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Entrevista: Gil Monteiro: cantor cristão e escritor

Entrevista: Gil Monteiro: cantor cristão e escritor

1. Gil, como foi sua jornada dentro da igreja católica como cantor e compositor, e como essa experiência influenciou a sua música?

Eu comecei tocando violão e cantando na igreja da cidade onde eu morava, na região metropolitana de Curitiba. Até que em 2003 me mudei pro estado de São Paulo pra integrar uma banda (Ministério Adoração e Vida) que já tinha um trabalho bem consolidado no meio gospel/católico. A partir daí a música deixa de ser hobby e passa a ser profissão. Foi junto desse grupo que aprendi a compor. E por consequência, minha musicalidade acabou focada em temas espirituais e cristãos.

2. Em junho de 2022, você decidiu tornar pública a sua orientação sexual e o seu casamento homoafetivo. Como foi tomar essa decisão e como impactou a sua vida pessoal e profissional?

Esse foi o último armário que faltava eu sair. Minha família e amigos próximos já sabiam do meu casamento. Mas o público que acompanhava o cantor Gil Monteiro não sabia. Manter minha vida privada, em especial meu casamento, dentro do armário estava fazendo muito mal pra mim e pra nossa relação. De forma muito programada eu compus novas músicas a respeito do tema e então tornei pública minha orientação sexual e casamento. Esse anúncio deixou mais leve minha vida pessoal, mas também foi a minha saída do meio musical onde eu estava inserido, com shows cancelados e mais nenhum convite semelhante aos que enchiam minha agenda dias antes.

3. No livro, você aborda a invisibilidade que muitos LGBTs enfrentam em ambientes religiosos. Como você lidou com essa invisibilidade durante sua carreira na igreja e na engenharia civil?

No meio da engenharia, sempre fui muito impessoal, eu simplesmente não falava da minha vida pessoal com ninguém. No meio musical cristão, eu retirava a aliança da minha mão quando ia pra algum evento. Eu me esquivava de perguntas sobre relacionamentos. E se me perguntassem meu estado civil, eu dizia que era solteiro. Essa invisibilidade é muito nociva, porque machuca aos poucos, e quando eu me dei conta, negar quem eu era, negar meu próprio marido, causou feridas que levou tempo pra fechar.

4. Além de sua carreira musical, você é engenheiro civil. Como conciliou a dualidade entre essas duas áreas, especialmente considerando a postura conservadora em alguns setores da sociedade?

Eu sou uma pessoa muito ativa, fazendo e pensando em várias coisas ao mesmo tempo. Conciliar música e engenharia não foi difícil. Eu deixava os eventos de música para os fins de semana. Quando meu namoro com meu atual marido engrenou, precisei mudar um pouco meus fins de semana, pra focar na relação também. Depois que tornei tudo público, foi interessante perceber que nada mudou no meio da engenharia. Colegas me procuraram pra conversar sobre o

tema, mas sempre numa perspectiva positiva. Vida seguiu normal! 

5. Seu episódio de se assumir gay teve uma repercussão nacional. Como você lida com os desafios enfrentados, como haters e cancelamentos, enquanto continua a expressar sua identidade por meio da música e da engenharia?

Não entro em discussões com haters, porque a arena pública das redes sociais é péssima pra isso e não ajuda em nada. Ignoro alguns, bloqueio outros, e tenho um advogado para o caso de alguma interação ser qualificada como crime de homofobia. Mas segui lançando novas músicas, publicações e reflexões nas redes sociais, e agora meu primeiro livro. Eu enfrento o ódio e a ignorância mostrando um pouco da minha vida, transformando a vergonha em orgulho se ser quem sou e amar como eu amo.

6. Você mencionou a oportunidade de construir diálogos e pontes após seu anúncio. Como isso se manifestou em sua vida e carreira, especialmente nos meios conservadores do mundo cristão e da engenharia?

Por meio de muita conversa! Conservar coisas boas é saudável, mas uma mente que não se abre ao questionamento e possibilidades conserva a dor, e espalha essa dor na vida de muitos. Tanto no meio religioso como no profissional, vivi experiências maravilhosas de ver pensamentos transformados a partir de pontos de vista que pude trazer pra alguns. Isso é criar pontes, porque a pessoa que mudou seu jeito de pensar vai contar isso pra outros, e as boas notícias podem se tornar contagiantes.

7. Escrever “Será que ele é?” parece ter sido um processo emocional. Como foi revisitar essas partes de sua história e como espera que o livro impacte os leitores?

Foi terapêutico. Um exemplo disso, é um dos capítulos onde menciono um abuso pelo qual passei quando eu já era adulto. Eu nunca havia percebido aqueles fatos como abuso, mas ao escrever e ler o que saiu do meu coração, entendi completamente a situação, pude dar nome, e ressignificar o que passei. Outra memória interessante foi revisitar um breve relacionamento que tive com um padre. Isso me fez querer trazer um pouco de luz e questionamentos a respeito do clero católico que não lida direito com a sexualidade dos próprios padres. Me deu orgulho ver minha trajetória! Espero que os leitores LGBT+ possam se identificar nos desafios que são tão semelhantes, e que acima de tudo, gere esperança de romper com a invisibilidade e dor que o armário traz pra essas vidas.

8. No livro, você expressa desejos aos leitores heterossexuais. Pode compartilhar um pouco mais sobre as expectativas e esperanças que tem para essa parte do público?

O público LGBT+ precisa de aliados. Os heterossexuais são considerados os “normais” pela sociedade e religião de forma geral. Se esse grupo de pessoas puder entender que a diversidade sexual é o que a há mais normal na vida humana, certamente eles serão pessoas que automaticamente irão combater e reprimir qualquer manifestação LGBTfóbica onde estiverem.

9. Junho é o mês do orgulho LGBTQIAP+. Como você enxerga a importância desse mês e como acha que as pessoas podem contribuir para a celebração e aceitação?

Durante a maior parte do tempo, as pessoas LGBTQIAP+ foram subjugadas pela sociedade, como se fosse vergonhoso ser quem são e viver como vivem. O mês de junho é relevante pra relembrar os avanços desse grupo, seja por meio de leis igualitárias, seja por meio de reformulações médicas e das áreas de psicologia, porque as muitas lutas que tantos viveram ao longo dos anos sempre foram pra transformar a vergonha em orgulho, e isso precisa ser lembrando constantemente em nossa sociedade. Mais do que lembrado, celebrado!

10. Agora, como escritor, músico e engenheiro, quais são seus planos e aspirações para o futuro, tanto na sua carreira profissional quanto na vida pessoal?

Quero que meu livro venda bastante (rsrsrs), mas principalmente que ele cumpra o objetivo de gerar identificação e esperança nas pessoas com histórias parecidas. Espero poder fazer alguns eventos de lançamento do livro em algumas cidades onde houver viabilidade. E ainda nesse primeiro semestre tem lançamento de música nova.

11. Como você responde às críticas vindas de setores religiosos sobre sua orientação sexual e suas expressões artísticas?

Que Deus me criou propositalmente como um homem gay, que eu não sou um erro, e que minha forma de amar não é melhor nem pior que alguma outra. E justamente porque fui criado dessa forma, e sou quem eu sou, nada melhor do que viver plenamente todos os aspectos da minha vida. 

12. Durante os anos em que se manteve em segredo, como lidava com os conflitos internos entre sua identidade e as expectativas da sociedade e da religião?

Foi pesado… Tive momentos de depressão e crises. O impulso de vida que se enterra ou esconde num armário não deixa de existir. Asfixiar a vida abalou muito meu psicológico. Mas pude encontrar na terapia um caminho pra descontruir esses padrões e resolver esses conflitos. Primeiramente me aceitar, me perceber como alguém digno. E na sequência encarar os desafios na família, com os amigos, no trabalho e na religião.

13. A exposição de sua sexualidade provocou mudanças em sua fé e espiritualidade? Como você reconcilia sua identidade com suas crenças religiosas?

Sim. Eu aprendi a me relacionar com um Deus paternalista e patriarcal durante boa parte da minha vida, que me beneficiaria se eu fizesse coisas boas e que me puniria se eu não o agradasse. Ao desconstruir tudo isso, descobri um Deus amoroso e diverso que me criou tal como sou, e mais que isso, que ele nunca teve as rédeas da minha vida, eu sou responsável pelas minhas escolhas e pelas consequências delas, sejam boas ou ruins. A reconciliação com Deus veio principalmente ao me aceitar. “Mas e a bíblia, e a doutrina?”, muitos me perguntam… Não sou especialista nisso, mas busquei pessoas que são, e compreendi que deliberadamente as lideranças do cristianismo preferiram fazer suas interpretações e criar suas doutrinas, se apegando de maneira cega, destruindo muitas vidas ao longo do caminho. Eu já superei essa discussões bíblicas (rsrsrs), a igreja institucional é que agora precisa compreender que posições retrógradas e mal interpretadas podem ser questionadas, e deveriam ser mudadas.

14. Entre seus mais de 2 milhões de plays em 2023, há algum momento específico que considera marcante e que o tenha impactado profundamente?

Eu esperava que meus streamings e visualizações diminuíssem em 2023, depois de tudo que passei, mas o que eu vi foi o contrário: os números aumentaram. Embora eu não possa mais estar cantando nos locais de fé pessoalmente, a minha obra continua sendo ouvida e cantada, e o mais importante: Deus sabia que eu era gay quando eu escrevi aquelas músicas e gravei cada uma delas.

15. Como engenheiro civil e músico, há alguma semelhança entre as duas áreas que você identifica como surpreendente?

Muitas! A razão: a matemática nos cálculos de projetos é a mesma que está escondida na formação dos acordes que ouvimos nas harmonias e melodias que ouvimos em cada canção. E porque não, a emoção: a música desperta sentimentos, e na engenharia construir e remodelar espaços para pessoas viverem e trabalharem gera emoção. Lembro que fiquei emocionado ao passar pelo caixa de supermercado e prestar atenção no rótulo de papel higiênico que estava comprando, porque aquele produto havia sido fabricado por pessoas que trabalhavam dentro de um prédio eu ajudei a construir… Sim, sou emotivo!

16.Como o prefácio do ator Carmo Dalla Vecchia, seu amigo, influenciou o conteúdo e o tom do livro “Será que ele é?”?

Na verdade foi o oposto… pra minha supresa, o Carmo teve experiências muito parecidas com as minhas ao longo da vida, e isso ele deixa bem claro logo no começo do prefácio. Ter a participação dele no meu livro só confirmou a minha intenção inicial de gerar identificação no leitor e criar pontes pra mudança de consciência.

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