Entrevista: mulato, cantor e compositor paulista
1. Criatura soa como um trabalho profundamente pessoal. De que forma o mergulho na sua primeira infância e nas memórias de Jandira moldou a atmosfera do EP?
O disco se inspira muito nesse momento que eu tive de retornar de São Paulo pra Jandira. E voltar a ter contato com as coisas que eu tinha contato na infância fez com que eu buscasse chegar não no som de um disco ou um som profissional, ainda que seja equilibrado. Era mais o som que de como se fosse esse eco das minhas memórias. De certa forma, foi uma maneira de me apaziguar um pouco também e entender mais profundamente de onde eu vinha, ao invés de só continuar em frente, em frente…
2. O disco transita entre drones, hip hop, indie rock e elementos da música brasileira. Como você enxerga essa costura de sonoridades dentro do que chama de “psicodelia urbana e bucólica”?
Eu vivo num lugar relativamente alto, e aqui geralmente são dois graus mais frios do que em São Paulo, ainda que São Paulo fique a poucos quilômetros de Jandira. E acho que o som está entre esse lugar urbano, da metrópole, e essa coisa mais bucólica e orgânica dos morros, da periferia. Esse é o contraste que eu vivi a minha vida toda. A vivência metropolitana, a suposta defasagem, porque dizem e se comportam aqui como se fosse uma cidade dormitório, mas aqui é onde acontece uma mistura orgânica e que não é tão acelerada pelo ritmo de uma grande cidade, mas ao mesmo tempo está próxima de uma. Eu quis expressar um pouco dessa vivência que às vezes não é muito compreendida, por conta desse pensamento hegemônico de que se você vive em cidades menores, então logo você não tem as possibilidades e o valor de alguém de uma capital. Entre viver pessimamente numa grande cidade, com pouco espaço e tempo por uma promessa, e deixar florescer algo ainda que fora desse fervo todo, i choose me.
3. Você começou sua trajetória como Theuzitz, na cena lo-fi e “rock triste”. O que motivou a transformação para o nome mulato, e como essa mudança reflete um amadurecimento artístico e identitário?
Theuzitz era o meu user de rede social, pra jogar online e eu acho que expressava mais uma coisa imatura pra mim. Vários outros artistas que tiveram a mesma origem com o nome, mas eu sinto que o mulato tem muito mais a ver com o tipo de música que eu quero desenvolver e que eu buscava no fundo desde sempre, me conectar mais a música brasileira, desenvolver uma noção mais profunda de território.
4. Ao assumir a produção, composição e gravação de praticamente tudo, o processo se torna mais íntimo e solitário. Como você equilibra a liberdade criativa com o desafio de ser o próprio produtor?
Eu não sei se eu tenho tanto problema em relação a isso. Eu acho que o que existe às vezes é a falta talvez de artistas que consigam equilibrar essas coisas né? Talvez pelo fato do Brasil ser um país que traz muita dificuldade pra se ter acesso aos equipamentos e fazer música, muita gente não consegue expressar geralmente o que quer e busca algum produtor pra isso. Eu amo produzir, produzo outros artistas e pra mim tem muito a ver comigo entender melhor o que eu quero dizer, do que outra coisa. Mas só fazendo muitas vezes pra entender isso também.
5. Em “Bizarro!!!” você traduz o caos urbano de São Paulo em som. Que paisagens ou ruídos da cidade mais te inspiram quando está compondo?
São Paulo eu sinto que é um grande túnel. A densidade do ar, das pessoas, do som, o concreto. Isso tudo tá não só na “Bizarro!!!”, mas acho que no disco todo. Talvez a “Bizarro!!!” seja a mais caótica, mas toda essa atmosfera vai se apresentando de outras formas ao longo do EP. A paísagem humana que São Paulo carrega, as imigrações e a diversidade, isso tudo também está expresso nessas músicas.
6. “Tatuagem de Cobra” traz uma forte simbologia com o Ouroboros e fala de renascimento. Que tipo de transformação pessoal você viveu durante a criação dessa faixa?
Tatuagem de Cobra nasceu de um momento em que eu buscava essas respostas sobre como eu poderia existir dentro de um lugar tão opressivo e maximalista como São Paulo, no meio das artes, e em qual seria a minha verdade, algo mais maduro que eu carregava. Quando eu falo sobre “toco o céu como o Tupac / e regresso cada vez mais verdadeiro”, é uma alusão a um olhar mais brasileiro sobre as coisas. O Tupac é o Tupac e eu tenho uma identificação óbvia por ele, são visões diferentes sobre outras realidades, e essa canção busca esses. O EP num geral expressa muito desse impulso.
7. “Desenho Cego” mistura jazz, bossa nova e soul em uma leitura contemporânea da negritude. Você acredita que a música pode ser também uma forma de ressignificar identidades negras dentro da cena alternativa?
Eu adoraria que mais pessoas negras ouvissem as minhas músicas e me reconhecessem num contexto mais amplo do que o “Indie”. Acho que pelos shows de rock serem ambientes com grande maioria de pessoas brancas, as pessoas negras também não se sentem confortáveis de frequentar. Ao mesmo tempo, a minha música é muito preta e eu já faço músicas com essas influências desde que eu tinha vinte anos, mas existe essa barreira. Só que ainda que não seja um resultado imediato, também há um legado em construir e
fomentar essa memória negra, coisa que nem sempre a gente têm a condição de apresentar isso pro mundo de maneira mais ampla.
8. “Azaleia” trata da hiperconexão e do tédio digital — um tema bem atual. Como você lida, pessoalmente, com as redes sociais e essa necessidade constante de presença online?
Os desenvolvedores dos algoritmos são os grandes vilões disso tudo. Aparecem muitas reflexões a respeito da mudança de comportamento das pessoas e sobre as “novas tendências”, e eu vejo todo mundo falando como se fosse algo muito normal, natural, mas não é. A internet exige uma linguagem que é performática pra gerar o alcance e o engajamento, e o ser humano não precisava ser assim, porém, o Zohran Mamdani foi eleito prefeito de Nova York basicamente através das redes sociais e sendo uma pessoa muito mais à esquerda do que normalmente os democratas aceitariam. Então eu acho que existe espaço pra uma linguagem que pode ser desenvolvida, só que sustentar essa perfeição numa vida tão instável quanto a de um músico, eu não sei se é um lugar que é possível e até que condiga com a verdade artísitica de cada um. Já fui mais distante, mas hoje eu tento enxergar e lidar com o que é possível.
9. A faixa-título “Criatura” é quase uma jornada espiritual, marcada por dor, sobrevivência e renascimento. Como foi o processo emocional de compor uma música tão longa e simbólica?
Criatura é uma música que existe há muito tempo, e talvez por isso ela seja tão longa, eu escrevi ela com dezenove anos. Essa composição que nasceu de várias histórias na minha vida e fala sobre a forma em como eu lidava com a violência, como eu sonhava com a violência, que era um efeito direto do contexto de racismo e de exposição mais latente na minha infância e adolescência em Jandira, na periferia dos anos 2000. Foi um processo intenso de se escrever e ainda mais de se tocar ao vivo… nem sempre é a mensagem mais agradável que as pessoas esperam ou querem ouvir, mas é uma mensagem que 10 anos depois de eu ter escrito, ainda se mantém atual, então tem a sua importância.
10. O encerramento com “Punks”, ao lado de Hugo Noguchi, cria um diálogo entre diferentes experiências de deslocamento e diáspora. Como surgiu essa parceria e o que ela representa no contexto do disco?
Ela é o epílogo do disco. Ainda que a criatura tenha sobrevivido, qual é o saldo disso tudo? Que ambiente é esse, qual é o lugar que a gente foi parar? Essa música canaliza também as misturas que permeiam: o futuro e o passado, ou a tecnologia e o arcaísmo, Ásia e África na parceria com o noguchi, o sample e o orgânico, os gêneros musicais. As composições desse EP podem ter uma premissa intimista das minhas memórias, mas também é uma viagem por eras e épocas partindo de uma visão afrobrasileira / afrofuturista, ainda que não
seja a ideia mais otimista, bonita, comercialmente aceita, bem vista. A conclusão com “Punks”, é onde toda a coesão se materializa, pra mim.
11. Visualmente, o projeto também tem uma identidade marcante. Como foi o diálogo com Myrella Amorim e Nando Eryc para traduzir visualmente o universo de Criatura?
Foi tranquilo de fazer, eu gosto muito do trabalho deles, e a estética de cada um foi o que fez com que eu fosse atrás deles pra fazer esse trabalho. Eu também sou artista visual e gosto de colaborar, coordenar e orientar projetos e não estar no controle, criando e produzindo tudo é muito bom e mais leve. Em termos de imagem, essa mistura do natural com o sintético, a psicodelia, a nostalgia, acho que eles conseguiram agregar muito e fazer o projeto do disco se desenvolver de uma forma mais bonita e ampliada.
12. Para encerrar: olhando para trás, desde os tempos de Theuzitz até Criatura, qual você diria que é o fio condutor da sua trajetória como artista? E o que vem pela frente?
Eu sempre fui sincero. Pro bem ou pro mal, eu acho que é esse o fio. Fazer música no Brasil, se você não vem de determinados contextos, é muito mais difícil e muito mais exaustivo, mas a gente vive num país que tem muitas histórias e que precisam ser ditas e expressas, e a vontade de demonstrar isso, ainda que não só necessariamente com letra, mas com música, é o que me trouxe até aqui, e é o que me mantém positivo pra continuar fazendo. Pela frente, vão vir os shows de lançamento, vou fazer uma turnê com esse disco em 2026, fazer mais vídeos, remixes, fazer mais música também. Trabalhando e torcendo pra que seja um ano bom pra gente.
