Entrevista: Lili Novais, cantora e compositora
1. Como surgiu a ideia de criar o EP “Caminhos” e qual foi a principal inspiração para
este projeto?
“O EP ‘Caminhos’ surge a partir de um compilado de músicas que já tinha guardado e da vontade de lançar algo novo. Ao revisitá-las, percebi que havia uma conexão entre elas, todas falavam de emoções e processos internos diferentes, mas que, de alguma forma, se complementam. A principal inspiração foi o cotidiano: viver, observar e transformar essas experiências em canções”.
2. Você mencionou que o EP é uma experiência de meditação e introspecção. Como foi o processo de organizar as quatro faixas nessa sequência específica?
“Ao revisitar essas canções, notei que todas se encontram dentro de uma mesma identidade: as emoções. E, a todo tempo, precisamos lidar com elas, assim como no processo meditativo, com diversos caminhos possíveis. Escolhi ‘Bom Dia’ como a primeira faixa porque é uma saudação à vida, uma abertura às possibilidades e à intuição. Para meditar, é necessário, antes de tudo, estar aberto a tentar, a se desafiar e a se envolver consigo mesmo. Penso que, na meditação, essa é a postura inicial necessária. Em seguida vem ‘Melífluo’, que fala sobre a saudade, e me faz lembrar dos desvios de atenção que acontecem durante a meditação. Logo após, temos ‘Deixa o Povo Achar’, que, em contraponto às redes sociais, que muitas vezes nos instigam à comparação e à preocupação com a opinião alheia, convida o ouvinte a relaxar: ’Ah… Deixa o povo achar…’. Essa faixa me faz pensar no desprendimento que precisamos ter ao meditar, pois, ao nos distrairmos com pensamentos e emoções, como a saudade, podemos acabar fechados à ideia de não conseguir avançar nesse caminho meditativo. É preciso exercitar esse desprendimento interno, e acredito que isso também nos ajuda a nos libertar do que o outro pensa. Para concluir, ‘Sede’ fala sobre o desejo de viver uma vida plena e presente no agora. Meditar e se autoconhecer é quase um vício, quando começamos e paramos, sentimos falta. É uma sede eterna”.
3. Como foi trabalhar com a produção de Isadora Melo e a coprodução de Rafael
Marques? Que contribuições eles trouxeram para o projeto?
“Uma experiência leve e muito prática. Gravamos tudo em apenas três dias. Ambos são grandes profissionais e tiveram um cuidado enorme em ouvir o que eu desejava para o EP. Superaram as minhas expectativas porque trouxeram harmonias bem pensadas e contribuíram com referências musicais que ampliaram as possibilidades sonoras do EP. No caso do coral, a proposta veio de Isadora (Melo), e acabou se tornando uma das marcas da obra musical”.
4. O EP reúne músicos pernambucanos em diversos instrumentos. Qual a importância de ter essa equipe para a sonoridade de “Caminhos”?
“Antes de tudo, são referências para mim, além de pessoas próximas. Algumas me conhecem mais de perto e já temos uma conexão, o que facilita o processo. Cada musicista trouxe sua própria identidade e teve liberdade para expressá-la, fortalecendo ainda mais a sonoridade do EP”.
5. Você traz reflexões sobre desprendimento e coragem em suas canções. Como essas temáticas dialogam com sua trajetória pessoal e artística?
“Dialogam diretamente. Parafraseando Conceição Evaristo: ‘A escrita e o canto são meu lugar de liberdade’. O que escrevo é fruto das minhas vivências. Em ambas as trajetórias, a coragem precisa ser um alimento diário, para não viver uma vida morna e para manter o sonho da música de pé. Acredito que viver em paz exige desprendimento e coragem”.
6. A capa e a identidade visual são assinadas por Cecília Távora, com fotografias de
Carlos Tenório. Como esses elementos visuais dialogam com a música?
“Na capa, estou de perfil, caminhando, o que faz conexão direta com o nome do EP. Além disso, tem uma ampulheta na fotografia, sendo um símbolo do tempo. Não apenas do tempo que passa, mas também do tempo como lembrança e impulso para aproveitar melhor os próprios caminhos”.
7. Quais foram os principais desafios que você enfrentou na concepção e gravação do EP?
“O principal desafio foi conseguir o fomento (risos) e conciliar as agendas. Fora isso, todo o processo fluiu muito bem”.
8. O EP é financiado pelo edital Aldir Blanc e por órgãos de Pernambuco. Que papel
esses incentivos têm na produção da sua música e da cena autoral local?
“As políticas públicas culturais são fundamentais. Tudo o que gravei até agora foi viabilizado pela PNAB. Eu não teria condições de produzir sem o fomento público. Para a cena autoral, tanto local quanto nacionalmente, esses incentivos têm o papel de alimentar a sociedade: alimentam artistas e produções independentes, possibilitando a criação e a preservação da arte e da cultura; e alimentam a população no geral, já que todo projeto deve ter contrapartida, garantindo acesso e participação”.
9.Como você vê a evolução da sua carreira solo desde o primeiro EP “Meu Canto no
Mundo” até “Caminhos”?
“Pode parecer clichê, mas acredito que cada coisa tem seu tempo. Vejo que é preciso viver
cada passo, sem querer apressar os processos. Entre o lançamento dos dois EPs, percebo que hoje tenho uma compreensão mais ampla de todas as etapas, desde o planejamento do projeto até a pós-produção. Atualmente, não tenho produção fixa, então tenho aprendido bastante nesse caminho. Hoje, sinto que estou mais madura e consciente do que quero comunicar”.
10. O show de lançamento no Sesc Garanhuns terá a banda completa no palco. Como
você pretende traduzir a intimidade e a reflexão do EP em performance ao vivo?
“Embora nem todas as pessoas envolvidas com a gravação estiveram no palco, foi importante estar acompanhada pela banda completa. Quanto à performance, acredito que o público fez sua própria tradução. Me expressei com a voz e com o corpo, trazendo diferentes movimentos para o palco”.
11. Há alguma faixa do EP que você considera mais representativa da mensagem do
projeto? Se sim, qual e por quê?
“A faixa ‘Sede’ é a que mais traduz essa necessidade de saborear o tempo, o
aqui e o agora. Entre os muitos caminhos possíveis, ela nos lembra que não queremos que a vida passe em um gole d’água. Pelo menos, eu não quero”.
12. Quais são os próximos passos na sua carreira e projetos futuros após o lançamento de “Caminhos”?
“Pretendo circular com o show ‘Meu Canto no Mundo’, que reúne todas as músicas lançadas até aqui, em especial as canções do EP ‘Caminhos’. Além disso, quero estudar, me especializar e continuar fazendo lançamentos. Espero que os caminhos se abram (risos)”.
