Entrevista: Nicolas Krassik, violinista
“Em Cenas” chega às vésperas dos seus 25 anos vivendo no Brasil. Em que medida esse marco pessoal atravessa o conceito e a sonoridade do projeto?
Um quarto de século no Brasil, é um momento bem especial pra mim. Demorei muito para decidir gravar um projeto ao vivo, sem os recursos do estúdio de gravação, onde muitas vezes gravamos por camadas, sem a energia e a troca da performance do palco. Demorei, primeiro porque nunca gostava do som do violino, muito difícil de captar com som natural, que a gente, a princípio, só consegue num estúdio mesmo. Segundo, porque também nunca gostava da minha própria performance nos shows. Sempre achava que faltava aquela concentração que a gente consegue no estúdio, abstraindo os elementos externos de um show. A energia era melhor, mas sempre achava que não tinha tocado do jeito que gostaria. Acho que, ao longo desses 25 anos de música brasileira, tocando sempre na noite, nos bailes, acabei adquirindo a maturidade suficiente pra, até que enfim, me arriscar com esse tipo de gravação. Me preparei muito, tanto tecnicamente, quanto psicologicamente. Para resolver a questão técnica, da gravação, me cerquei de profissionais incríveis, com quem conversamos muito, sobre como microfonar os instrumentos e como mixar depois. Hernán Romero captou o som, com a ajuda do Heitor Gondo e quem mixou e masterizou, foi o Rodrigo Lana, amigo e professor, que fez um trabalho maravilhoso.
O trabalho nasce como uma experiência audiovisual, pensada para som e imagem. Em que momento você sentiu que esse repertório pedia uma abordagem cinematográfica?
A gente tá na era da imagem, o público quer olhar, enquanto ouve. A ideia de gravar dessa forma, com as câmeras no palco, perto da gente, veio dos produtores da parte da filmagem, a produtora VMD, da Laís Branco e do Kabé Pinheiro (que também tocou no projeto). Eles sugeriram isso, porque acharam interessante poder mostrar os detalhes, os olhares, os sorrisos, a conexão entre os músicos. É difícil captar isso de longe, e o público nunca vê isso direito, durante um show. Nossa música tem muita energia e temos uma conexão incrível, além de tocarmos juntos, somos amigos, isso se percebe, quando tocamos e acho que deve contagiar o público.
A gravação ao vivo coloca o público “no centro da roda”. O que muda para você, como improvisador, quando a escuta é tão próxima e exposta?
Na hora de gravar, não pensei nisso, confesso, só pensei em ser feliz e sincero no que tocava…Acho que a mudança deve acontecer principalmente pra quem assiste. Acredito que ajude o público a entrar na história que a gente tá contando, com as composições e os improvisos.
O forró instrumental é o eixo do projeto, mas atravessado pelo jazz e pela liberdade improvisada. Como você equilibra respeito à tradição e risco criativo?
O respeito à tradição, sempre foi meu foco maior, desde que cheguei no Brasil.
Nos primeiros anos, tinha até medo de improvisar de forma jazzística demais…Ao longo dos anos, fui perdendo medo, adquirindo mais propriedade e vendo também, que os próprios músicos brasileiros tinham essa vertente do jazz…muitos deles. Me senti cada vez mais à vontade, para me expressar da forma que me soava mais coerente, com minha bagagem musical e a própria cultura brasileira. Estou cercado de grandes músicos, Mestres nos seus instrumentos e na cultura nordestina, 3 deles, inclusive, são nordestinos. Então, sempre me refiro a eles, sobre arranjos, idéias, improvisos, para ter certeza que estou respeitando o gênero tocado, apesar de usar da liberdade da improvisação jazzística. O que me parece essencial, no caso do Forró, é sempre buscar o swingue, o balanço, pensar na dança…Eu danço Forró, faço aulas há uns 6 anos, isso me ajuda demais.
Seu violino já se tornou uma assinatura dentro da música nordestina contemporânea. Como foi, ao longo dos anos, conquistar esse lugar sendo um músico estrangeiro?
Confesso que isso é um dos meus maiores orgulhos, foi um desafio gigante e se tornou uma grande conquista pessoal. As minhas gravações de Forró, sempre estão presente nos bailes, tanto através dos Dj’s, quanto com bandas que tocam umas composições minhas. A minha maior alegria, aconteceu com a música Cordestinos, sempre será um mistério pra mim, mas ela foi amplamente adotada pelo público forrozeiro, fico muito emocionado com isso, recebo regularmente, depoimentos de pessoas que gostam dessa música e umas me falam coisas tão lindas…como, por exemplo, que essa música foi trilha de uma paixão, ou ajudou em momentos muito difíceis…é muito gratificante, ainda mais para alguém que nasceu na França…
O time de músicos reunido em “Em Cenas” é formado por grandes mestres. Como se construiu essa cumplicidade musical e o diálogo entre os instrumentos?
Kabé Pinheiro, foi o primeiro músico que encontrei em São Paulo e, desde então, tocamos muito juntos e nos tornamos amigos. Conheci Pablo Moura, Lau Trajano e Guegué Medeiros, nas noites forrozeiras de São Paulo e começamos a tocar juntos…No início, foi nos bailes mesmos, principalmente no Canto da Ema, onde desenvolvemos muita cumplicidade, nasceram muitas idéias. Quis levar isso pros palcos da música instrumental, onde teríamos ainda mais liberdade para tocar. Ensaiamos muito esse show, cada um trazendo suas ideias e sua experiência, mas a maior parte dessa sintonia, nasceu nos bailes mesmo. São músicos incríveis, grandes intérpretes e improvisadores, de uma energia e generosidade absurda. Tocar com eles, é uma eterna aula de música brasileira.
O repertório é majoritariamente autoral, mas traz homenagens a Gilberto Gil e Dominguinhos. O que esses dois artistas representam na sua trajetória brasileira?
Gilberto Gil, foi o artista que me apresentou o Forró. Quando passei férias no Brasil, em 2001, comprei o disco “Eu, tu, eles” e fiquei apaixonado. Foi nesse álbum que descobri músicas do Gonzaga, do Dominguinhos e do próprio Gil. 10 anos depois, ele me convidou pra integrar a banda “Fé na festa”, para tocar justamente esse repertório nordestino. Era pra ser uma turnê de São João e acabei tocando por mais de 4 anos com ele. Foi maravilhoso, uma aula de vida e de música. O Gil é tão incrível como pessoa, quanto como artista. Dominguinhos é meu ídolo maior. Amo tudo dele, a voz, as obras, o jeito de tocar sanfona e seus improvisos são a coisa mais linda do mundo. Ele é minha referência absoluta.
Em faixas como “Cordestinos”, a fusão entre Nordeste e jazz aparece de forma muito clara. Esse ainda é um território em expansão para você?
O projeto também terá lançamento em vinil. O que esse formato físico representa em tempos de escuta digital e fragmentada? É minha volta para música, em forma de objeto físico, com arte gráfica e ficha técnica. Nesse momento de alta velocidade da vida, cho incrível, alguém querer tirar um vinil da caixa, colocar na vitrola, sentar pra ouvir e ainda levantar pra ouvir o outro lado… Tem o lado dos bailes de Forró também, onde muitos Dj’s trabalham com esse tipo de mídia, então será também uma forma de estar presente com eles…
Depois de tantos palcos no Brasil e no exterior, o que ainda te move a criar e buscar novas formas de expressão musical?
Acho que, se eu parar de buscar isso, acaba tudo…nem penso tanto em “novidades”, mas sim em qual é minha verdade musical do momento. A minha verdade pra esse trabalho, foi de realizar um sonho, com músicas que já tocava, mas que nunca tinham sido apresentadas dessa forma, mais de 10 anos depois de produzi-las, com nova roupagem, outros músicos e mais maturidade. A minha outra verdade, era poder mostrar essas músicas, com imagens de alta qualidade técnica e artística. Acredito ter conseguido…
Você costuma dizer que a música nordestina mudou sua vida. O que ela te ensinou, como artista e como pessoa?
A música brasileira, de forma geral, mudou minha vida…o Brasil mudou minha vida. O Brasil e os músicos brasileiros, me deram a energia que eu buscava com a música e não encontrava na França. Fui totalmente engolido pelo talento e a força dos músicos brasileiros. A música nordestina, em particular, mudou até me corpo de músicos…a dança chegou como um complemento a minha expressão musical…me fez tocar de forma mais swingada, acredito…Me identifico com o Nordeste, a cultura, o povo, tenho uma conexão com tudo isso, que nem sei explicar. Amo a música nordestina, os sotaques de lá, o jeito das pessoas. Já pensei até em me mudar pra lá, diversas vezes, mas me apaixonei por São Paulo, lugar onde a vida cultural é muito intensa, tempo todo.
Com “Em Cenas” no mundo, que próximos caminhos você imagina para essa travessia entre culturas, ritmos e linguagens?
Já falei sobre minha verdade, ou minhas verdades…rs. Minha verdade agora, é tentar provocar mais parcerias, com outros artistas. Por enquanto, não penso mais em produzir trabalhos “solos”, quero poder dividir o peso do processo (que não é pouco), misturar os universos, e somar as forças. Acho que “Em Cenas”, foi comemoração de um ciclo, agora quero começar outro. É o que penso agora, mas tudo pode mudar. Quero voltar a compor, sempre foi um processo difícil pra mim, mas quando a inspiração vem, é gostoso demais…
