Entrevista: Jeanine Geraldo, escritora e professora de literatura
- “Retratos de Mulher” parte da pergunta “o que significa ser mulher?”. Em que momento essa inquietação deixou de ser apenas pessoal e se transformou em projeto literário?
Acho que não existe necessariamente uma fronteira entre o que é uma “inquietação apenas pessoal” e um projeto literário, porque, a meu ver, as duas coisas andam juntas. Eu vinha pesquisando e lendo sobre feminismo, algo que sempre tinha me interessado, e a ideia do livro de contos surgiu depois que publiquei “Alcateia”, um livro de poesias que também está centrado nesse tema, embora traga uma elaboração bastante diferente.
- Seus contos abordam violências que muitas vezes não têm nome. A literatura, para você, funciona como denúncia, elaboração ou enfrentamento dessas experiências?
Acredito que a literatura opera nesses três níveis. Denuncia, ao expor e nomear essas violências através da narrativa; elabora, na medida em que a leitora/ o leitor vai viver aquela experiência, dando corpo para os sentimentos das personagens; e enfrenta, porque é difícil passar incólume pela experiência de leitura.
- No conto “A enforcada”, o terror não está no sobrenatural, mas na realidade. O horror cotidiano é mais perturbador do que o fantástico?
Com certeza. Diferentemente do fantástico, a gente não consegue escapar do real. O terror do real assusta justamente por isso: porque sabemos que aquilo pode acontecer a qualquer momento. Pior: está acontecendo em algum lugar.
- Narrar um abuso infantil a partir do olhar de uma criança impõe desafios éticos e literários. Como foi construir essa voz sem recorrer ao choque gratuito?
A construção do conto não foi exatamente planejada, ou seja, eu não pensei: vou escrever sobre abuso infantil a partir do olhar da criança. A escrita d’A Enforcada surgiu da junção de uma história que me contaram sobre uma mulher que teria se enforcado no galpão de uma fábrica de cosméticos e da memória que eu tenho da primeira casa em que eu morei quando criança. A partir disso, a história foi se fazendo enquanto eu escrevia. Descobri que a menina seria abusada pelo tio só lá pelo meio do conto, possivelmente afetada por leituras e notícias que acessei na época. Depois que eu tinha a primeira versão é que fui analisar o conto como um todo. É verdade que existe um desafio ético aí, para não recair na violência gratuita. Por outro lado, não posso deixar de citar a Jarid Arraes num texto que ela publicou no seu Substack e que me fez pensar justamente nesse conto: “O choque da violência é o ato máximo de humanização, pois aquele que não se sente modificado pela violência falha na mais básica prova de qualidade humana.”
- Em “Lençóis Manchados de Vinho”, a maternidade aparece despida de idealizações. Ainda existe resistência do público quando a literatura rompe com a imagem sacralizada da mãe?
Acho que o público já está mais acostumado com essa ideia. Várias autoras abordam o tema da maternidade assim, como Elena Ferrante, que foi minha principal inspiração para a escrita desse conto. Mas é claro que isso pode ser incômodo e vai variar de leitor a leitor.
- Você é doutora em Literatura e professora. De que forma a vivência acadêmica influencia — ou entra em conflito — com sua escrita de ficção?
Ser pesquisadora foi uma forma que eu encontrei para estudar a fundo a teoria e o texto literário, acreditando que isso me ajudaria a escrever ficção. De certa forma, ajuda mesmo. É um trabalho de exumação, de arqueologia quase. É olhar para o que está lá e prestar atenção aos detalhes, à maneira como o autor ou a autora constroem o narrador, os personagens, como produz determinado efeito, o que está dito através do não-dito. No entanto, não existe uma ponte entre a teoria e a prática. Em outras palavras, estudar como funciona o narrador em Saramago não necessariamente vai me ajudar a compor um narrador melhor, porque cada texto é um texto, cada autor é um autor. É como esperar que um educador físico seja, necessariamente, um atleta de alto desempenho.
Outro ponto a se considerar é que não é porque como pesquisadora sou capaz de olhar as estruturas de um texto que eu vá conseguir fazer isso com o meu próprio texto, afinal, um cirurgião não pode operar a si mesmo. Por isso, acho que é de extrema importância participar de oficinas e cursos de escrita. Passar o texto para leitores beta e, se possível, pagar uma leitura crítica também.
- O livro dialoga com o chamado “boom” da literatura feminina latino-americana ligada ao terror e ao insólito. Você se reconhece nesse movimento?
Eu nunca tinha pensado no que eu escrevo nestes termos e confesso que me incomodava não saber exatamente o que eu sou. Isso porque meu projeto literário não é pensado a partir de uma nomenclatura. Não me propus a escrever “Retratos de Mulher” com esse objetivo. No entanto, me faltava algo a que eu pudesse me agarrar, mas que não me prendesse. Eu precisava que me dissessem quem eu era, porque sozinha não conseguia me ver. Então fiquei feliz por terem feito esse paralelo, não só porque fez sentido para mim, mas porque nesse “boom” estão vários nomes que eu admiro.
- Alguns contos flertam com a metalinguagem e refletem sobre o próprio ato de narrar. O que a fascina nesse jogo entre história e consciência da escrita?
Eu gosto desse contato mais direto com o leitor e me parece que a metalinguagem é uma forma de aproximação. O tempo da leitura e o tempo da história se aproximam de tal forma que é como se as duas realidades, a ficcional e a nossa (de autor/leitor), se dobrassem sobre si mesmas e, por um momento (bastante breve, talvez), nós não soubéssemos se estamos no mundo real ou ficcional.
- O conto que encerra o livro apresenta uma mulher que é vítima e algoz. Essa ambiguidade é uma chave de leitura para compreender o feminino hoje?
Talvez seja uma delas. O feminino é tão complexo, tão atravessado por jogos de poder, assim como quaisquer outras identidades em jogo, que acredito que a ambiguidade vítima-algoz é apenas uma forma de olhar para isso. O que me incomoda é colocar qualquer identidade simplesmente como vítima, porque isso é uma forma de submeter e também de escamotear que mesmo aqueles que são vítimas podem também ser perpetradores de violência, podem, em alguma medida, operar a favor de um sistema que reproduz essas relações de poder. Por isso minha preocupação em construir personagens femininas que mostrassem essa ambiguidade.
- Você afirma que deseja que cada história seja uma oportunidade de olhar para dentro. O que espera que o leitor leve consigo após a leitura do livro?
Espero que leve perguntas, que colecione incertezas.
- “Retratos de Mulher” é seu primeiro livro pela editora Urutau. Como foi esse encontro editorial e o que ele representa neste momento da sua carreira?
Foi maravilhoso! Me inscrevi na chamada para lançamento na Bienal do Rio, no segundo semestre de 2024. O e-mail de boas-vindas veio em outubro. Eu queria muito entrar para uma editora que tivesse mais visibilidade, e que me proporcionasse experiências mais consistentes como autora. E foi assim com a Urutau. Ser publicada por eles representa que minha escrita amadureceu o suficiente para ser aceita por uma editora séria e criteriosa, por isso fiquei muito feliz por ter sido selecionada.
- Vivemos um momento de intensa produção literária feminina no Brasil. Que temas você acredita que ainda precisam ser mais explorados — ou revisitados — pelas escritoras contemporâneas?
Do que eu tenho lido, e esse pode ser um recorte enviesado pelas minhas escolhas, vejo muitas narrativas sobre maternidade, relacionamentos, família, especialmente a relação mãe e filha, violência doméstica, envelhecimento. Mas acredito que a produção literária feminina não se esgota aí, por isso acho difícil dizer que temas precisam ser mais explorados pelas escritoras.
