Entrevista: Trio Efeito Túnel
O álbum nasce após quatro anos de construção. Em que momento vocês perceberam que esse material já pedia um disco e não apenas lançamentos pontuais?
Caio –
“Algumas músicas desse trabalho começaram a surgir ainda em 2018, a partir de parcerias entre mim e a Tammys. Eram composições soltas, sem a pretensão imediata de virar um disco. A virada acontece em 2019, quando o Marcus Bros finalmente entra no grupo. É ali que a Efeito Túnel nasce de fato. Com a formação completa, aquelas músicas passam a ganhar outro sentido, outro corpo, e começa a aparecer em nós o desejo real de gravar. Desse processo, nasce a ideia de transformar tudo isso em um disco. E entramos no estúdio Andar de Cima, de Memel Nogueira, em 2020, para iniciar as gravações.
Tammys –
Os lançamentos pontuais foram uma forma de ir apresentando a nossa proposta, aparecendo aos poucos. É difícil hoje em dia aparecer do nada com um álbum, visto que é raro as pessoas pararem para ouvir um álbum inteiro hoje em dia. Então, quando decidimos por lançar três singles antes do disco, foi meio como uma forma de comunicar: olá, esses somos nós, estamos gravando um disco e espero que vocês gostem do que estamos criando.
Marcus:
no início em 2019, pensava que o projeto nasceria em 2020 ou 2021, pois grande parte das músicas foram escritas em 2018 e 2019. Mas veio a pandemia, as novas formas de viver, trabalhar, e precisamos nos adaptar aos trabalhos remotos, com a banda de forma planejada e assertiva. Acabando a produção musical do álbum no segundo semestre de 2024, nos reuníamos remoto para discutir o lançamento oficial da banda, os singles, o álbum, os souvenirs tudo em 2025. Muita coisa deu certo no planejamento, e poucos fugiram do nosso controle, no geral, achei ótimo. Tivemos várias contribuições massa na voz, nas artes digitais, nas fotografias, na comunicação. Foi um momento muito especial para mim, todo o processo.
O conceito de passagem atravessa tanto o nome da banda quanto o álbum. Como essa ideia se manifesta musicalmente e liricamente no trabalho?
Caio –
“Musicalmente isso acontece pelo fato de que as músicas não seguem sempre a mesma proposta. Os ritmos vão variando, as intenções harmônicas e melódicas também. A Isso foi surgindo de maneira natural. Já na parte lírica, a poesia é bem importante para o nosso trabalho. A ideia de passagem se manifesta nas imagens e nos temas: deslocamentos afetivos, transformações internas, relações que se desfazem ou se reconfiguram, tempos que não voltam, mas deixam marcas. O prenúncio e a expectativa de uma nova temporada.
Tammys –
O nosso encontro aconteceu de forma muito natural e curiosamente, estávamos todos vivenciando momentos parecidos em nossas “biografias”. Esse atravessamento brusco da juventude para a vida adulta, as rupturas, a necessidade urgente de se reinventar no mundo. O álbum testemunha e registra essa trajetória.
Marcus:
A essência do nosso processo musical sempre girou em torno de atravessamentos, viagens e moradas, refletindo sobre a vida e as nossas diversas maneiras de viver o mundo. Temos a convicção de que a vida raramente é linear ou contínua; a próxima fase, ciclo ou passagem frequentemente surge de uma forma distinta. Nosso projeto reflete claramente essa diversidade, apresentando uma multiplicidade de ritmos, nuances e propostas em diferentes momentos.
Lançar o disco no dia 31 de dezembro tem um simbolismo forte. Que ciclo se encerra e quais caminhos se abrem com esse gesto?
Caio –
“É um gesto de fechamento e, ao mesmo tempo, de suspensão. Encerra um ciclo longo, que começa lá atrás, nas primeiras composições. É o fim de um processo que foi demorado, mas também bastante verdadeiro por isso. Apesar de não ter sido algo planejado, o disco nasce exatamente no limite entre um tempo que se esgota e outro que ainda não começou. O que se abre a partir daí é a possibilidade de circulação: as músicas finalmente deixam de ser só nossas e passam a existir no mundo, em contato com outras escutas, outros afetos, outras leituras. O lançamento no último dia do ano também acaba afirmando a ideia de passagem, de fechar uma porta com cuidado, atravessar o túnel, e seguir adiante sem a necessidade de saber exatamente o que vem depois”.
Marcus:
Trabalhamos neste projeto por pouco mais de cinco anos, com o objetivo de concretizar a nossa visão. Embora o resultado final tenha sido diferente do que planejamos e combinamos, o desfecho foi positivo. Entregamos o álbum e superamos as expectativas iniciais. Agora, o foco é a divulgação, destacando a importância do trabalho, o potencial de desdobramento e como este ciclo representou um verdadeiro “efeito túnel” em nossa jornada.
As faixas refletem diferentes fases do processo criativo do trio. Como foi organizar esse repertório sem apagar as transformações vividas ao longo do tempo?
Caio –
“As músicas do disco foram se ajustando de forma muito natural. Apesar das transformações, a vontade de colocar as canções no mundo permaneceu a mesma. E esse disco traz um aspecto importante que é o fato de que não nos limitamos a apresentar esse trabalho exatamente do modo em que foi gravado. Ao vivo também fazemos shows com guitarra, contrabaixo/synth bass e bateria. De certa forma, as canções ficam sempre vivas para serem apresentadas no formato que a gente entender ser o melhor para o momento, seja na formação acústica em que foi gravado, seja nessa outra maneira”.
Tammys –
Falando das músicas, acredito que exista em nós uma fidelidade aos sentimentos que nos atravessaram, que não nos permite ser desonestos ao revisitá-los. As formas de apresentar esse repertório podem ser infinitas, mas as canções serão sempre respeitadas.
Marcus:
A criação das músicas foi rápida, apesar do processo de produção ter sido mais demorado. No entanto, trabalhar na produção com os Tammys e Caio foi uma experiência muito agradável. O projeto foi finalizado com a contribuição de Memel, garantindo que o tempo, as letras, a melodia e a essência do grupo fossem respeitados.
O disco não se prende a um gênero específico e transita entre samba, rock e música instrumental. Essa liberdade foi uma escolha consciente desde o início?
Caio –
“Não foi algo exatamente consciente, mas nos parece ser o certo manter isso. A gente gosta dessa mistura”.
Tammys –
Essa liberdade, no fim das contas, acabou se configurando como algo que é muito a cara de nós três.
Marcus:
A mistura dos ritmos foi algo inconsciente e libertador, eu vejo cada um de nós em cada letra, música, melodia e silêncio.
Tammys comenta que o álbum nasce de experiências íntimas que ganham dimensão coletiva. Como funciona essa passagem do confessional para o universal dentro do grupo?
Tammys –
Eu ouvi de um amigo certa vez que “quanto mais regional, mais universal”, ou algo assim. Nas músicas temos, por exemplo, algumas menções à nossa cidade, São Luís. Talvez só quem já tenha vivenciado o cotidiano da cidade consiga acessar essas imagens e, mesmo que vive na cidade, não viva necessariamente a cidade. Se formos particularizar ainda mais, nem todo mundo vive a mesma cidade, já que são muitas cidades em uma só. Mas, por outro lado, quando mergulhamos profundamente em nossas experiências individuais, acredito ser possível acessar uma camada na qual todos (ou quase) nos encontramos, e esse álbum é um mergulho muito profundo (a capa sugere isso). Isso se revelou muito verdadeiro em nosso evento de lançamento: casa cheia, um público muito diverso, pessoas de todas as idades e segmentos.
A escrita poética aparece como um eixo forte do trabalho. Como se dá o diálogo entre letra, melodia e arranjos na construção das canções?
Tammys –
Não existe bem uma fórmula, mas pessoalmente falando, gosto de ter uma base melódica imaginária para encaixar as palavras. Escrevemos e reescrevemos muitas vezes, até sentirmos aquela sensação de que cada palavra está no lugar que deveria. Os instrumentos às vezes servem como maus exemplos (não devem ser seguidos). A voz, por sua vez, deve soar como mais um instrumento, e não ficar simplesmente acompanhando tudo. Para isso, fazemos o exercício de, tanto quanto possível, fugir pela tangente das obviedades e do que soa “mais fácil”.
As colaborações surgem de relações afetivas e artísticas. O que cada participação acrescentou ao universo do álbum?
Tammys –
Falar de cada pessoa que colaborou para que nosso álbum se realizasse exigiria algumas páginas de texto. O Efeito Túnel é um projeto muito agregador. Mesmo um trabalho aparentemente “simples” como o nosso é fruto de muita colaboração e envolve muitas pessoas. Mas tentando resumir: Memel Nogueira é da família, amigo pessoal de longa data, para mim é um irmão mais velho, além de exemplo de profissionalismo, alguém a quem sempre recorremos quando surgem dúvidas etc. Foi nosso produtor e também uma das pessoas que insistiu para que o álbum fosse fiel ao que apresentamos de início. Foram alguns anos amadurecendo as canções juntos, e ele também nos brindou com um belíssimo arranjo de sanfona na faixa “Tristeza”, uma contribuição espontânea que nos chegou como um grande presente. Aproveitando o gancho de “Tristeza”, desde sempre já imaginávamos uma participação de Tiago Máci cantando essa canção conosco, porque ela tem essa vibe meio tango, meio boêmia, e juntamos a fome com a vontade de comer. Tiago Máci é um grande artista de São Luís que também conhecemos de longa data, um poeta, sambista, rock n’ roll, amigo querido e compositor talentoso que admiramos muito. Por fim, o início, que é a nossa primeira single “Janeiro”. Acompanhávamos há um tempo o trabalho da Nicole Terrestre, que é uma cantora, compositora e instrumentista super talentosa da ilha, e queríamos muito que ela cantasse uma música com a gente. No caso dela, colocamos todo o nosso repertório à disposição, e ela se encantou pela música “Janeiro”, sem deixar dúvida nenhuma. E assim fizemos. Janeiro foi nossa primeira composição juntos e também nosso primeiro single, então tem um peso bem especial a Nicole ter chegado junto pra cantar essa música.
A distância física entre os integrantes marcou o funcionamento da banda desde o início. De que forma esse modelo não convencional influenciou o som do Efeito Túnel?
Marcus:
Fechamos um acordo inicial que não seríamos uma banda, dá muito trabalho rsrs. Daí já fugimos do convencional. O tempo onde nasceu o projeto também influenciou muito essa forma de trabalhar, o modelo foi bem orgânico e cada tempo vivido em coletivo foi proveitoso para absorver o que queríamos e lançar no mundo.
Tammys –
Parando pra pensar, o nosso som oscila bastante entre tensão e expansão. Talvez isso tenha a ver com o fato de que, quando estamos juntos, aproveitamos para extrair o máximo da nossa presença. Já quando não estamos, deixamos decantar, respirar, tomamos decisões com calma e assim vamos levando, sem deixar “a peteca cair”.
O processo de escuta coletiva parece central no trio. Como vocês lidam com divergências criativas e decisões artísticas à distância?
Marcus:
Tenho o melhor trio do mundo no quesito sobre relacionamento, acho que essa é a nossa maior força. Nossas divergências entram em harmonia porque sabemos que juntos podemos fazer melhor, mesmo à distância.
Tammys:
o fato de sermos três facilita bastante, porque dificilmente entramos em impasses. As opiniões sempre tendem a se balancear e, como nos conhecemos há bastante tempo, nos ouvimos e respeitamos muito. As divergências, muitas vezes, são oportunidades para aprender algo novo.
Após o lançamento, o disco passa a circular nacionalmente. Que tipo de encontro vocês esperam provocar com o público que ainda não conhece a banda?
Tammys –
Esperamos que as pessoas se identifiquem com a nossa música e que as canções possam servir de trilha sonora pra momentos bons. Que busquem conhecer as pessoas que estão fazendo música autoral em nosso estado. Tem muita gente incrível produzindo.
Com o álbum agora no mundo, quais movimentos, deslocamentos ou travessias vocês imaginam para o próximo momento do Efeito Túnel?
Marcus:
Eu penso em tantos movimentos, tipo shows e audiovisuais, é algo que espero muito que tenha durante essas travessias. Vamos ver o que o 2026 pode nos proporcionar!
Tammys –
Como estou morando em Pernambuco, estou sonhando com apresentações por aqui. Fora isso, queremos passar muito tempo falando sobre nosso álbum, trabalhando as canções e seguir realizando.
