Entrevista: Rita Braga, cantora, compositora e multi-instrumentista

Entrevista: Rita Braga, cantora, compositora e multi-instrumentista

• Fado Tropical nasce de uma investigação sobre as origens do fado. O que mais te surpreendeu durante essa pesquisa histórica?

Eu desconhecia grande parte desta história. Conhecia a história de Maria Severa, uma das primeiras fadistas, que se tornou lenda (da qual não existem registos de imagem ou gravação, pois morreu em 1846), e que, tal como a maioria das fadistas da época, era prostituta. Há inúmeras canções que falam dela e do romance com o Conde de Vimioso, que a levou a atuar num palácio. Mas a pesquisa fez-me aprofundar e mergulhar nesse universo fascinante dos primórdios do fado: saber mais acerca da vida dessas pessoas, os nomes (todos tinham alcunhas, como “O Calcinhas do Cais do Sodré” ou “A Borboleta”), onde atuavam, que outros ofícios os cantores tinham, até o que vestiam — e o facto de muitos acabarem na prisão. 

Depois, já na passagem do fado para os teatros e nas primeiras décadas do século XX, quando começam a existir muitas gravações, surpreendeu-me que a forma de cantar era bem diferente. É o caso da cantora e atriz Ercília Costa, dos anos 20, a primeira fadista internacional que fez digressões no Brasil, Argentina, Estados Unidos, que também inspirou este trabalho. Ou que, anteriormente, as cantoras se acompanhavam a solo na guitarra, e só mais tarde o guitarrista Armandinho (que acompanhava Ercília Costa) começou a solar e desenvolveu o acompanhamento de guitarra portuguesa que ouvimos hoje no fado.

No fundo, muitas coisas que assumimos hoje como parte do fado não existiam, e outras desapareceram. Inclusive, no tempo de Maria Severa, elas meio que dançavam enquanto cantavam, com movimentos sensuais — um certo “requebrar”. 

• A teoria de que o fado teria raízes no Brasil é provocadora. Como essa hipótese impactou suas escolhas artísticas no álbum?

Eu ouvi pela primeira vez essa teoria através de Arrigo Barnabé, quando tive o privilégio de ser sua convidada no programa Supertônica (sou fã da música do Arrigo), na minha última passagem pelo Brasil, em 2024. Achei uma teoria bem estranha, mas depois comecei a deparar-me com ela com frequência — é muito defendida pelo musicólogo português Rui Vieira Nery, que tem diversas publicações acerca da história do fado. Ele fala das influências que chegaram do Brasil (modinhas, lundus…), e que se misturaram com a música daqui. Essa hipótese foi impactante. Eu sempre adorei muita música do Brasil e, por exemplo, há muitos anos que interpreto músicas de Carmen Miranda nos shows. Eu também tinha as minhas ideias pré-concebidas sobre o fado — a imagem da mulher vestida de preto, um estilo pesado e dramático. Mas é bem mais do que isso, e essa ponte com o Brasil também serviu para transportar a música para outras “paisagens sonoras”, e talvez com uma mistura de melancolia e alegria que associo ao samba.

• Este é o seu primeiro disco totalmente em português. O que essa mudança de idioma representa na sua trajetória?

Mais uma vez, essa última passagem pelo Brasil também influenciou a decisão. Eu tenho várias canções em inglês e também em outros idiomas porque frequentemente atuo para um público em muitos países da Europa onde não se fala português, e gosto que se entenda um pouco do conteúdo das minhas letras. Mas a turnê no Brasil reforçou uma ideia que já tinha de fazer o próximo disco todo em português. E até de encarar o idioma como património, por exemplo ao pegar em poemas antigos de autores desconhecidos, que até incluem palavras que já não se usam com calão próprio da época (como “banza”, era como os fadistas chamavam à guitarra portuguesa). Encontrei até um glossário de vocabulário dos fadistas do final do século XIX, e uma amiga brasileira a quem mostrei – a cantora Bárbara Eugênia – disse que há muitas palavras e expressões que ainda se usam no Brasil com um significado aproximado, enquanto que aqui desapareceram. Então para mim foi um mergulhar nessa história dos inícios do fado e também na língua portuguesa.

• O álbum transita entre fado, pop, música eletrônica, surf rock e neo jazz. Como você equilibrou essas linguagens sem perder a identidade do projeto?

Penso que a minha voz e o ukulele unem todos os temas. O meu estilo é mesmo esse, eclético e passando por várias influências, que nem precisam ser bem definidas. No final dos meus shows já ouvi algumas vezes o comentário que transito por vários estilos sem nunca perder a minha identidade, e que é como uma viagem para quem assiste.

• A faixa “Cinza e Pó” traz a participação de Paulo Furtado. Como surgiu essa colaboração e o que ela acrescenta à narrativa do disco?

O Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) é bem conhecido da cena do rock em Portugal. E eu quis fazer uma paralelo entre o fado e o rock, com as suas origens clandestinas, a imagem dos “outlaws” que muitas vezes acabavam na prisão, tal como os primeiros fadistas… Tive uma colaboração com ele no seu disco Femina em 2009, e achei que seria interessante dessa vez ter uma participação dele num disco meu. Acrescentou camadas muito expressivas e cinemáticas até; gosto muito do seu estilo de tocar guitarra.

  • Você trabalhou com letras inéditas de fadistas do século XIX. Como foi o processo de transformar esses registros históricos em canções contemporâneas?

Foi interessante porque foi algo novo para mim: tanto a nível musical, como o dar vida a textos desconhecidos – espero que o resultado também seja interessante para quem escutar. “Um Quarto de Hora”  é como uma marcha funerária (o poema é acerca dos últimos 15 minutos da vida de um fadista e o que ele deseja quando morrer), e para “Cinza e Pó” fiz um levantamento de quadras de fados acerca de cemitérios – houve quem dissesse que soava a uma mistura de fado e Tom Waits. Tem também um vídeo a acompanhar. Penso que esses livros do início do século passado que descrevem o fado no século XIX dariam facilmente para adaptações para cinema.

• Há uma atmosfera bastante imagética em algumas faixas, com referências a morte, memória e tempo. Esses elementos surgiram da pesquisa ou já faziam parte do seu universo criativo?

Penso que já faziam parte. Por exemplo o tema “Erosão” (entra no EP Gringo em São Paulo, que escrevi e produzi no Brasil em 2013), é sobre tempo, memória… gosto da ideia de algo intemporal, ou da ideia de outras dimensões para lá do visível e tangível do quotidiano. Por exemplo esse “Fado Tropical” é de um tempo e lugar imaginado, mistura música do passado e fantasia.

• O álbum parece propor um diálogo entre passado e presente. Você enxerga Fado Tropical mais como resgate, reinvenção ou ruptura?

É uma boa questão. Talvez tenha tudo isso! Resgate do passado; reinvenção artística; ruptura com os meus discos anteriores mas também com o que se pode esperar de quem aborda o género do fado…

• Sua banda reúne músicos com formações e instrumentos diversos. Como foi construir essa sonoridade coletiva tão plural?

Eu procurei esses instrumentos; comecei pela marimba e violoncelo, e ao início pensei que seria essencialmente esse trio com o ukulele. Mas depois foi crescendo, com saxofones (por coincidência o músico João Cabrita estreou-se com o disco Fado Bailado de Rao Kyao no final dos anos 80, e gravou em outros discos de fado, apesar de o saxofone não ser um instrumento comum no género), guitarras, outras percussões… todos os instrumentos servem o imaginário das canções, não foram ao acaso. Há músicos com formação clássica, outros do jazz ou do rock.

• Você já havia sinalizado uma conexão com o Brasil no single “Chão de Estrelas”. Como enxerga hoje sua relação artística com a música brasileira?

Estou constantemente a descobrir música, incluindo muita música brasileira antiga ou atual, que passo no meu programa de rádio mensal Super Braguita FM na rádio online Yé Yé (do Porto). E há sempre mais por descobrir! Adoro muita música do Brasil, de diversas épocas.

“Chão de Estrelas” ouvi pela primeira vez na versão dos Mutantes, e pensei que Arnaldo Baptista estava a fazer uma caricatura de um sotaque português a cantar uma espécie de fado – e depois descobri que imitava os cantores da era da rádio do Brasil como Sílvio Caldas, e foi uma descoberta fantástica, pois esse tipo de música não é conhecida em Portugal. Talvez esta tenha sido a primeira versão portuguesa de “Chão de Estrelas”.

• Depois da turnê de Illegal Planet, o que mudou na sua forma de compor e produzir?

Quis voltar a um registo mais acústico e colaborativo (o novo disco não é concebido para tocar a solo), e também pôr de lado os teclados eletrónicos e caixas de ritmo que caracterizaram os dois discos anteriores – adoro essas sonoridades e posso sempre voltar a elas, mas dessa vez não quis repetir a mesma “fórmula”.

• Que tipo de experiência você espera provocar no ouvinte ao mergulhar em Fado Tropical?

Acho que cada experiência é pessoal, mas gostaria que os ouvintes fossem surpreendidos. Soa a algo bem antigo, por exemplo na forma de cantar, e por isso quase familiar, no entanto não é tradicional…

marramaqueadmin