Entrevista: Trio SalDoce

1.           O álbum Inofensiva Flor é apresentado como um marco de uma nova fase da SalDoce. O que mudou artisticamente entre este trabalho e o álbum anterior?

O Inofensiva Flor representa um amadurecimento artístico da SalDoce. É um trabalho mais plural, tanto musicalmente quanto nas histórias que queremos contar, em que exploramos diferentes facetas do trio e nos permitimos falar de amor, força, liberdade, preconceito e amor-próprio. Também ampliamos nossa relação com o audiovisual, pensando cada música como parte de uma experiência maior. É um álbum que traduz melhor quem somos hoje. Mais maduras, mais livres e sem medo de ocupar diferentes lugares.

2.           O conceito de “coexistência entre delicadeza e força” atravessa todo o projeto. Como essa ideia surgiu e de que forma ela dialoga com as experiências pessoais de vocês?

Somos três mulheres que, tanto na vida pessoal quanto na SalDoce, sempre passamos uma imagem de delicadeza. Nós sempre dizemos que ‘cantamos amor’ e recebemos muitos comentários sobre a paz e a calmaria que nossas músicas transmitem, mas percebemos que, algumas vezes, essa delicadeza foi confundida com fragilidade. Ao longo das nossas experiências, fomos entendendo que não precisamos escolher entre ser fortes ou sensíveis. Existe uma expectativa sobre como uma mulher deve se comportar, se posicionar e até demonstrar sua vulnerabilidade. Pra gente, a força e a delicadeza podem coexistir, e isso é lindo. Podemos continuar falando sobre o amor em todas as suas formas, sem que isso nos torne menos fortes. O Inofensiva Flor nasceu muito desse lugar da gente poder se permitir ser inteira, sem precisar caber em uma só definição.

3.           A faixa de abertura, “Fera Domesticada”, dá nome e sentido ao álbum. Por que ela foi escolhida para introduzir essa narrativa?

“Fera Domesticada” foi escolhida pra abrir o álbum porque ela apresenta, logo de cara, a ideia que atravessa todo o projeto. A coexistência entre delicadeza e força. A música fala sobre a mulher que pode ser sensível e, ao mesmo tempo, forte, corajosa e dona de si. O nome do álbum também veio de um trecho dela.

4.           O disco percorre temas como amor, autoconhecimento, liberdade, preconceito e vulnerabilidade. Como foi o processo de construir uma obra tão diversa, mas ao mesmo tempo coesa?

De fato, é uma obra com assuntos e abordagens diversas, mas tudo isso parte de uma mesma narrativa: de histórias e sentimentos que estão presentes nas nossas vidas e em tudo o que observamos ao nosso redor. Acho que justamente por serem temas tão genuínos para nós, que de fato vivenciamos e fazem parte da nossa verdade, eles também acabam se tornando genuínos quando se transformam em música. Quando a gente levou tudo isso para dentro do álbum e cada uma de nós colocou sua forma de cantar e de se expressar, acreditamos que foi a partir daí que surgiu essa coesão.

5.           “Visceral” aborda a pressão para que mulheres estejam sempre fortes. Qual a importância de trazer esse debate para a música atualmente?

“Visceral” traz essa reflexão sobre a ideia de que a mulher precisa estar sempre dando conta de tudo, sendo forte, produtiva e autossuficiente. Acho importante trazer esse debate pra música porque ainda existe muita cobrança pra que a gente esconda nossas fragilidades. Pra nós, reconhecer o cansaço, pedir ajuda, respeitar nossos limites e se permitir não estar bem também é uma forma de força.

6.           “Não Sento à Mesa” reforça o posicionamento da banda contra a homofobia e outras formas de preconceito. Como vocês enxergam o papel da música na defesa da diversidade e da inclusão?

Ao longo da nossa trajetória, já recebemos muitas mensagens de pessoas que encontraram nas nossas músicas conforto e paz em momentos difíceis, e que também fizeram delas trilha sonora de muitos momentos. Saber que nossas músicas estiveram ao lado dessas pessoas, que não “soltaram suas mãos”, é o nosso maior superpoder como artistas. A música tem o poder de tocar as pessoas pela emoção e, a partir daí, provocar reflexão. Então, sim, a gente acredita que ela é uma forma de acolhimento, representatividade e defesa da diversidade. “Não Sento à Mesa” nasce desse lugar de não aceitar que a existência de alguém precise ser diminuída para ser tolerada.

7.           O projeto ganhou uma dimensão audiovisual com videoclipes para todas as faixas. O que o formato visual permitiu comunicar que talvez apenas as músicas não conseguissem expressar?

O audiovisual permitiu que a gente desse corpo e identidade pra sentimentos que, às vezes, ficam apenas no campo das palavras. Cada música ganhou um universo próprio através do cenário, figurinos, movimentos e da nossa interpretação, fazendo com que o público não apenas ouvisse, mas também enxergasse e sentisse cada história. E tem também um lado muito especial porque é uma forma de o público conhecer mais da nossa performance, da nossa presença e da nossa entrega no palco, mesmo fora dos shows.

8.           Como foi a parceria com Fernando Duarte, Renan Andrade e toda a equipe criativa responsável pelo universo visual de Inofensiva Flor?

O Fernando, o Renan e toda a equipe entenderam muito bem o que queríamos comunicar com o álbum e ajudaram a transformar sentimentos e conceitos das músicas em imagens. Cada profissional trouxe seu olhar pro projeto, e isso fez com que os clipes tivessem identidades diferentes, mas ainda assim conversassem entre si. Foi uma troca muito rica entre todos os profissionais pra que a gente chegasse nesse resultado que amamos!

9.           A produção musical valoriza instrumentos acústicos e músicos em estúdio. Em um cenário cada vez mais digital, por que essa escolha foi importante para a identidade do álbum?

A gente gosta muito da sonoridade orgânica, e isso foi uma escolha importante pro Inofensiva Flor. Queríamos que as músicas tivessem vida, com instrumentos acústicos e músicos tocando juntos, valorizando as nuances dos arranjos e das nossas vozes. Em meio a tantas possibilidades digitais, buscamos preservar essa sensação mais humana e natural, deixando cada músico colocar a sua identidade.

10.         As harmonias vocais sempre foram uma marca registrada da SalDoce. Como vocês trabalharam esse elemento para refletir a maturidade artística alcançada neste novo trabalho?

As harmonias vocais sempre foram uma parte muito importante da identidade da SalDoce, mas a gente sentiu que esse momento da nossa carreira pedia uma elevação também nesse sentido. Então convidamos uma arranjadora vocal, a Jenni Rocha, para criar com a gente arranjos que explorassem mais possibilidades. E junto a isso, escolhemos deixar cada uma de nós se expressar de forma mais livre e original, sem tantas amarras. Nossas individualidades, referências e diferentes formas de cantar são justamente o que, quando se encontram, fazem a SalDoce ser o que é.

11.         Entre as dez faixas do álbum, existe alguma que represente de maneira mais profunda o momento que o trio vive atualmente? Por quê?

Achamos que “Visceral” e “Fera Domesticada”, porque as duas falam sobre a força feminina, só que de formas diferentes. “Visceral” vem de um lugar mais profundo e vulnerável, falando sobre a pressão de parecer forte o tempo todo, a ponto de ultrapassarmos nossos próprios limites. Já “Fera Domesticada” vem de uma forma mais leve, debochada e divertida, questionando essa ideia de que a mulher precisa ser “domada” ou podada. Ela fala sobre liberdade, sobre ser respeitada e ocupar o próprio espaço. Achamos que essas duas músicas representam muito bem o momento que vivemos justamente porque mostram que a nossa força pode existir de muitas formas, na vulnerabilidade, na coragem, na liberdade e também na leveza.

12.         Depois de Inofensiva Flor, quais são os próximos passos da SalDoce? Podemos esperar novas turnês, projetos audiovisuais ou outras novidades nos próximos meses?

O Inofensiva Flor abriu uma fase muito importante para a SalDoce e sentimos que ainda temos muito pra explorar dentro desse universo. Queremos levar esse trabalho cada vez mais para perto do público, com shows e novas experiências. Estamos muito animadas com tudo que esse álbum pode gerar e, ao mesmo tempo, abertas para os próximos caminhos que forem surgindo. Achamos que esse é um momento de movimento e descoberta para a SalDoce, então podem esperar muitas novidades por aí.