Entrevista: Marco Moriconi, professor

Entrevista: Marco Moriconi, professor

O que motivou a criação de “Qual é o problema? 2” e como o livro se diferencia do primeiro volume da série?
 

A motivação das colunas foi, desde o início, apresentar matemática de uma forma interessante e estimulante, por meio de problemas ou puzzles que mostrem a beleza da matemática.
 
No primeiro livro as colunas foram coletadas em ordem de publicação. Já, aqui, agrupamos as colunas por temas, permitindo que leitores “mergulhem” em uma certa área.
 
Coletar as colunas facilita a consulta ao material além de organizá-lo tematicamente, como fizemos nesse livro, mostra uma unidade entre ideias diferentes, algo que deve ser feito periodicamente.
 
Por que a matemática, quando narrada em forma de histórias, se torna mais acessível e divertida para o público jovem?
 
O ser humano vive de histórias. Não é à toa que somos fascinados por todo tipo de contação de histórias, das que acontecem conosco ou com outros, teatro e cinema. Colocar uma ideia matemática em um contexto, numa forma mais narrativa, ajuda muito a estimular o interesse e fazer com que a pessoa consolide aquele conhecimento. Além disso uma história, como contexto, mostra como a linguagem matemática serve para entender certos aspectos de nossas vidas.
 
Por isso o livro é escrito para qualquer um que goste, ou não sabe que gosta, de matemática. Não requer conhecimento escolar prévio. A ideia é estimular o gosto pela matemática.
 
A obra reúne colunas publicadas na revista Ciência Hoje. Como foi transformar textos mensais em um livro coeso, com galerias temáticas que conversam entre si?
 
Foi um processo interessante. Inicialmente reuni todas colunas, já são mais de 200 até o momento, e listei os temas de cada uma, aritmética, probabilidade, grafos e por aí vai. Uma vez feito esse trabalho temático, os agrupamentos surgiram de maneira bastante natural. Foi um processo trabalhoso, mas extremamente prazeroso, tanto do ponto de vista pessoal, de revisitar o trabalho de tantos anos, quanto do ponto de vista editorial, interagindo com a redação e polindo os textos.
 
Qual das galerias — Aritmética, Geometria, Provas Visuais, Mágica, Grafos, Probabilidade, Lógica, Jogos ou Noel — você acredita que mais surpreenderá o leitor?
 
Acho que cada galeria tem algo com potencial de atrair o leitor. Aliás, cada um tem seu gosto matemático, mesmo que ainda não saiba, uns vão gostar mais de lógica, outros de geometria. As de mágica são atraentes porque podem sair do papel e serem postas na prática, com amigos. As de Noel tem uma pegada mais bem humorada, com temas variados. Provas visuais tem o apelo de tornar a matemática visível… Espero que todas tenham algo para cada leitor.
 
Ao escrever sobre matemática com humor, você enfrenta o desafio de equilibrar precisão científica com leveza. Como encontra esse ponto ideal?
 
 
Usar uma linguagem leve mas precisa é sempre um desafio, acaba tendo um compromisso entre texto preciso e texto agradável. Uma coisa que faço é quando tem algum passo um pouco mais elaborado e deixo para um desafio. Assim, quem quiser continuar a ler, pode seguir, e quem quiser um pouco mais de envolvimento, tem o desafio, complementando a coluna.
 
Nos textos mostro que é possível falar de matemática com leveza e humor sem perder precisão científica.
 
Como tem sido sua experiência ao observar que muitos leitores se aproximam da matemática justamente por meio dessas narrativas mais lúdicas e inesperadas?
 

Sempre que mostro algum resultado inesperado há sempre um brilho nos olhos, as pessoas gostam muito disso, de se encantar com a matemática. Há o trauma escolar para muitos, que acabam se afastando de algo tão bonito porque, na prática, você pode seguir a vida sem matemática… e sem literatura, música, e por aí vai. Mas a vida fica muito sem graça, assim. A matemática é uma fonte inesgotável de momentos de encanto, devemos apreciá-la!
 
O livro promete “embates matemáticos” com um Papai Noel esperto. Como surgiu essa ideia e o que ela simboliza dentro da obra?
 
Com a chegada do final do ano, clima natalino, me ocorreu a ideia de como seria se eu pedisse O Livro, uma ideia inventada pelo matemático húngaro Paul Erdös (1913 – 1996): um livro que contém as provas mais elegantes e simples de todos resultados matemáticos. Claro que nunca vou ganhar essa belezura, então Noel sempre dá um jeito de me passar a perna, com um bom problema de matemática. É uma forma de escrever mais solta, usar humor livremente, falar de matemática de forma descontraída. No final das colunas Noel e seu ajudante Günther sempre saem às risadas e eu fico meio contrariado por ter me passado a perna. Mas no fundo eu gosto deles…
 
Em tempos de tanta desinformação, textos que estimulam raciocínio lógico se tornam ainda mais importantes. Esse contexto influenciou a construção do livro?
 
As colunas começaram em 2005 pelo puro prazer de falar de matemática. Eu conto essa história no primeiro volume. Não havia nenhuma pauta, nenhuma intenção que não fosse falar de problemas interessantes, que pudessem estimular os leitores. Hoje em dia, vejo um potencial educacional, explicar ideias e raciocínios que podem ser importantes no dia a dia, como no caso de pesquisas eleitorais ou raciocínio lógico.
 
Na sua opinião, qual é a principal barreira cultural que faz tantas pessoas terem medo da matemática — e como sua obra tenta quebrá-la?
 
A experiência inicial que muitos têm com a matemática pode ser traumática. Uma série de tarefas sem contexto, com métodos estranhos que são repetidos sem serem entendidos. Uma vez que se livram desse período chega a ser um alívio para muitas pessoas, o que é uma pena. Algo semelhante acontece com literatura, imagino. Ser exposto a grandes autores como Machado de Assis, no momento errado, pode criar um trauma, nunca mais dar uma oportunidade. Depois, quando se lê Machado se vê como é maravilhoso. O mesmo parece acontecer com a matemática. O que procuro fazer em minhas colunas é falar de matemática de forma amigável, contextualizada, e interessante. Por isso falo em mágicas, jogos, provas visuais, sempre de forma leve e bem humorada.
 
Você é físico, professor e pesquisador. Como essas três identidades aparecem, mesmo que discretamente, na forma de contar histórias matemáticas?
 
Acho que a identidade principal, que está por trás das três, é a de alguém curioso que aprecia um belo argumento, quase estético. Também aprecio o uso do humor, sempre que possível, acho que une as pessoas. Então, ao contar uma historinha matemática nas colunas, procuro partilhar esses três pilares.
 
O que os educadores podem ganhar ao levar “Qual é o problema? 2” para sala de aula como material complementar?
 
Uma maneira possível é usar o material como motivador, ou usar as colunas como complemento para o que se está estudando. Há uma coluna sobre pesquisas eleitorais e contagem de peixes, que pode ser transformada em uma atividade em sala, de contagem de grãos. Esse tipo de coisa ajuda os estudantes a se envolverem mais com a matemática e se tornarem mais fluentes nessa linguagem.
 
 
Se pudesse escolher uma reação ideal do leitor ao finalizar o livro, qual seria? Algo além do “que legal!”, que o senhor menciona no release?
 
Quando sai o próximo volume! Hehe, acho que a reação além de achar legal é a de que os leitores busquem mais, temos uma quantidade enorme de material de matemática disponível gratuitamente na internet.

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