Entrevista: Banda O Boto

1.           O álbum Diferente de Ninguém nasceu de um processo de seleção entre cerca de 40 composições. Como foi escolher apenas 11 músicas para representar a identidade da banda neste momento?

Troc: “A gente gosta de pensar que cada música tem um “tempo de gestação próprio”. “Café e Rivotril” foi uma música que nunca tínhamos tocado em banda e durante o processo da gravação decidimos que ia entrar para o disco. Entretanto, temos outras músicas que escrevemos há anos, mas sentimos que ainda não estão prontas. Mas já posso adiantar que algumas que ficaram de fora do primeiro álbum agora estão em um estado muito mais maduro. A ideia é não descartar as ideias, mas entender o tempo de cada uma delas”

Jota: “Durante a produção, a gente priorizou músicas que realmente faziam a gente sentir alguma coisa, que criavam espaço para cada um se expressar da forma que queria e que, principalmente, a gente gostava de verdade. Acho que esse foi um dos principais critérios: não escolher uma música só porque ela funcionava bem, mas porque existia uma conexão real nossa com ela. No final, essas 11 músicas acabaram sendo as que, naquele momento, mais representavam o que era o O Boto e o que a gente queria dizer.”

2.           O título do disco traz uma aparente contradição entre individualidade e pertencimento. Como essa ideia se desenvolveu ao longo da criação do projeto?

Troc: Acredito que esse projeto foi muito responsável pra gente refletir sobre todas as contradições que vemos no nosso dia-a-dia. Desde o nome da banda, O BOTO, que traz uma figura que mescla a fantasia com a realidade, sedução e perigo, homem e animal. “Diferente de Ninguém” nasce a partir da ideia de que nenhuma experiência é individual e, por mais diferentes que sejamos, temos ainda muito em comum. E isso não pode ser esquecido. Acho que a modernidade e o mundo digital fizeram a gente se desconectar, perder o senso de comunidade. Esse disco fez a gente questionar isso. Durante esse processo de nos tornarmos adultos, a gente aprende a viver em contradição. O problema está quando ficamos alienados e não nos damos conta disso. O primeiro passo é perceber.

3.           As canções abordam a transição da adolescência para a vida adulta. Quais experiências pessoais dos integrantes influenciaram diretamente as letras do álbum?

Jota: “Todos nós somos bem sentimentais, o que não falta são experiências fortes o suficientes para serem transformadas em letras. Muitas dessas experiências são clichês da vida, como: primeiros amores, primeiro (ou muitos) términos de namoro, reconciliações, amizades, ansiedade, o famoso sentimento de “não sei o que fazer com a minha vida”, e coisas que nem todo mundo vive, mas muita gente é afetada por isso, como a depressão. Falo muito sobre essa parte difícil da minha vida na música “Por que mais uma canção de amor”. Comecei a escrever ela no auge da minha depressão, com 16 para 17 anos, voltei a escrever essa música quando estava passando por um momento de transição na minha vida, e acabei de compor ela anos depois, com cerca de 22 anos, em um momento em que eu consegui organizar muitos sentimentos nas prateleiras bagunçadas aqui dentro. Acho importante falar isso porque esse álbum aproxima de verdade quem ouve ele com a pessoa mais crua e verdadeira dentro de nós, todas as experiências são reais, foram vividas, sentidas e transformadas para chegar ao público do jeito que chegou.”

4.           O Boto mistura rock, groove, reggae, rap e música brasileira. Como vocês equilibram essas referências sem perder a identidade própria da banda?

Troc: A gente gosta de brincar falando que pra uma música autoral nossa nascer ela tem que passar em um jurí de aprovação unânime entre nós quatro. Por termos referências muito distintas, acho que aquilo que agrada os quatro simultaneamente a gente sabe que ali tem algo especial. Por mais que a nossa essência seja majoritariamente rock, não temos problema em nos aventurar através dos diferentes gêneros. Em “Por que mais uma canção de amor” combinamos rock com ijexá, “Vida de Artista” é rock com uma escola de samba completa tocando. Eu gosto de pensar que rock é atitude, então você pode fazer uma valsa super lenta; se você tocar com atitude e com sinceridade, vai soar rock ‘n’roll. Inclusive, preparem-se: estamos preparando um single de funk com rock que vai ficar INSANO.

5.           A faixa-título recebeu um arranjo assinado por Paulo Rydlewski. Como foi a experiência de trabalhar com elementos orquestrais e ampliar a sonoridade do grupo?

Jota: “Eu sempre estive envolto do erudito, afinal, o maestro Paulo Rydlewski é meu pai, o que torna muito mais especial a participação dele dentro do projeto mais importante de minha vida. Nasci com diversas referências musicais que vinham da música clássica, mas nunca pensei em utilizar isso dentro da banda. Isso mudou no dia em que comecei a compor “Diferente de Ninguém” no violão. Quando comecei a fazer aquele dedilhado que existe no começo, e ao longo da música inteira, me veio uma memória muito marcante: o som de uma orquestra afinando, algo que sempre achei muito bonito e sempre pude ver de muito perto. Naquele instante eu já sabia que essa música teria um pouco da mão do meu pai. Quando chamamos ele pra fazer o arranjo, ele topou na hora, mesmo sem saber de alguns desafios, como gravar tudo dentro de uma academia, mas tudo fluiu perfeitamente, e orgulhou a todos nós. Sempre falamos que o boto não vive em um rio só, nós tocamos rock, pop, rap, reggae, mpb e tudo que tem de bom por aí, acho que por conta disso, acabou sendo natural para nós explorar esse outro lado, que estava logo ali, do nosso lado.”

6.           A produção ficou a cargo de Hugo Silva, que possui um histórico de trabalhos com artistas de diferentes estilos. O que ele agregou ao processo criativo e à sonoridade final do álbum?

Troc: O Hugo é um grande professor pra gente. A sua história gravando no Family Mob fez dele um grande feiticeiro quando se trata de captar a vibe, a essência da música. Ele extraiu o máximo da gente durante a gravação do disco e acho que uma coisa muito importante em trabalhar com um produtor desse calibre é que ele nos deu confiança para aceitar nossas pequenas “imperfeições”. Muitas vezes a gente queria regravar algo por não estar “perfeito”. O Hugo nos ensinou que essas imperfeições tornam o disco melhor do que “perfeito”, pois ele se torna “humano”. E em um momento de inteligência artificial onde tudo é ultraprocessado, foi extremamente importante nos manter alinhados com essa essência e humanidade.

7.           Os singles já lançados ultrapassaram 150 mil reproduções. Como o retorno do público influenciou as expectativas para a chegada do disco completo?

Jota: “Na verdade, no momento, ultrapassam 230 mil reproduções. Acho importante essa correção, até porque foi muito trabalho por trás de tudo (risos). Parte da nossa estratégia foi consolidar um público mesmo antes do lançamento do álbum, deixando sempre esse gostinho de ‘quero mais’. As redes sociais acabaram virando nossa ferramenta para fazer isso acontecer.

Me lembro quando o Ben10 (Lucas Benez) veio com a ideia de começar a publicar nossas músicas, covers e outras coisas nas redes. A partir desse ponto, conseguimos chegar a uma média de mais de 200 vídeos postados em um ano. Foi ali que criamos essa proximidade com a galera e, aos poucos, começamos a gerar essa expectativa neles. O retorno disso foi até maior do que o esperado. Nossas caixas de mensagem, em todos os apps, explodiram com o lançamento do álbum, os covers das nossas músicas começaram a aparecer com mais frequência e novos públicos começaram a surgir. Tivemos uma resposta muito boa ao vivo também, com o nosso show de lançamento esgotando em seis horas de vendas.”

8.           O nome da banda faz referência ao personagem do folclore brasileiro. De que forma essa simbologia aparece nas músicas e na proposta artística de O Boto?

Troc: O BOTO é uma figura extremamente interessante pra gente, porque ele combina diversas dualidades e antíteses em uma figura única: é o homem-animal, a fantasia-realidade, o sedutor-perigoso. Por mais que seja uma figura folclórica milenar, essas dualidades parecem muito atuais dentro da nossa sociedade contemporânea brasileira. Isso acaba combinando muito com o nosso som, pois trabalhamos a dinâmica e o contraste nas músicas de uma forma que levamos essas dualidades à experiência de ouvir nossas músicas.

A dualidade aparece no nosso som através de elementos e letras que mostram densidade emocional, ao mesmo tempo que fazem reflexões a partir de objetos, símbolos e cenas do cotidiano urbano brasileiro.

9.           O álbum apresenta temas como amor, identidade, escapismo e amadurecimento. Qual dessas questões se tornou mais urgente para vocês durante a composição das músicas?

Jota: “Acho que, no álbum como um todo, todos esses temas eram importantes, porque eles acabam se conectando muito. A ideia do disco é justamente acompanhar um processo de amadurecimento, de crescer, de entender melhor quem você é e tudo o que vem junto disso. Então, quando a gente fala de amor, identidade ou até mesmo de escapismo, está falando também de diferentes momentos e formas de lidar com essa fase da vida.

Acho que o mais importante foi justamente conseguir mostrar essas diferentes experiências sem precisar escolher uma só. Cada música acaba trazendo uma perspectiva diferente, mas, quando você olha para o álbum inteiro, dá para perceber esse fio condutor de alguém que está passando por essas situações, se descobrindo e mudando ao longo do caminho. No fim, acho que é isso que amarra todas essas questões: esse processo de amadurecimento e tudo o que a gente vive enquanto passa por ele.”

10.        Como a banda enxerga a cena independente brasileira atualmente e quais são os principais desafios para um grupo autoral conquistar espaço?

Troc: A cena independente brasileira é um espaço extremamente difícil de sobreviver. Falta direção, apoio e infraestrutura. Acredito que a maior dificuldade é para as bandas se manterem resilientes e com a cabeça erguida mesmo após algo ruim acontecer. Já tivemos equipamentos queimados por “técnicos”, o Ben10, nosso guitarrista, já sofreu um choque extremamente perigoso e teve que ir ao hospital por negligência de uma casa de show que não se deu o trabalho de comprar uma fonte com aterramento para a mesa de show. Nosso baterista teve todos os seus pratos roubados no último mês. Se para nós, que temos o privilégio de ter o apoio de nossas famílias, continuar muitas vezes já é um desafio, para aqueles que estão em maior vulnerabilidade social e econômica, a situação é infernal. Para essas pessoas, um equipamento roubado muitas vezes impossibilita a realização de um show ou até de um ensaio. Não há como esperar uma cena fortalecida se as estruturas materiais operam diretamente contra os membros dessa cena.

11.        O Boto nasceu oficialmente em 2023 a partir de uma amizade construída anos antes. Como a convivência entre vocês influencia a dinâmica criativa e as decisões artísticas da banda?

Jota: “Acho que influencia bastante, porque a gente já se conhece há muito tempo. Então existe uma liberdade muito grande entre nós para falar o que pensa, dar uma opinião, discordar, testar uma ideia nova… Acho que isso facilita muito o processo criativo. E essa liberdade acaba indo muito além da música. O Troc comentou uma coisa outro dia, em uma entrevista também, que eu achei muito interessante: quando a banda começou, cada um tinha um jeito muito diferente de se vestir. Com o tempo, isso foi mudando, e acho que tem muito a ver com o quanto a gente se sente confortável para experimentar coisas novas quando está entre nós quatro. Até a forma de se vestir acaba sendo uma maneira de se expressar e de descobrir novas possibilidades. E acho que é justamente isso que acontece com a música também. A gente se sente à vontade para experimentar, para mudar de ideia, para propor coisas diferentes. Ao mesmo tempo, fomos aprendendo a separar as questões pessoais das decisões da banda. Nem sempre a nossa vontade individual é o que vai funcionar melhor para o O Boto, então existe muita conversa e muita troca até chegar em algo que faça sentido para todo mundo. No fim, acho que se sentir confortável entre nós é uma das coisas mais importantes para tudo que a gente faz artisticamente. Quando existe essa confiança, você se permite explorar muito mais. E acho que essa mistura de quatro personalidades, referências e formas diferentes de se expressar é justamente o que acaba construindo a identidade dO Boto.”

12.        Após o lançamento de Diferente de Ninguém, quais são os próximos passos do grupo em termos de shows, videoclipes e novos projetos?

Troc: Com o crescimento dentro das redes, estamos construindo uma comunidade incrível de fãs de todo o Brasil. Agora que lançamos o disco, nosso objetivo é rodar o país e conhecer todo mundo! Logo vamos lançar um videoclipe de uma das músicas que o pessoal mais gosta e uma live session irada que gravamos no estúdio Family Mob. Também temos alguns singles em mente com participações pra lá de especiais… mas tudo isso por enquanto é surpresa, então melhor parar por aqui…