Entrevista: Juliano Gauche, cantor, compositor e instrumentista
1-“A Balada de Bicho de Luz” apresenta um conceito baseado em dualidades. Em que momento essa ideia começou a estruturar o disco?
Só me dei conta no final. Prestes a completar 50 anos, eu ainda sinto o peso da Primeira Igreja Batista de Ecoporanga sobre mim. É um trabalho muito pesado que eles fazem com as cabeças das crianças. Toda essa ideia de que você só tem duas escolhas é muito sufocadora. Ou você vive travado pelo medo de ofender Deus, ou se solta e cai nos braços do diabo. Isso é enlouquecedor. Ou ficar no paraíso eternamente sem fazer nada, só olhando para a cara de Deus, ou ficar no inferno eternamente sendo torturado. Ou você é uma pessoa boa, ou você é uma pessoa má. Parece que o mundo não tem mais escolhas, mais alternativas. Fui expulso da igreja aos 17 anos, e cancelado socialmente por essa mesma igreja, antes mesmo dessa moda de cancelamentos. Até hoje quando eu deixo minha cabeça fluir, vem esses medos, essas paranoias, essa raivas, e eu vou lutando contra elas colocando nas músicas todo um universo que contraria tudo isso que me foi imposto.
2- O álbum transita por temas profundos como vida e morte, bem e mal, lucidez e loucura. Como foi transformar essas questões em canções com uma linguagem mais direta?
Acredito que tudo que escrevi até hoje vem da necessidade de expurgar de mim a minha criação evangélica. Essa mitologia que chamam de cristianismo está deixando as pessoas doentes. Muitos dos meus amigos que tiveram crises psicóticas, e alguns deles não voltaram, tinham como base a paranoia religiosa. Sentiam-se perseguidos pelo demônio, até que enlouqueciam. Todos têm narrativas parecidas, de alguma coisa negra e demoníaca entrou no corpo deles. Sendo que essa coisa de demônio é uma invenção da igreja católica. Não existe diabos nem coisas do gênero em outras religiões, nem na judaica. Então eu acho isso um crime, ver toda essa garotada submetida a esse tipo de sequestro e tortura psicológica. Nesse disco, em especial, acho que o que fez a diferença foi eu não ter usado nenhum recurso poético. Então tudo que eu estava dizendo antes, nos outros discos, ficou mais claro agora.
3- Musicalmente, o disco reúne influências diversas dentro do rock. Como você construiu essa identidade sonora que vai da psicodelia ao stoner e ao pós-punk?
Eu realmente gosto de rock. Sou devorador compulsivo do gênero, desde os meus 13 anos de idade. Mas enquanto eu me profissionalizava, fui me aprofundando em coisas que me pareciam necessárias, principalmente literatura. E por um tempo o rock me pareceu ser uma coisa só para garotos mesmo, algo que a gente deve se envergonhar com o passar do tempo. Mas nunca consegui deixar o rock totalmente de lado. Há uns dois anos atrás comecei a ouvir o Júpiter Maçã obsessivamente, e tudo que havia de rock reprimido em mim começou a se agitar. Comprei um pedal de distorção, que até então eu evitava a usar, e comecei a improvisar em cima de umas programações que eu mesmo estava fazendo. Os riffs começaram a chover depois disso, como se eles já estivem prontos dentro mim há muito tempo.
4- Você assina todas as composições, letras e arranjos. Como funciona o seu processo criativo ao desenvolver um trabalho tão autoral?
Neste disco foi tudo diferente. Ao contrário dos outros, que eu levava as canções prontas para um estúdio e lá os arranjos eram desenvolvidos com parceiros, neste eu fiz quase tudo sozinho no meu quarto. Enquanto eu estudava o programa logic, para me gravar em casa, meu sobrinho Vizi, que na época gravava seu primeiro disco de trap, começou a me pedir para fazer bases para ele, e isso me levou a fazer bases para mim mesmo, que depois ganhariam riffs e letras. Nunca tinha produzido assim antes. Cada dia eu era um personagem diferente, nuns o cara que só ficava fazendo bases, noutros o cara ficava improvisando na guitarra por horas, noutros o letrista que passava o dia dando sentido àquilo tudo.
5 -A produção é dividida com Klaus Sena, que também assina a mixagem e direção do show. Como se deu essa parceria e o que ela agregou ao resultado final?
Começamos a produzir juntos em 2019, na transição do Afastamento para o Bombyx Mori. Minha ideia era começar tudo de novo, tudo do zero. Eu queria voltar a me apropriar do meu som, como eu fazia quando tinha banda. Então começamos com esse ep, Bombyx, só comigo no violão e ele nos sintetizadores. Depois fizemos o Tenho Acordado Dentro dos Sonhos, com um pouco mais de arranjo, mas ainda mais intimista. Tudo isso, mais os shows que fizemos nesses últimos anos, foi construindo essa parceria que agora se consolida num disco de banda, com a chegada do Victor Bluhm. Entreguei o que havia feito em meu quarto para o Klaus e ele fez todo resto, de uma forma que parecia ler meus pensamentos. Ele não mexeu em quase nada do que eu fiz, e eu não mexi em quase nada do que ele fez. Foi realmente um disco feito a duas mãos.
6 -Você mantém uma colaboração recorrente com o baterista Victor Bluhm. O que essa continuidade traz de diferente para o som do disco?
Primeira vez que toquei com Victor, foi quando gravamos o programa Metrópoles, em 2016, divulgando o disco Nas Estâncias de Dzyan, e ele estava substituindo o Gustavo Souza na bateria. Depois participei de alguns shows com sua banda Oto Gris também. Sempre gostei da tocada suave e na pressão que ele tem. Mas foi quando ele se mudou para a casa do Klaus que começamos a conviver mais e eu fui o convidando para tocar no que estávamos gravando, até que agora aconteceu de fazermos este disco todo juntos. E o mais bonito é que as gravações aconteceram logo depois de termos tocado em Fortaleza, cidade natal dele e do Klaus, na noite de aniversário de 20 anos da banda que ele e Klaus tem juntos, a Fóssil. Foi um momento incrível, que nos aproximou muito. Consigo ver todas essas alegrias no brilho do som de bateria que ele tirou no disco.
7 – O álbum conta com participações de nomes importantes da cena independente. Como essas colaborações foram pensadas dentro do conceito do projeto?
O Tatá Aeroplano é quase um irmão para mim, desde que ele me recebeu em São Paulo em 2010. Nossa afinidade é muito grande, estamos sempre em contato, sempre pensando juntos. A Julia Valiengo é a mesma coisa, desde que a conheci com a sua Trupe Chá de Boldo, também em 2010. Participei de muitos shows da Trupe, que foram fundamentais para mim quando cheguei em Sampa sem conhecer ninguém. Também ficamos amigos muito rápido. Ela gravou uma composição minha num disco da Trupe, chamada Canção do Mundo Maior, que eu me arrepio até hoje quando ouço. O Fernando Catatau eu conheci quando minha companheira, Sil Ramalhete, produzia o Cidadão Instigado. Ele sempre nos convidava para ir à sua casa, ou ao seu sítio, sempre me apresentando referências. Um dia ele me convidou para ouvir o disco Fortaleza, que estava ainda em produção, na casa dele, disse que tinha gostado do jeito que eu tinha cantado num show meu que ele havia visto, e cantou o Fortaleza inteiro para eu ouvir enquanto o disco tocava. Depois perguntou o que eu estava achando. Isso pra mim foi chocante, fiquei sem saber o que dizer e fazer. Depois disso me senti completamente conectado a ele, o que me levou a convidá-lo para produzir meu terceiro disco, Afastamento. Mas a ideia de ter o três juntos no disco, foi do Klaus. Talvez por timidez, eu fico cheio de dedos para convidar meus amigos para participar dos meus projetos. Mas por sorte eles toparam na hora, e tá cada um melhor que o outro, cada um sendo exatamente quem é, e mesmo assim, totalmente dentro das composições, como se elas tivessem sido feitas para eles.
8 – Há uma forte presença de distorções e sintetizadores no disco. Como você equilibra o peso do rock com as camadas mais atmosféricas?
As camadas que dão essa atmosfera vem das bases que eu comecei a criar a partir das bases que fazia para o meu sobrinho Vizi cantar Trap em cima. Fazer as bases para ele me fez querer brincar de fazer bases para mim. Então eu ia testando tudo que eu tinha disponível no programa, sintetizadores, baixos mid, arpegiadores, delays nas caixas da bateria, percussões digitais. Depois eu comecei a improvisar com a guitarra distorcida em cima dessas bases, o que trouxe a pegada rock. Parte do processo fiz com composições que nasceram no violão, e parte, colocando camada sobre camada, até chegar a voz com letra.
9 -Suas influências passam por artistas marcantes da música brasileira. De que forma essas referências aparecem — consciente ou inconscientemente — no álbum?
Mutantes e Raul Seixas sempre fizeram parte das minhas audições imersivas, quando começo escutar um ou outro, fico dias só os ouvindo. E agora o Júpiter Maçã também está entrando nessa lista. Os Mutantes, principalmente o Arnaldo, aparecem na parte mais lúdica do disco, quando a música tem um toque de brincadeira de criança, como na faixa que abre, Como o Vulcão que Forja o Anel que Dá o Poder de Toda Luz, e a Quarenta Dias no Deserto, por exemplo. O Raul está no lado mais filosófico das letras, como em Quem Já Comeu o Nietzsche Sabe e Jesus Cristo x Belzebu. E também nos sons mais blues, como O Mal de Quem Quer Muito Andar e a própria A Balada do Bicho de Luz. O Jupiter chegou trazendo o elemento futurista, sintetizadores, distorções, pegada punk, e zero de drama e melancolia.
10 -O título do disco sugere uma jornada quase filosófica. Que tipo de experiência você espera provocar no ouvinte ao percorrer as faixas?
No fim, acho que o que fica no ar é um convite ao relaxamento, a dançar, a meter o louco tranquilamente, a reconsiderar os conceitos, a rir dos próprios medos. Bicho de Luz deveria soar meio como maluco beleza, um paradoxo bem resolvido consigo mesmo, uma situação que deveria estar em conflito, a carne (bicho) e o espírito (luz), mas está feliz, de boa sendo uma e outra coisa ao mesmo tempo, para o desespero de sua igreja.
11 -Este é o seu quinto álbum de estúdio. Como você enxerga a evolução da sua trajetória até chegar a “A Balada de Bicho de Luz”?
No primeiro disco eu estava buscando minha identidade, e uma voz própria. Foi o Tatá Aeroplano que organizou toda a produção. No segundo eu assino a produção, já procurando colocar as mãos no som também. No terceiro eu acabei deixando o som mais por conta do Catatau, e foquei em escrever canções que representassem o peso daquele momento, 2018. Depois disso voltei para o Espírito Santo e recomecei o processo, até chegar neste resultado de agora, A Balada do Bicho de Luz.
12 – Após esse lançamento, como você imagina os desdobramentos desse trabalho nos palcos e nos próximos projetos?
É difícil imaginar essas coisas no mundo independente, a intenção é sempre tocar o máximo possível. É um show em trio, fácil de circular, espero que o disco tenho uma boa recepção, e nos leve para a estrada. Outro projeto que gostaria de ver lançado em breve, é um livro que escrevi, chamado O Louco, uma auto ficção baseada na minha internação numa psiquiatria aos 25 anos de idade. Foi escrevendo esse livro que encontrei essa linguagem mais direta que caracterizou este novo disco, principalmente a faixa título.
