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Entrevista: Badi Assad, cantora e compositora

Entrevista: Badi Assad, cantora e compositora

. Parte de Tudo Isso marca o início das comemorações dos seus 35 anos de carreira. Como esse álbum sintetiza sua trajetória até aqui — e o que ele representa emocional e artisticamente para você?

Ele sintetiza minha inquietação artística — essa necessidade constante de me abrir para o novo. É também a primeira vez que recebo músicas inéditas de outros artistas para gravar, o que me encheu de alegria. Parte de Tudo Isso reflete essa minha natureza curiosa, que se transforma e segue em movimento, celebrando cada ciclo com o coração aberto.

. O disco reúne nomes da sua geração, como Adriana Calcanhotto, Zeca Baleiro, Chico César e Nando Reis. Como foi revisitar essa energia criativa coletiva dos anos 1990 e 2000 sob uma nova perspectiva?

Todos eles são artistas que não pararam de criar e que estão na ativa, compartilhando seus talentos e musicalidade. São vozes que nunca se congelaram em uma época e que, como eu, seguem se contemporaneizando

. A produção ao vivo no estúdio, em clima de jam setentista, traz uma sonoridade orgânica e espontânea. Como essa escolha influenciou o resultado final e o seu desempenho como intérprete e instrumentista?

Foi muito bonito ver a semente das canções, que chegaram no estúdio apenas com uma voz e violão guias, crescendo em arranjos coletivos e espontâneos. Assistir o talento desses músicos foi algo de se testemunhar o milagre da música e da arte: quando as almas, emoções e intelectos se unem sem fronteiras.

. Você é reconhecida por reinventar a relação entre voz, corpo e violão. Como essa linguagem se transformou neste álbum, que mergulha mais diretamente na canção popular?

Sinto que neste disco a Badi cantora se apresenta amadurecida. Ao ouvir essas gravações, percebo uma voz que andou bastante para chegar aqui — inteira, serena e entregue ao sentido de cada letra. Há uma escuta mais profunda, que me permite flutuar por dentro de cada canção e não apenas sobre ela.

. O texto de Patricia Palumbo fala sobre o “Brasil que se mistura” — a antropofagia musical. Como você enxerga essa ideia de mestiçagem artística hoje, num momento de tanta fragmentação cultural?

Sim, há uma fragmentação estrondosa, tornado difícil o contágio criativo. Porém, os artistas continuam em suas potencialidades livres para serem contagiados com tudo o que está disponível e ao seu alcance. Então, neste sentido, a antropofagia continua, dependendo da curiosidade de cada um. Era assim antes e, neste sentido, acho que não mudou muito: as almas criativas e não ancoradas em zonas de conforto, acaba se entregando a tudo aquilo que o toca, literalmente.

. Há um equilíbrio entre parcerias inéditas e canções presentes de outros compositores. Como se deu o processo de curadoria e escolha das faixas?

Quando o produtor Marcus Preto me sugeriu que fizéssemos um disco de inéditas, de cara eu me deslumbrei, porque, a princípio, quando se fala de um disco comemorativo, já pensamos em canções que marcaram a carreira etc. Na verdade esse disco, o de releituras também vai sair! Em março de 2026, ainda como parte das minhas comemorações dos 35 anos de carreira. Agora, voltando ao Parte de Tudo Isso: No início precisássemos entender qual seria o ‘recorte’ do disco e foi daí que surgiu a ideia de fazermos com artistas que nasceram na mesma década que eu, os anos 1960. Com isso em mente, fui descobrindo e reencontrando parceiros de trajetória — alguns amigos de longa data, outros trazidos pelo Marcus. Tudo aconteceu de forma muito natural, a partir dos convites e trocas. Recebi canções escritas especialmente para mim, como Possível Manual do Amor (Moska, com feat da Zélia Duncan), e vivi processos curiosos, como quando o Nando Reis revisou a letra de sua parceria com Zé Renato quando sou que eu ia gravá-la. Até Adriana Calcanhotto, que não compunha há algum tempo, se empolgou — e Você, Cadê? nasceu dessa inspiração. Ela acabou se tornando o single e a faixa de abertura do disco.

. “Você, Cadê?”, composta com Adriana Calcanhotto, é um dos encontros mais curiosos do álbum. Como foi o diálogo criativo entre duas artistas com universos estéticos tão distintos?

Nossos universos são diferentes, mas partem do mesmo lugar: os quartos da mente e coração. E, quando é assim, tudo se encontra. Primeiro perguntei se ela toparia compor comigo. Ela se animou, mas disse que andava sem inspiração. Então enviei alguns dos meus escritos — e isso a fez lembrar de alguns escritos seus que poderiam dar liga e me enviou. No dia seguinte, já voltei com uma ideia musical. Em poucas trocas, a canção estava pronta.

. Em “Possível Manual do Amor”, sua voz se une à de Zélia Duncan num dueto potente e afetuoso. Que memórias ou emoções essa faixa desperta em você?

Como a própria letra diz, são muitas as formas de amar. A Zélia faz parte da minha história há muito tempo — já compusemos, inclusive, juntas (Vejo Você Aqui), presente no meu álbum Wonderland. Mas, no início dos anos 2000, quando vivi um momento delicado de saúde — a distonia focal que me afastou do violão por dois anos — foi na troca de e-mails com ela que eu sentia o calor do Brasil. Serei sempre grata por essa amizade. Talvez para ela tenha sido algo cotidiano, mas pra mim foi um laço vital. Representava liberdade e pertencimento — e, logo depois dessa fase, que levou dois anos de intenso mergulho físico, mental e espiritual, voltei a tocar e a cantar, agora acompanhando o meu próprio canto.

. A canção “Ser Humano é Floresta”, com André Abujamra, traz uma metáfora forte e contemporânea. Como essa parceria reflete suas inquietações sobre o mundo atual?

O André e eu temos uma fluidez musical incrível, e já combinamos de compor mais juntos. Ser Humano é Floresta fala de pertencimento — desse lembrete essencial de que somos parte da natureza, não algo separado dela. Vivemos uma desconexão profunda: muitos acreditam ser superiores ao planeta. Mas, quando a Terra se cansar, é ela quem nos chacoalhará.
A natureza é generosa — muito mais do que nós, humanos. Essa canção fala justamente disso: do nosso esquecimento e, ao mesmo tempo, da beleza que existe nas diferenças — como na própria diversidade da floresta.

. A faixa-título, com Ceumar, é delicada e solar. Ela parece resumir o espírito do álbum — um convite à comunhão e à celebração. Foi intencional colocá-la como centro conceitual da obra?

Curiosamente, não foi. Enviei alguns poemas meus à Ceumar, e ela se conectou imediatamente a esse texto — compôs a música de forma muito rápida. Quando Marcus Preto e eu buscávamos um título para o álbum, voltamos às letras e percebemos que essa canção ainda não tinha título. Foi então que encontramos, juntos, Parte de Tudo Isso. E é perfeito, pois acaba refletindo o meu momento de vida, onde abraço as transformações do tempo, olho pra trás e vejo uma vida dedicada não somente à música, mas ao que alimenta minha existência, testemunhando que tudo valeu, e vale, a pena.

. Você sempre transitou entre o Brasil e o mundo, entre o popular e o erudito. Como enxerga o lugar da música brasileira hoje no cenário internacional — especialmente a partir da sua experiência global?

A música brasileira continua despertando encantamento no mundo. Onde quer que eu vá — seja na Europa, nas Américas ou na Ásia — percebo um respeito genuíno por nossa mistura de ritmo e emoção, que vem de tantas raízes. Mesmo com as mudanças do mercado e a fragmentação trazida pelas plataformas digitais, o público estrangeiro continua buscando nossa música. O Brasil é visto como um celeiro de originalidade, um lugar onde a emoção é traduzida em som. Depois de quase 200 turnês em cerca de 50 países, entendo que o papel do artista brasileiro lá fora é o de traduzir o coração do nosso povo, levando a força da ancestralidade, da miscigenação e da diversidade que nos formam. Ainda assim, o mundo precisa descobrir a verdadeira amplitude da nossa produção — já que, em muitos lugares, ainda se acredita que o Brasil se resume à bossa nova. Precisamos de uma política cultural de exportação mais eficaz, capaz de revelar a riqueza e a potência do nosso som, não apenas como arte, mas também como força de mercado e identidade.

. Por fim, Parte de Tudo Isso abre um ciclo comemorativo de 35 anos. O que podemos esperar das próximas etapas dessas celebrações? Há planos de turnê, documentário ou novos encontros musicais?

Sim! Além da turnê de lançamento de Parte de Tudo Isso, que já está em andamento, vem aí o álbum de releituras, com músicas que marcaram minha trajetória, em março. Também há projetos especiais em curso — entre eles, o Museu da Família Assad, um espaço dedicado à preservação e difusão da história musical da minha família. Esses 35 anos não são uma chegada, mas um novo ponto de partida. Tenho a sensação de estar, mais do que nunca, no centro de tudo o que amo: a música, as pessoas e o tempo presente.