Entrevista: Banda Chá da Tarde

Entrevista: Banda Chá da Tarde

O título do EP afirma que “a vida disse que é possível”. Em que momento essa frase deixou de ser verso e virou posicionamento de vida e de arte?

Nós, enquanto artistas independentes e periféricos, precisamos nos reafirmar constantemente no cenário cultural, na indústria e no mercado, lembrando sempre que é possível vencer na vida mesmo diante de tantos impedimentos.
Para nós, foi crucial acreditar que era possível lançar um EP de forma totalmente independente, indo na contramão do mercado e do que se espera de uma banda majoritariamente preta, e fazer disso a nossa verdade, o nosso momento.
Assumimos uma estética e uma postura totalmente fiéis às nossas vontades, anseios e sonhos, projetando aquilo em que sempre acreditamos: a construção coletiva de obras que toquem, sensibilizem, sejam compreendidas e façam parte de um momento político e histórico.
Se mostrar vulnerável é extremamente louvável nos dias de hoje.
Acreditar que é possível construir o próprio destino, mesmo com todos os marcadores sociais.


As músicas partem de vivências pretas e periféricas da zona leste de São Paulo. Como o território atravessa não só as letras, mas a forma de fazer música da Chá da Tarde?

Deixamos o território e nossas vivências em evidência, principalmente a partir do sentimento de trabalhadores do cotidiano periférico, que ainda vivem com dúvidas em relação ao próprio sucesso profissional, com medo da perda, de se verem sozinhos muitas vezes sem alternativas. Pessoas que lutam para ser compreendidas, para não serem taxadas como agressivas ou egoístas.
Deixamos esses medos e dúvidas tomarem conta do nosso corpo para compor e tocar.
Somos jovens adultos periféricos, na casa dos 27 anos, atravessados por incertezas e enfrentando diariamente a realidade de ser artista e estar na periferia, equilibrando escolhas como pagar uma conta ou ter mistura para comer em casa, e ainda assim criar, produzir, tocar, ser visto e ser lembrado.
Nossa pesquisa sempre partiu de quem somos e de onde viemos. Isso sempre falou mais alto. Queremos chegar a todos os lugares carregando conosco quem somos e tudo o que nos formou dessa maneira.
Não existe artista sem cultura. Cultura é o que herdamos das crenças, costumes e hábitos do cotidiano de uma sociedade e, no nosso caso, da comunidade que nos formou.


O trabalho fala de afeto, vulnerabilidade e amadurecimento masculino. Ainda é um gesto político homens pretos se mostrarem sensíveis na música?

Assim como Djavan, Milton Nascimento e Gilberto Gil, queremos ver homens pretos que sentem, que se expressam, que choram, que se abraçam, que se beijam, que se respeitam e coexistem sem a lógica da competição excessiva.
Ser vulnerável não é demonstrar fraqueza, mas reconhecer que você precisa do outro, que não é autossuficiente, que está suscetível a ser ferido, afetado e transformado.
Afeto é um sentimento profundo de afeição, carinho e empatia. É se permitir ser tocado pela nossa música.
Buscamos fugir dos estereótipos reforçados de sensualidade, violência e pobreza e construir existências mais plurais e reais, que não aprisionem a liberdade de ser quem realmente somos.
Reconhecer erros e falhas e saber lidar consigo mesmo é um dos maiores atos políticos.
Somos complexos, com particularidades, medos e traumas que nos acompanham no dia a dia, em uma sociedade que nos endurece. Isso precisa ser visto e discutido. Não somos fortes o tempo inteiro.


O EP nasceu de um processo profundamente coletivo dentro do projeto CHAPASOM. O que esse método de criação em grupo ensinou sobre escuta e convivência?

Juntos somos mais fortes. O processo coletivo nos mostrou que, ao somar nossas potências, conseguimos criar algo mais profundo, sólido e impactante. Apesar dos conflitos de convivência, sempre conseguimos trabalhar e soar juntos de forma natural.
Nós, para além de banda, somos um coletivo. Vivemos juntos para além da relação profissional, com amizades de anos, que também enfrentam dificuldades como qualquer relação social. Aprendemos que é possível conviver com as diferenças e com as mudanças de fase, entendendo que haverá períodos mais introspectivos, mas que fazemos parte de um todo maior do que nós.
Esse EP foi construído com muito cuidado para que todos pudessem se escutar, nas letras, nas melodias e em cada detalhe, buscando também ser compreendidos na sociedade.


Duas faixas surgiram de improvisos. Como vocês reconhecem o momento em que uma ideia deixa de ser fragmento e vira música?

O improviso faz parte do nosso cotidiano. Quando uma melodia ou uma frase nos afeta, nos toca e sentimos vontade de repetir, de reverberar, de ouvir e sentir aquilo novamente, é o momento de parar e começar a estruturar esses fragmentos.
A música precisa tocar e atravessar as pessoas, arrepiar, dar frio na barriga, vontade de chorar, gritar ou trazer esperança de viver algo. Quando o improviso gera sensações assim, fazemos o exercício de transformar esse momento em algo que, sempre que ouvido, transmita a mesma sensação.


A escolha por uma sonoridade mais orgânica, com poucos elementos digitais, parece ir na contramão de tendências atuais. Essa simplicidade é também uma forma de resistência?

Para nós, foi uma forma de mostrar a nossa essência, aquilo que já fazemos e como tocamos com esses elementos. Queríamos mostrar que somos mais do que uma banda de bairro, com um trabalho sólido e coeso, que não se movimenta a partir de tendências ou do que os meios digitais ditam.
Queremos que as pessoas conheçam a Chá da Tarde pela integridade do que mostramos enquanto artistas. Sabemos o quanto evoluímos tecnologicamente e os recursos que poderíamos usar a nosso favor, mas optamos por dosar isso para que a potência real da banda e do que somos capazes fosse percebida com veracidade.


Em comparação a trabalhos anteriores, este EP soa mais introspectivo. O que mudou na banda — e em cada integrante — para que esse disco existisse?

Crescemos, amadurecemos e vivenciamos trajetórias que nos fizeram olhar para nossas demandas com mais cuidado.
Queríamos retratar algo mais visceral, explorando outros sentimentos e referências da banda, revelando uma outra personalidade. Ser uma banda de MPB com um leque maior de possibilidades, sem cair em estereótipos de bandas focadas apenas em canções românticas.


Luedji Luna aparece como referência importante. O que em Um Mar Pra Cada Um dialoga diretamente com o espírito desse EP?

Luedji Luna faz parte do repertório da banda. Gostamos muito de tocar e ouvir suas músicas no cotidiano. Antes mesmo do processo de criação do EP, estávamos estudando faixas dela para um tributo, especialmente do álbum Bom Mesmo É Estar Debaixo d’Água.
Fomos surpreendidos por Um Mar Pra Cada Um, que inundou completamente nossas existências. Conseguimos ouvir cada frase instrumental, letras densas, profundas e sagazes, arranjos ousados e sofisticados, com uma estética simples e embrionária, cheia de possibilidades imagéticas. Isso nos inspirou a pensar música para além do comercial, música que retrata sensações humanas da nossa contemporaneidade, com mensagens globais, que nos façam sentir parte de um todo, de uma natureza viva.
Tivemos a oportunidade de vivenciar o show de estreia dessa nova era aqui em São Paulo e ficamos deslumbrados com Luedji e sua banda, que proporcionaram uma experiência sonora incrível.
Um Mar Pra Cada Um fala da imensidade de cada ser, e A Vida Disse Que É Possível também trata disso: de acreditar em nós mesmos e nos aprofundarmos em quem somos e no que podemos ser.


O projeto audiovisual gravado ao vivo reforça a ideia de verdade e presença. O palco ainda é o lugar onde a Chá da Tarde se sente mais inteira?

Sempre gostamos de estar no palco. Alguns integrantes tiveram vivências para além da música, com teatro e dança, e o palco é uma forma de nos sentirmos vivos, em ação, recebendo o retorno real de como chegamos nas pessoas.
Sentir a música soar, suar, perceber todos os músculos ativos e como cada nota e frase reverbera é uma sensação única, que queremos viver sempre.
Nos divertimos muito no show, e sentimos que o público percebe e entra nessa viagem com a gente. Mesmo com músicas mais introspectivas, conseguimos nos expressar e trazer o público para perto.
Os visuais precisavam mostrar o conjunto que somos, a obra que criamos, com identidade, cor, personalidade e entrega.
É importante para nós que as pessoas reconheçam cada integrante, que sejam fãs do baterista, do baixista e do guitarrista.


A capa do EP evoca nostalgia, coletividade e visibilidade. Por que era importante que todos os integrantes aparecessem juntos nessa imagem?

Desde o início, o trabalho foi idealizado de forma coletiva. Queríamos que todos fossem protagonistas de suas próprias histórias.
A ideia da foto com todos os integrantes em um fundo infinito branco, com efeitos de luz, faz referência a bandas dos anos 80, 90, 2000 e até 2010, quando era comum os grupos aparecerem juntos nas fotografias para divulgação.
Também queríamos resgatar o rock nacional com um visual atual, um preto nada básico, com estilos, cortes e texturas diferentes para cada figurino.


Produzir de forma independente, a partir do próprio CEP, ainda é um desafio grande. O que significa conquistar autonomia artística nesse contexto?

Enquanto os convites das grandes gravadoras não chegam, seguimos fazendo música de forma independente, mostrando que temos qualidade e estrutura para nos manter ativos no cenário musical.
Para nós, é fundamental valorizar a produção musical de quebrada, utilizando espaços que fazem parte da nossa construção e do nosso cotidiano. Música com CEP, com identidade, que valoriza nossa cultura e respeita nosso processo.


Quando alguém termina de ouvir “A Vida Disse Que É Possível”, que sentimento ou reflexão vocês gostariam que permanecesse?

Que é possível, apesar da dúvida, do medo e da insegurança, viver e ser quem você é.
Que o amor-próprio pode te mover e que está tudo bem mostrar fragilidade e sentir com intensidade.

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