Entrevista: Alê Camargo, diretor da animação MUNDO PROIBIDO

Entrevista: Alê Camargo, diretor da animação MUNDO PROIBIDO

1. O personagem Fujiwara Manchester nasceu em um conto publicado nos anos 90. Como foi o processo de adaptá-lo para a série animada e, agora, para um longa-metragem?

R.; Na verdade o Fuji nasceu antes, mais ou menos em 1986. Foi nessa época que criei as primeiras histórias dele e de seu universo. Mas foi só em 1992 que ele foi publicado pela primeira vez, no fanzine
Somnium, do Clube de Lietores de Ficção Científica). Quando em 2013 surgiu a oportunidade de adaptar essas primeiras histórias primeiro como uma série para a TV, e depois com o longa, o processo foi
trabalhoso mas aconteceu naturalmente. Acho que as ideias já tinham passado tempo demais na minha gaveta.

2. Quais foram os maiores desafios ao transformar essa história em um filme?

R.: O maior desafio foi atualizar os personagens e situações, mas sem
perder o sentimento e o clima das primeiras histórias.

3. O conto original falava sobre um planeta com trens carnívoros. Como essa ideia evoluiu no filme?

R.: O conto inicial foi a primeira vez que brinquei com a ideia de trens carnívoros. Relendo o material hoje em dia, tem coisas que gosto, e outras nem tanto. Claro, faz muito tempo! Então quando começamos a trabalhar no longa, eu, Camila Carrossine e Walter Plitt Quintim nos reunimos e revisamos a ideia original quase inteiramente. Trabalhamos duro, na verdade, e muita coisa mudou. Mas o conceito em si ainda está lá, e foi o ponto de partida para a coisa toda.

4. Mundo Proibido começou a ser produzido em 2018 e passou por desafios, incluindo a pandemia. Como vocês superaram esses obstáculos?

R.: A produção do MP começou em 2018, e o plano original era terminarmos em 2020. Mas aí aconteceu março de 2020, e tudo mudou. Tivemos que desmontar o estúdio e mandar a equipe toda para suas
casas. Converter a produção para um modo online foi um grande desafio. Foi uma situação tipo “trocar as rodas com o carro em movimento”, mas conseguimos colocar a produção de volta no rumo certo, apesar disso ter adiado o término da produção. O filme terminou no final de 2021, um ano além do prazo previsto.

5. O filme tem um padrão de computação gráfica comparável ao de grandes estúdios internacionais. Como foi desenvolver uma animação 3D de alto nível no Brasil?

R.: Nós utilizamos nossos recursos de maneira racional, e tentamos ser criativos tecnicamente. Um dos fatores que nos ajudou foi que a produção foi pensada de forma mais estilizada visualmente. Os
cenários, por exemplo, são em sua maioria artes pintadas em vez de apenas cenários 3d. Os próprios personagens tem texturas claramente pintadas, e a iluminação e cores foram planejadas para que o filme tivesse um visual parecido com o que se costuma ver como artes conceituais. Outro fator que ajudou muito nos resultados da produção foi o fato que somos uma produção bastante pequena, e assim Eu e Camila tínhamos uma grande liberdade na aprovação de tudo. Mais de uma
vez cortamos problemas técnicos antes disso gerar grandes atrasos.

6. Como foi trabalhar com Andrew Probert e Alejandro Burdisio no design dos elementos do filme?

R.: Trabalhar com ambos foi uma grande experiência. Andy já tínha trabalhado conosco na produção da série de TV: entre outras coisas ele criou o design de Cara-de-cavalo, a nave de nossos herois. Na época
conseguimos trazê-lo para passar alguns dias aqui no Brasil, então tivemos a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. E foi incrível, já que ele é um dos maiores designers de filmes de ficção científica, e
um dos meus ídolos. Aprendi muito com ele, e com seu profissionalismo.

Trabalhar com Alejandro Burdísio também foi muito bom. Ele é extremamente profissional e muito talentoso. Suas ideias e conceitos foram uma grande inspiração para todos nós.

7. Qual foi a cena ou sequência mais desafiadora para animar?

R.: O filme teve diversas sequências complicadas, já que a história se passa em vários planetas e ambientes diferentes. Acho que uma das mais difíceis, conceitualmente, foi a caminhada de Fuji e Lydia entre os setores de Terratown (o bairro de imigrantes terranos no planeta Manjedouris). A gravidade do planeta é toda controlada artificialmente, então eles andam numa espécie de curva de quase 90
graus para baixo para chegar ao outro nível, como se a rua inteira encurvasse. É meio difícil de explicar o que acontece, mas espero que as pessoas percebam o efeito ao assisitirem o filme.

8. A trilha sonora é sempre um elemento essencial em animações. Como foi o processo de composição da trilha e sound design?

R.: Com certeza. Tivemos a participação do compositor Rodrigo Domingos na criação da trilha sonora original do filme. Ele já trabalhou conosco em outros projetos, como no curta “Os anjos do meio da
praça”(2010) e mesmo na série do Fuji. Seu trabalho é incrível, e no longa não foi diferente. Além disso, dessa vez temos algumas canções excelentes ao longo do filme, incluindo o tema de abertura, que é a
música “Marte” de Ruca Souza. O processo de sound design foi sensacional O responsável foi o Rogério
Marques, da Juke. Ele fez um trabalho minucioso de pesquisa e desenvolvimento de efeitos sonoros, além da criação de ambientes sonoros imersivos para representar os vários planetas e ambientes.

9. O Brasil tem crescido no mercado de animação, mas ainda enfrenta desafios. Como vocês enxergam a evolução da indústria nacional?

R.: A animação brasileira é, acima de tudo, resiliente. Entra ano e sai ano, e continuamos por aqui na luta. Há muita coisa boa sendo produzida no Brasil inteiro, e muita gente talentosa por aí. Acho que isso só deve aumentar nos próximos anos, se tivermos mais espaço..

10. O que vocês acreditam que ainda precisa melhorar para que mais animações brasileiras ganhem espaço no mercado internacional?

R.: Acredito que a cota de telas deveria voltar, para aumentar as possibilidades não só para a animação brasileira, mas para o cinema brasileiro em geral. Outros países já fazem isso, como a França, e
isso seria muito saudável para a indústria cultural brasileira.

11. Como vocês percebem a recepção do filme em festivais internacionais como Annecy e Shanghai International Film Festival?

R.: Ficamos muito satisfeitos, porquer nossa propdução é bem pequena, e nossa distribuição ocorre de forma independente. Quando mandamos nosso filme para festivais o fazemos sem ter qualquer tipo de apoio ou costas quentes, então se o filme é selecionado ficamos muito, muito felizes.Consideramos que já é uma vitória. Ainda mais quando fomos selecionados por Annecy, que é o mais importante festival de animação do mundo, e Shanghai, que é o maior festival da Ásia.

12. Fujiwara Manchester e Lydia são protagonistas com grande química. Como foi a construção da relação entre eles na história?

R.: Isso aconteceu naturalmente e, em grande parte, porque eu e Camila também somos um casal. Assim, mesmo que as situações que eles passam sejam diferentes do que nós passamos – não há muitos trens carnívoros nem múmias elétricas gigantes aqui em São Paulo, felizmente – mesmo assim tentamos entendê-los como seres humanos com questões humanas, com qualidades e defeitos, e acho que isso impacta na maneira como nós os criamos.

13. O filme traz ação, aventura e humor. Como vocês equilibraram esses elementos no roteiro?

R.: Com dificuldade, e muito café! Mas espero que as pessoas gostem da mistura – tentamos fazer, acima de tudo, um filme divertido.

14.Existe alguma mensagem ou tema específico que vocês esperam que o público leve do filme?

R.: Alguns. Mas acho que um tema recorrente do filme é a passagem do tempo. E , claro, trilhos. Trilhos do destinos, caminhos, escolhas.

15. Há planos para novas produções no universo de Fujiwara Manchester, como uma continuação do filme ou uma nova temporada da série?

R.: Há vários planos, tanto para continuações do filme quanto uma eventual continuação da série. Tudo depende do interesse das pessoas certas, mas estamos abertos e sempre procurando novas possibilidades.

16. Vocês têm outros projetos de animação em andamento que possam compartilhar?

R.: No momento não temos novos projetos em andamento que possamos compartilhar, mas estamos disponibilizando a série inteira do Fuji no canal da Buba Filmes no Youtube, para quem quiser conhecer um pouco mais do universo do Fuji e da Lydia, e onde todas essas aventuras
começaram.

17. Se pudessem escolher qualquer história para transformar em animação, qual seria?

R.: Temos várias ideias e projetos em gestação, por assim dizer. Mas há duas histórias que gostaria de transformar em animação, se eu pudesse escolher. Uma seria uma adaptação do musical Os Saltimbancos, do Chico Buarque. Cresci ouvindo e cantando essas músicas, e seria simplesmente um sonho trabalhar em algo assim. Tenho várias ideias sobre como fazer esse filme, de um jeito atual mas ao mesmo tempo muito fiel ao material original. Mas pelo que entendo alguém já está fazendo, então isso deve continuar apenas como um exercício de imaginação. Outra ideia seria fazer uma versão em animação da história de Alberto Santos Dumont, algo que penso há anos. Vamos ver o que o
tempo diz.

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