Entrevista: Serenno, cantor e compositor

Entrevista: Serenno, cantor e compositor

Corda ~ Bamba é seu primeiro EP. Como você definiria, em palavras suas, o espírito central desse trabalho?

O centro tonal do projeto é sobre a importância de mantermos viva a memória dos grandes nomes da musica popular brasileira.

Gosto de tratar o samba como uma força,  “entidade” que perpassa e se perpetua através do tempo atravessando gerações inteiras, sem nunca perder sua beleza e imponência. Aquela tal “força maior que nos guia”, está sempre no ar, levando através do tempo e da palavra sua história.

O projeto nasce como uma reverência ao samba e às raízes da música brasileira. Quais nomes e referências te atravessaram diretamente nesse processo?

Sem dúvidas, por estar diretamente ligada à linguagem do samba, o projeto traz como referências Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Beth Carvalho, Cartola, Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz, Leci Brandão, Alcione, Batatinha, Douglas Germano, entre outros.

O EP dialoga com a ancestralidade e com a importância de “abrir caminhos”. Que caminhos você sente que agora também passa a abrir?

Creio que os caminhos que tenho dimensão para abrir no momento sejam os olhos dos ouvintes, para aqueles que se façam atentos a ouvir a canção com carinho. A partir das citações que faço durante o projeto, deixo minha contribuição para aqueles que queiram pesquisar e estar mais próximos da obra desses artistas.

Como foi reunir uma equipe tão forte — Daniel Silva, Artur Pádua, Brenda Nayra e tantos músicos capixabas — para criar a estética e a identidade sonora do projeto?

Foi uma honra e um privilégio enorme reunir pessoas potentes e sensíveis para desenvolver o projeto. Poder criar e ao mesmo tempo absorver tanto conhecimento é algo muito poderoso, que vai ficar registrado em mim para sempre.

Para você, qual é a maior potência de produzir samba no Espírito Santo, um estado muitas vezes fora do eixo nacional de visibilidade?

Creio que a própria falta de visibilidade nos denota um frescor na canção, algo que não se encontra nos espaços mais “saturados” do mercado. Quando a música chega nos polos maiores, e é boa, naturalmente a sensação de um “novo ainda não descoberto” traz curiosidade e a sensação de inovação

O projeto inclui, além do EP, um livro de poesias e um vídeo manifesto. O que te motivou a expandir o trabalho para outras linguagens?

Me motivou o fato de querer comunicar de forma mais abrangente, todo o conceito e estética que foi desenvolvido durante o processo de pré produção. Um tema tão sensível e importante como esse, merece ser visto por outros ângulos, somando a si mais camadas e possibilidades de entendimento.

O vídeo manifesto foi gravado na Grande Vitória. De que forma o território capixaba molda seu trabalho e sua visão artística?

Sinto que sou moldado pela cadência de nosso tempo, e o contato constante com a natureza. Vitória, por ser uma ilha, nos proporciona estar em contato com o mar de forma muito especial, trazendo um frescor diferente para nossa canção.

Em relação a visão artística, o fato de estarmos fora do eixo Rio -São Paulo me proporciona um olhar diferente, focando mais na importância de reconhecer quem nos influenciou como artistas, e menos na vontade de reinventar a roda.

Como compositor, em que momento você percebeu que essas músicas tinham algo em comum e precisavam existir juntas como um EP?

Fui perceber quando terminei de compor “Samba que vem”, a canção mais recente das que estão no projeto. Ali tive a clareza que estava diante de um bom motivo, uma causa nobre que merecia ser cristalizada no tempo em forma de EP.

O “Corda ~ Bamba” nasce com uma temática forte sobre equilíbrio, movimento, instabilidade e coragem. Em que aspectos da sua vida esse conceito te atravessa?

Hoje, de uma forma muito forte me atravessa no fato de ter iniciado na composição e violão há poucos mais de 5 anos, tempo relativamente curto em relação a outros artistas, o que me faz ter certas inseguranças em alguns momentos. Outro ponto, foi o processo de depressão que enfrentei durante o período que comecei a compor, me levando a buscar um caminho de autocuidado e equilíbrio que antes não me atentava.

O processo de gravação reuniu instrumentos e músicos com timbres muito específicos. Alguma faixa teve um desafio técnico ou emocional maior?

Em termos técnicos, a faixa “Samba que vem” nos trouxe o desafio de gravar em outro estúdio, que tivesse espaço para bateria. Já em  termos emocionais, sinto que “Corda~Bamba” foi a mais desafiadora, exatamente por falar sobre processos que ainda são sensíveis para mim.

Você vê esse trabalho como uma espécie de manifesto sobre identidade cultural? Qual mensagem espera que o público leve consigo ao ouvir o EP?

Sim, perfeito!

Ficarei feliz se puder contribuir com um pouco mais de consciência para a importância de manter cada vez mais forte e viva a memória da música popular brasileira.

Após esse lançamento, o que você enxerga como próxima etapa da sua caminhada — mais música, novos formatos, shows, continuidade do manifesto?

O momento agora é de trabalhar com afinco essa nova etapa de Corda~Bamba, para que o projeto chegue cada vez mais longe. Me vejo tocando em casas como o Sesc, e fazendo mais shows com banda. E sim, para o próximo ano pretendo trabalhar com singles.

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