Entrevista: Giu Domingues, escritora
1. “Bala no Alvo, Dente de Leão” mistura faroeste, fantasia e romance. Em que momento você percebeu que esse “faroeste fantástico” dialogaria tão bem com o imaginário das novelas brasileiras?
A novela é pra mim um lugar de imaginário exacerbado. Você tem o bem e o mal em eterna dicotomia, a mocinha que é perfeita contra a vilã maquiavélica; você tem tramas de gravidez falsa e gêmeos separados no nascimento e herdeiras escondidas; enfim, é um espaço de muita fantasia mesmo que a gente não necessariamente entenda como fantasia. E isso pra mim sempre foi muito claro, desde que eu consumia essas novelas quando jovem. Por isso foi tão fácil encontrar essa intersecção.
2. As novelas sempre foram uma forte referência cultural no Brasil. Quais elementos desse universo você fez questão de transportar para a narrativa literária?
Além dos nomes dos capítulos do livro serem nomes de novela, eu me esforcei para trazer elementos novelescos na trama: uma briga entre famílias rivais, que evoca novelas como Rei do Gado e Terra Nostra; vilões maquiavélicos e divertidos de ler, como a Carminha; amores proibidos e impossíveis, como em Da Cor do Pecado… Não só isso, mas me esforcei pra colocar vários núcleos diferentes contando histórias que se sobrepõe e muito drama, romance e comédia.
3. Albuquerque é um lugar onde não existe neutralidade: ou se é Berrante ou Falcão. O que esse conflito familiar representa simbolicamente dentro da história?
Esse conflito é o coração da história e ele representa modos distintos de ver o mundo; como eles podem ser conflituosos mas como podem, também, se entrelaçar.
4. Doralice e Marieta desafiam destinos impostos antes mesmo de nascerem. Como foi construir personagens femininas que enfrentam não só rivais, mas sistemas inteiros?
Eu amo escrever personagens femininas complexas, e com esse livro não foi diferente! Acho que o fato de elas estarem lutando contra toda uma cidade foi muito legal por me dar oportunidades de adicionar drama dentro do relacionamento delas.
5. O disfarce de Doralice como Dente de Leão traz questões de identidade e sobrevivência. O que essa escolha narrativa diz sobre invisibilidade e resistência feminina?
Não sei se eu quis falar alguma coisa específica sobre invisibilidade feminina, até porque a história é completamente repleta de personagens mulheres fortes e interessantes. Acho que a Doralice em si é uma mulher que sabe quem é, mas tem medo de viver essa identidade de maneira plena, e essa é a jornada que ela atravessa na história.
6. Marieta, a Bala no Alvo, carrega o peso da responsabilidade familiar. Como você equilibrou força, vulnerabilidade e desejo na construção da personagem?
Nesse caso, eu equilibrei não equilibrando – a Marieta é tudo isso e mais. Ela encapsula o que eu queria que uma mocinha de novela fosse, o que as melhores mocinhas de novela são: cheias de contradições, desejos e forças.
7. A fantasia sáfica ainda ocupa um espaço relativamente pequeno no mercado editorial brasileiro. Você sente que esse cenário está mudando?
Infelizmente, sinto que ainda temos um longo caminho a trilhar. Em 2025 tivemos pouquíssimos romances sáficos publicados tradicionalmente; em 2026 também estamos indo por esse caminho. Precisamos de editoras que apostem de verdade em nossas histórias, e precisamos de leitoras que nos procurem.
8. A frase “em uma terra onde pólvora se mistura com feitiço, a mira mais certeira é a do coração” resume bem o livro. O amor, para você, é sempre um ato de coragem?
Sim, sempre.
9. Seus livros costumam abordar mulheres imperfeitas e emocionalmente complexas. O que mais te interessa explorar nessas imperfeições?
Perfeição costuma ser muito chato – nenhum leitor quer ler sobre pessoas que chegam prontas, porque o ser humano não é assim. É muito mais interessante ler sobre protagonistas complexos, e esses protagonistas tem que ter defeitos e inconsistências – só assim a gente se enxerga neles.
10. Prestes a alcançar a marca de 100 mil livros vendidos, como você enxerga sua trajetória até aqui e o crescimento do seu público leitor?
Sou muito consciente dos meus privilégios, que me ajudaram a alcançar tudo que alcancei, além de todo o trabalho feito antes de mim por outras escritoras sáficas para pavimentar esse caminho. E ainda assim, foi e tem sido um trabalho muito duro e diário, de escrever essas histórias e me conectar com leitores diariamente. Sou muito grata por todo mundo que me ajuda, que lê meus livros e que os recomenda – é só por causa das minhas leitoras que eu cheguei onde cheguei.
11. A fantasia, como você mesma diz, tem o poder de contar verdades sobre o mundo real. Que verdades você espera que o leitor leve consigo após fechar este livro?
Principalmente, que o poder de ser quem a gente é é mais poderoso do que qualquer maldição.
12. Para quem ainda não conhece sua obra, por que “Bala no Alvo, Dente de Leão” é uma porta de entrada especial para o universo da Giu Domingues?
Esse livro é especial por sua mistura essencialmente brasileira de tudo que faz uma história ser mágica. Ele é leve, engraçado e romântico; tudo que eu mais amo nas minhas histórias!
Desculpe a demora…
