Entrevista: Artur Wais, cantor e compositor
- “Se Acostumar” nasce como um álbum bastante conceitual. Em que momento você percebeu que esse projeto precisava ser estruturado em dois lados — Chegadas e Partidas?
A organização dos lados A e B foi uma das últimas partes do processo, foi um lance de parar pra olhar o que tinha sido feito e tentar ver como era a melhor forma de organizar as músicas. Acabou que fez bastante sentido separar assim, inconscientemente havia duas grandes temáticas no álbum, o amor e a impermanência. Os nomes dos lados vem da faixa título, “Se Acostumar”, que eu acho que é como uma síntese do que é tratado no álbum como um todo. Essa coisa de aprender a lidar com a saudade.
- O disco carrega uma forte dimensão afetiva e geográfica. Como o Sul do Brasil influencia sua identidade musical e narrativa dentro desse trabalho?
Acho que nesse trabalho eu me permiti ser exageradamente específico nas referências geográficas e pessoais na escrita das canções. Participei de um oficina de escrita de letra de canção com o Rômulo Fróes uma vez onde ele defendia bastante isso da importância de buscar ser o que se é na escrita, de não se importar se o interlocutor vai entender exatamente o que está sendo falado sobre. A canção que abre o álbum, “Organizando Todo Mundo Sonha”, por exemplo, cita nomes de ruas, bairros e bares de Porto Alegre, que quem não é daqui não vai saber exatamente do que tá sendo falado, mas o contexto vai permitir que o necessário seja compreendido. E acho que o fato de eu viver aqui no Sul do Brasil desde sempre traz naturalmente essas temáticas pras canções.
- Você descreve o álbum como um “mapa sonoro”. Quais são os principais territórios emocionais que o ouvinte percorre ao longo das faixas?
Aí o próprio ouvinte vai poder dizer, hehe. Mas acho que pra mim é um álbum sobre amor, impermanência, saudade, passagem do tempo e amizade. O lado A traz 7 crônicas de encontros, cada uma a seu modo, “Organizando Todo Mundo Sonha” é sobre um amor inviabilizado pela distância, “Cabe no Coração” é sobre devoção total, “Papazinho” é sobre gestos de afeto em forma de comida, “Menina Bethânia” é sobre viver um amor em Porto Alegre, “Meinhas de Algodão” é sobre querer ir pra outro lugar por amor, “Três” é sobre amor de verão e “Sobre Nós” é sobre todos os amores serem um só. O lado B traz 7 canções sobre impermanência. “Era Pra Eu Ter Sido Um Beijo” é sobre pensar sobre o próprio nascimento, “Vida de Isqueiro” é sobre pensar sobre os próprios hábitos, especialmente noturnos, “Outro Trago” é sobre amizade e boemia, “Passar Uns Dias em Valdívia” é sobre amizade e distância, “Joaquín Hermanito” é sobre fragilidade, “Haverá” é sobre a esperança dos finais e “Se Acostumar” é sobre saudades, despedidas e finais de ciclos.
- Sua trajetória recente inclui festivais e residências artísticas, inclusive na Europa. De que forma essas experiências internacionais impactaram a sonoridade e a composição do disco?
Impactaram demais. O período que passei em Bologna foi fundamental para a organização desse projeto. Lá participei de uma residência artística onde gravei “Sobreviver aos 30”, primeiro lançamento dessa minha carreira solo. E para além da gravação da canção, foi um período onde pude experimentar muita coisa musicalmente, desde poder tocar com várias pessoas diferentes e experimentar arranjos até pegar o violão e sair pra tocar sozinho pelas ruas. Os festivais de composição também foram fundamentais. A escrita de “Papazinho” no Cantalice, em Santa Maria, junto de Zelito Ramos e Yuri ML foi muito importante pra mim, foi quando depois de muito tempo voltei a me permitir escrever canções de amor, todo o lado A do álbum foi escrito depois desse festival. Outro festival que foi super importante foi o Jarautoral, no Cerro do Jarau, em Quaraí. Lá nasceram Vida de Isqueiro, canção coletiva feita enquanto tomávamos o último café da manhã antes de voltar para Porto Alegre e Sobre Nós, que fizemos eu e o Gui Becker na estrada durante o caminho de volta.
- Há uma presença marcante da coletividade no álbum, tanto na ficha técnica quanto nas parcerias. Como você equilibra a autoria individual com esse processo colaborativo?
Era uma vontade desde o início desse projeto, fazer um trabalho que fosse solo, mas que não fosse solitário. Passei dez anos com a Rota de Pedestre e durante esse período quase que todo meu fazer musical passava pela coletividade da banda. O que foi ótimo, mas eu estava com vontade de experimentar outras parcerias e outras formas de fazer música. Acho que o “Se Acostumar” é o ponto alto disso. Com um monte de parceiros e parceiras de composição, vários instrumentistas convidados e muitas participações especiais. Tô bem feliz com o resultado desse processo.
- Musicalmente, o disco transita entre tradição e contemporaneidade. Quais referências foram essenciais para construir essa sonoridade híbrida?
Esse trabalho tem bastante referência na música aqui do Rio Grande do Sul. Vitor Ramil, Kleiton e Kledir, Saracura, Bebeto Alves. Gente que veio fazendo esse exercício de misturar a tradição aqui do Sul com coisas contemporâneas de cada época. O Marcelo Corsetti, responsável pela produção musical e pela gravação das guitarras do álbum tocou por mais de 20 anos com o Bebeto Alves, desde o álbum BlackBagualNegoVéio. E foi super importante pra mim ter conhecido os trabalhos de compositores como Nandico Saldanha, Rafael Ovídio, Pedro Ribas, Zelito Ramos, Pirisca Grecco e Túlio Urach, gente que também veio fazendo esse exercício de misturar tradição e modernidade. Alguns deles inclusive se tornaram parceiros de composição em canções que fazem parte desse trabalho.
- O Lado A traz crônicas de encontros, enquanto o Lado B mergulha nas despedidas. Foi emocionalmente diferente compor essas duas partes?
Eu acho que dá pra dizer que sim. Acho que a maior parte das canções do lado B foi escrita antes do que as do lado A. De certa forma as despedidas vieram antes dos encontros (que viraram também despedidas e aquela coisa da cobra comendo o próprio rabo). Acho que foram emocionalmente diferentes as escritas porque as emoções eram diferentes mesmo, as canções sobre despedida eu escrevi quando tava vivendo despedidas e sentindo as coisas mesmo. “Se Acostumar”, por exemplo, escrevi enquanto arrumava as malas pra ir embora de Lisboa, da casa de um amigo que eu achava que dificilmente encontraria de novo depois. As canções do lado A também têm mais vivências que invenções. Passei pelo Ossip, pelo Fuga, pela Santo Antônio e pelo Menino Deus antes de escrever “Organizando Todo Mundo Sonha”. Acho que as emoções são diferentes pra cada canção, mas o que sempre tá lá quando a gente escreve uma é a necessidade de se permitir ser menos duro e mais vulnerável pra que o processo leve pra um lugar interessante.
- A faixa-título encerra o álbum com uma reflexão sobre o tempo de ficar e o tempo de partir. O que essa ideia representa hoje na sua vida pessoal e artística?
Acho que é quase uma confissão, hehe. Continuo odiando despedidas e sentindo mais vontade de desaparecer do que de dar tchau. Mas enfim, acho que “Se Acostumar” é sobre entender os ciclos da vida e que tudo vai acabar e a gente vai sentir saudades e que é isso aí mesmo. Mas que quando as coisas acabam, outras coisas começam. A coisa cíclica, mas crescente do arranjo é um pouco sobre isso. É sobre fins e começos de ciclos. Acho que é isso que esse álbum é, o fim de um ciclo do que veio antes e o início de um novo.
- O álbum também será lançado em formato físico de fita K7, algo pouco comum atualmente. O que motivou essa escolha e como ela dialoga com o conceito do projeto?
Fiquei bastante tempo pensando se ainda fazia sentido fazer algum tipo de mídia física do trabalho. As pessoas cada vez menos escutam música diretamente de mídias físicas, que funcionam cada vez mais como um souvenir. A fita K7 tem a possibilidade de ter o lado A e o lado B separados, assim como a ideia do álbum. É possível que haja alguma tiragem em CD em algum momento também, mas a fita K7 é o objeto que achei mais interessante pra carregar esse trabalho. A gravação das fitas foi feita em casa e o processo exige toda uma artesania, com cada fita sendo copiada em tempo real, então o lote que vai ter aproximadamente 50 fitas levou aproximadamente 50 horas pra ser gravado (um pouco mais, porque teve todo o tempo de entender como era a melhor maneira de gravar e tal). Agradeço demais ao Antônio Olivé, que me emprestou um gravador de fita K7 pra que eu pudesse começar essas gravações.
- Você já vinha apresentando algumas músicas em singles. Como foi, para você, o processo de finalmente reunir tudo em um álbum completo?
Esses lançamentos de singles foram importantes pra ir entendendo como fazer pra lançar músicas no mundo atual. Entender as possibilidades, os limites, as brigas que vale comprar e como se organizar pra fazer o corre todo. Desde a parte mais operacional de prazos pra subir as coisas nas plataformas intermediárias (agregadoras digitais) até a organização de redes sociais, assessoria de imprensa, shows, turnês. Ainda acumulo boa parte dessas funções nesse projeto e ter feito esses lançamentos de singles me permitiu entender até onde dá pra ir levando assim. Do ponto de vista artístico poder apresentar tudo no formato completo de álbum é uma realização sem igual. É a forma como eu gostaria que as pessoas escutassem o trabalho. Tipo ver um filme no cinema, em vez de ver na Sessão da Tarde com as propagandas cortando, hehe.
- Dentro desse universo de “Se Acostumar”, existe alguma faixa que você considera especialmente simbólica ou um ponto de virada na sua trajetória?
Acho que cada uma tem o seu espaço no repertório. São importantes de jeitos diferentes. Eu gosto muito de todas. Não saberia dizer se alguma se destaca mais. Se tivesse que escolher uma hoje acho que seria “Se Acostumar”, a faixa-título, que, de certa forma, sintetiza bastante do que é a ideia desse trabalho. Foi a primeira canção que pensei em convidar o Corsetti pra tocar comigo também, desde antes de a gente decidir fazer juntos o trabalho todo. Acho que tudo isso dá um peso pra ela. Pelo menos pra mim.
- Após esse lançamento de estreia, quais caminhos você imagina seguir — tanto em termos de pesquisa sonora quanto de narrativa artística?
Tenho sido super feliz fazendo shows com banda em formato de quarteto, com violão, guitarra, baixo e bateria. Sempre que possível esse é o formato com o qual tenho levado o “Se Acostumar” pros palcos. O que vem depois eu ainda não saberia dizer. Já tem algumas canções novas que tenho apresentado em shows em formato voz e violão mesmo antes do lançamento do álbum. Material pra fazer mais álbuns a gente sempre tem, mas tenho vontade de circular com esse projeto ainda antes de voltar a entrar em estúdio pra gravar o próximo trabalho.
