ANALU: Um talento que desafia o crítico mais desconfiado

ANALU: Um talento que desafia o crítico mais desconfiado

Jornalistas musicais são, por princípio, seres desconfiados. Principalmente quando se deparam com casos como os de Analu Sampaio. Nascida em Vitória da Conquista, a cantora e compositora de apenas dezesseis anos chega ao primeiro disco –que leva o seu primeiro nome– sob os louros de grandes nomes da música brasileira. Roberto Menescal, nome da primeira geração da bossa nova, a elegeu como “uma das melhores e mais fortes coisas que aconteceram na área artística nesses últimos anos”. O compositor e pianista Ivan Lins, um dos mais respeitados no cenário nacional, classificou Analu como “diamante vocal que vem sendo lapidado, menina com musicalidade incomum”. Rosa Passos, uma das maiores musicistas e intérpretes brasileiras em todos os tempos, ressaltou a maneira que a cantora divide as notas e sua maturidade vocal. “Me vejo muito nela quando tinha a sua idade”, decretou Rosa.

Jornalistas musicais também são, por princípio, curiosos. E os que se propuserem a escutar Analu, disco de estreia da cantora (a sua discografia inicial era composta por um single aqui, outro acolá) irão se deparar com uma cantora pronta, que se alterna entre o samba, o jazz, o bolero e a bossa nova e não se deixa intimidar diante dos melhores músicos do mercado. A começar pelo próprio Menescal, referência máxima do bom gosto, o baixista Fi Maróstica (que tocou ao lado de Mônica Salmaso, Fabiana Cozza e aqui pilota não apenas o baixo como a produção e a direção musical), o tecladista Ivan de Castro, o pianista e tecladista Fábio Leandro, o guitarrista Danilo Silva e os percussionistas Guegué Medeiros e Danilo Moura.

Jornalistas musicais ainda possuem, por princípio, um ímpeto escavador de um Indiana Jones. Então, quem é Analu Sampaio? De onde surgiu essa menina que tem impressionado alguns dos maiores nomes da música brasileira? Analu é baiana e desde os três anos sabe que nasceu para ser cantora. Tinha cinco anos quando participou do programa de calouros de Raul Gil (um descobridor de talentos nato) e surpreendeu o público e jurados ao cantar –com scat singing e tudo– Águas de Março, de Tom Jobim, eternizada no disco que ele e Elis Regina gravaram juntos em 1974. Em 2020, foi a vez de concorrer na edição Kids do programa The Voice, da Rede Globo. Analu não ganhou o prêmio principal, mas conquistou o público ao interpretar versões de Upa Neguinho, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, e Madalena, de Ivan Lins e Ronaldo Ribeiro –as duas eternizadas em gravação por Elis Regina. Decidida, em 2023, plantou-se no escritório do empresário do showbiz Felipe Simas (o mesmo de Anavitória, Manu Gavassi e Lucas Mamede) e o convenceu a abraçar seu projeto musical. O álbum Analu, que acaba de chegar às plataformas de streaming, é o primeiro resultado dessa parceria.

Jornalistas musicais são, por princípio, fascinados por… música boa, ora bolas. O que há de sobra nas onze canções do álbum. Uma das qualidades que mais se destacam no trabalho é que Analu sente o que canta, ou seja, não é uma repetidora de trejeitos ou se preocupa em acertar a nota, em detrimento da emoção. O fato de ser autora de todas as letras ajuda na hora da interpretação. Mesmo quando os temas de certas músicas possam ser mais, digamos, adultos, ela se sai muito bem –vide Gota, onde ela imagina uma gota de suor passeando pelo corpo de uma mulher na praia de Copacabana. A influência do jazz é predominante nas onze canções do álbum. Às vezes em formato mais direto, como a faixa de abertura, Minúcia, Área Restrita (sobre a crise no relacionamento de um amigo de seus pais e com direito a um belo solo de guitarra de Danilo Silva) e Samba sem Refrão, onde arrisca improvisos vocais dignos de uma Joyce.

Gota, com participação de Roberto Menescal, é uma espécie de bolero bossa, abrilhantado pelo clarinete de Alexandre Ribeiro. Oásis (Coisas de Alma) e Bagunça –com solo de trombone de Allan Abadia– remetem à música de Djavan, outro artista da MPB que tem laços estreitos com o jazz. A banda, aliás, quebra tudo. Mané tem solo do saxofonista Jota Pe e um belo duelo do baixo de Fi Maróstica com a bateria de Ivan de Castro. O piano e o piano Rhodes de

Fábio Leandro se destacam em Chuva e Sinestesia. Outras belezas são desvendadas a cada audição –que se torna um ato constante dada à qualidade da produção. Jornalistas musicais, por princípio, reconhecem quando se deparam com um trabalho de qualidade. O disco de estreia de Analu é a promessa de que uma grande história está para ser escrita.

Sérgio Martins, 57 anos, é jornalista e crítico musical.

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