sudeste.
O brega nunca precisou ser “sofisticado” — ele sempre foi potente. O que faltou foi reconhecimento.
O que me interessa no disco é justamente explorar as inúmeras possibilidades desse gênero e, principalmente, dar visibilidade às mulheres nordestinas que já constroem essa música há muito tempo, mas que muitas vezes não recebem o devido reconhecimento.
- OBÁ TAJÁ também propõe uma experiência que vai além da música, incorporando visualidade, performance e figurinos conceituais. Como surgiu a ideia de pensar o projeto de forma tão multidisciplinar?
Eu sempre penso minha arte de forma multidisciplinar. Desde o início da minha trajetória, nunca enxerguei a música separada das outras linguagens artísticas que também me atravessam.
Para mim, a canção não termina no som. Ela se expande na visualidade, na performance, na forma como o corpo ocupa o palco e também nos figurinos e nas imagens que acompanham o trabalho. Em OBA TAJÁ, isso aparece de forma muito natural, porque o disco carrega muitas camadas emocionais e conceituais. Pensar o projeto de maneira multidisciplinar foi uma forma de ampliar essa experiência e permitir que o público também mergulhe nesse universo através de diferentes linguagens.
- O show traz elementos como projeções visuais e acessibilidade em Libras. Qual a importância de pensar a música também como espaço de inclusão e ampliação de público?
Pensar a música também como espaço de inclusão é algo muito importante para mim. A arte, quando chega ao público, precisa ser pensada como um lugar de encontro, e isso inclui considerar as diferentes formas de acesso e de experiência que as pessoas têm com a obra.
No show de OBA TAJÁ, as projeções visuais, a presença de Libras e outros elementos de cena ajudam a ampliar essa experiência. Não é apenas sobre assistir a um show, mas sobre criar um ambiente onde mais pessoas possam se sentir parte daquele momento.
Essa preocupação também é muito pessoal para mim, porque tenho um irmão que é PCD. Conviver com ele me fez perceber de forma muito concreta como a acessibilidade ainda é algo que muitas vezes não é pensado nos espaços culturais.
Então, quando construo um trabalho artístico, também tento trazer esse olhar. Acredito que a música tem essa potência de reunir e criar comunidade, e a acessibilidade é parte fundamental para que esse encontro aconteça de forma mais ampla.
- O álbum assume o Nordeste como centro de criação artística. Por que você considera importante reforçar essa perspectiva dentro da música brasileira atual?
Sempre foi importante reforçar essa perspectiva justamente por causa do apagamento histórico que existe em relação ao Nordeste dentro da música brasileira, e isso se intensifica ainda mais quando falamos de estados como Sergipe.
Muitas vezes a produção cultural nordestina é reduzida a alguns poucos lugares ou só ganha visibilidade quando passa por certos centros da indústria cultural. Mas existe uma diversidade enorme de artistas, linguagens e pesquisas acontecendo nos nossos territórios.
Assumir o Nordeste como centro de criação artística no álbum também é uma forma de afirmar que esses processos já existem e são muito potentes. No meu caso, isso passa por reconhecer Sergipe como um lugar de produção, de pensamento artístico e de construção de linguagem dentro da música brasileira contemporânea.
- Sua obra parece dialogar com memórias pessoais, cultura popular e identidade regional ao mesmo tempo. Como equilibrar essas camadas sem perder a força emocional das canções?
Na verdade, essas camadas não são algo que eu precise equilibrar de forma racional, porque todas elas fazem parte de quem eu sou. Minhas memórias pessoais, a cultura popular e a identidade regional atravessam a minha vida de maneira muito natural.
Quando componho, essas referências aparecem porque fazem parte da minha formação, das coisas que vivi, ouvi e observei ao longo do tempo. Então a força emocional das canções vem justamente desse lugar de verdade, de não tentar separar essas dimensões.
No fim, a música acaba sendo um espaço onde tudo isso se encontra: memória, território, afetos e identidade. É a partir desse encontro que as canções ganham vida.
- Depois de mergulhar tão profundamente na sua história e nas raízes culturais do Nordeste neste trabalho, que caminhos você imagina explorar nos próximos projetos?
Neste momento ainda estou muito atravessada pelo próprio processo de OBA TAJÁ. Estou pensando bastante na turnê que quero construir com o álbum e nas experiências que esse show ainda pode gerar.
Acredito muito que os próximos caminhos também vão surgir a partir desse encontro com o público e das vivências que a circulação do disco pode trazer. Cada apresentação abre novas possibilidades de escuta, de troca e de criação.
Então, mais do que projetar algo muito fechado agora, eu sinto que esse próximo momento ainda vai nascer da estrada, das experiências da turnê e das histórias que ainda vão surgir a partir desse trabalho.
