Entrevista: Rafael Silva, escritor
O que motivou a criação de “Biu e o Caminho de Sankofa” e como surgiu a ideia de conectar a história infantil ao símbolo adinkra Sankofa?
Confesso que não me imaginava como escritor de literatura infantil. No entanto, a partir de uma conversa com os editores da Studio Plural Editora e do contato com algumas obras que abordam essa temática, percebi que poderia ser um caminho para fortalecer a educação antirracista. Seria uma busca pela autoestima e por uma identidade positiva da negritude. Para alcançar esse objetivo, o adinkra Sankofa com sua ideia de retornar ao passado para construir o futuro se encaixou perfeitamente.
O livro parte de uma pergunta simples — “Quem são nossos ancestrais?” — para abordar temas profundos. Como foi o processo de traduzir esses conceitos para o universo infantil?
Muito difícil, confesso. Em minha trajetória profissional, trabalhei especialmente com o Ensino Médio, então precisei passar por um processo de adequação de linguagem e de estudo de conteúdos e narrativas alinhadas ao universo infantil e juvenil. Nesse sentido, a pesquisa e curadoria de livros afrocentrados foram essenciais para construir essa aprendizagem. Por outro lado, a pergunta que norteou o livro veio das minhas próprias dúvidas e angústias de infância. O exercício de olhar para dentro e retomar sentimentos e reflexões que fiz ao longo da vida foi fundamental para “conversar” com o universo infantil.
De que forma a sua trajetória como educador e diretor escolar influenciou a construção da narrativa e das mensagens do livro?
Em todos os sentidos. Ao longo da minha trajetória na educação básica, pude vivenciar como as culturas africana e afro-brasileira estão apagadas na BNCC e nos materiais didáticos. Dessa forma, o livro não apresenta apenas protagonismo negro em seus personagens; ele é permeado de uma ambiência de saberes afrocentrados.
A obra dialoga diretamente com a Lei 10.639/03. Qual a importância de levar essa discussão para dentro das escolas por meio da literatura?
Levar essa discussão para o ambiente escolar é fundamental, pois a Lei 10.639/03 não trata apenas de incluir novos conteúdos, propõe também uma revisão das lentes pelas quais olhamos a história e a identidade brasileira. A literatura é um caminho potente para isso: ela sensibiliza, aproxima e convida à reflexão. Em Biu e o Caminho de Sankofa, a ancestralidade é apresentada de forma afetiva e acessível, ajudando as crianças a reconhecerem que as histórias africanas e afro-brasileiras trazem resistência, sabedoria e beleza. Pela força da narrativa, o leitor compreende que a cultura africana está viva em nossa língua, culinária, religiosidade e modos de ser e que conhecê-la é reparar um apagamento histórico.
O personagem Biu descobre as raízes quilombolas da família. Há elementos autobiográficos ou inspirados em histórias reais?
Há muitos elementos autobiográficos na obra. O nome do protagonista, por exemplo, é o apelido do meu pai, e várias características da avó remetem tanto à minha tia quanto à minha própria avó. Sobre a origem quilombola, minha avó materna nasceu na zona rural do interior da Bahia e, ainda jovem, migrou para Salvador e depois para o Rio de Janeiro. Embora nunca tenha ouvido dela o termo “quilombola” e nem saiba se ela conhecia plenamente seu significado, a forma como descrevia seu local de nascimento e sua juventude, parece profundamente ligado a uma comunidade quilombola.
O livro tem forte potencial pedagógico. Você já planeja ações ou projetos de leitura em escolas e instituições?
Sim, planejo. Há inclusive uma negociação em andamento para que o livro seja usado na escola de formação de professores do Estado do Rio de Janeiro. Ainda assim, preciso refletir mais e desenvolver outros projetos vinculados à obra.
A infância é um espaço de formação de identidade. Quais valores ou sentimentos você espera despertar nos leitores com essa história?
O livro busca despertar sentimentos de orgulho, pertencimento e curiosidade. Ao acompanhar a descoberta de Biu sobre suas origens, o leitor especialmente as crianças negras é convidado a se reconhecer como herdeiro de uma história potente e coletiva. Já as crianças não negras são levadas a refletir sobre estereótipos e aprender a valorizar a diversidade como uma verdadeira riqueza.
O termo “educação antirracista” tem ganhado destaque no debate público. Como o livro pode contribuir para transformar o ambiente escolar nesse sentido?
Ele é uma ferramenta de educação antirracista porque amplia o repertório simbólico e emocional da escola. Convida educadores e estudantes a dialogarem sobre ancestralidade, negritude e identidade sem medo, com afeto e rigor histórico. Inspirado em princípios afrocentrados como a circularidade, a coletividade e a valorização da oralidade, contribui para repensar práticas pedagógicas ainda marcadas por uma visão eurocêntrica de mundo.
Na sua visão, quais são os maiores desafios hoje para promover diversidade e inclusão nas práticas educacionais brasileiras?
Os desafios são gigantescos. Começam pela formação dos professores, em que a grande parte dos educadores possui pouco conhecimento sobre a educação das relações étnico-raciais e sobre o próprio letramento racial. Passando pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ainda fortemente marcada por saberes e práticas eurocêntricas, que anulam as contribuições africanas e indígenas. Quando olhamos o território escolar a maioria dos professores e gestores escolares é branca, assim como os personagens inseridos nos livros didáticos. Por fim, chega ao racismo estrutural que sustenta narrativas racistas e práticas de discriminatórias dentro da escola. Ou seja, é preciso repensar diferentes camadas da instituição escolar para construir, de fato, uma educação que valorize a diversidade e inclusão.
Por fim, o que representa para você lançar “Biu e o Caminho de Sankofa” justamente no mês da Consciência Negra?
Lançar Biu e o Caminho de Sankofa no mês da Consciência Negra é um gesto profundamente simbólico e político. Esse é um período em que o país se volta ainda que por alguns dias para refletir sobre a história, as lutas e as contribuições do povo negro, mas também sobre o quanto ainda precisamos avançar. Apresentar um livro infantil nesse contexto é afirmar que a luta antirracista também se constrói com ternura, imaginação e futuro. É dizer às crianças que nossas histórias não começam na dor, mas na sabedoria dos que vieram antes e que conhecer essa trajetória é um ato de amor e de liberdade.


