Entrevista: Gabriel Boizinho, cantor, compositor, produtor musical e multi-instrumentista 

Entrevista: Gabriel Boizinho, cantor, compositor, produtor musical e multi-instrumentista 

1. Gabriel, após anos de sucesso com a banda Cachorro Grande, o que te motivou a embarcar em um projeto solo agora?

O desejo de lançar um disco solo já vem de muitos anos, algo tipo 15 anos. Eu tenho muito material demo tocando todos instrumentos. Sem pretensão, comecei a juntar este material e escutava como se fosse um disco. . A partir daí, foram pelo menos 5 tentativas de gravação em diferentes estúdios, mas não encontrava a sonoridade que eu idealizava. E foi durante a pandemia em uma garagem e com equipamentos limitados que eu consegui encontrar o som. Gravei e gravei várias vezes por conta do tempo que estava sobrando e até precisei estabelecer um prazo de conclusão que foi estendido por pelo menos três vezes. Talvez eu estivesse gravando até hoje se não fosse essa data.

2. Como foi a transição de músico de uma banda renomada para um artista solo? Quais foram os principais desafios?

Está sendo, ainda. A turnê ainda não começou, fiz apenas o lançamento do primeiro single “Não Consigo” em novembro de 2023. Como não sou capaz de facilitar as coisas, escolhi um lugar em que eu não era conhecido e também não conhecia ninguém para fazer um show: Portugal. Foi um teste de fogo mas no fim deu tudo certo. 

Então até agora, o desafio está sendo começar do zero. É  uma nova carreira. Antes eu fazia parte de uma banda, e agora eu sou a banda. Sempre toquei guitarra, mas estar na linha de frente do palco, tocando e cantando, é bem diferente de estar na bateria, parece outra zona do cérebro. 

Mas confesso que o maior desafio foi encontrar músicos que soassem como eu queria, mas depois de algumas trocas, acredito que encontrei. É um pessoal jovem e talentoso. 

3. Você mencionou que NÃO PISE NOS SONHOS é um álbum conceitual, inspirado em suas experiências pessoais. Poderia compartilhar conosco como essas experiências moldaram sua jornada musical?

A música sempre foi pra mim um meio de externalizar os sentimentos, sejam eles bons ou ruins. É uma válvula de escape. Portanto alguns eventos como fim de relacionamento, mudanças drásticas e até grandes shows, tiveram grande influência nas minhas criações, e por serem tão carregadas de emoções se tornam muito verdadeiras e cheias de energia. Esse disco é um apanhado dessas emoções que tive ao longo da vida. 

4. Gabriel, em “Não Pise nos Sonhos”, você faz uso de instrumentos recicláveis e não convencionais. Alguns críticos argumentam que isso pode prejudicar a qualidade sonora. Como você responde a essas críticas?

De fato, esse tipo de instrumento dá um certo trabalho na captação, mas o disco não teria saído se dependesse de convencionalidades. “Padrões” são reativos, que é o oposto da arte de criar.  Não se deve confundir sonoridade com qualidade sonora. Eu usei equipamentos básicos e grande parte estava com alto nível de ruído, tive que rebolar na mixagem. Se o disco fosse analisado por um engenheiro de som na fase de captação certamente teria sido reprovado. 

Portanto, pra mim, o que importa é o resultado final, fazer sentido com o que você quer da obra.. Às vezes vai ser com um baixo de material reciclado, e às vezes pode ser com uma Gibson Lespaul. 

5. O álbum aborda temas como o fim de relacionamentos, possessividade e autoajuda. Como você equilibra a exposição de questões pessoais com a necessidade de criar uma narrativa universal para os ouvintes?

Eu não tenho problemas em falar sobre isso, foi justamente fazendo música que consegui resolver essas questões. Algumas pessoas vão se identificar com elas, outras não.  Nem Jesus Cristo é universal.

6. Há referências explícitas a outras bandas e artistas em suas músicas. Alguns fãs e críticos veem isso como uma homenagem, enquanto outros veem como falta de originalidade. Como você interpreta essas opiniões divergentes?

Eu acho que só a primeira nota feita no mundo é totalmente original, de resto, tudo é referência ou inspiração, mesmo que você nem saiba de onde vem.

O artista é reconhecido a partir da sua identidade, e essa identidade é criada  a partir de referências que também vem de outras referências. 

Para mim, a música é feita para ser ouvida e sentida. Esse estudo sobre originalidade faz parte de outra área, a qual eu respeito, mas não me afeta.

7. Gabriel, durante a gravação de “Cream do Inferno”, você mencionou ter usado equipamentos improvisados. Alguma vez algo inusitado aconteceu durante uma gravação que você gostaria de compartilhar conosco?

Uma vez acopla uma palheta em uma furadeira para tocar guitarra. Ao aproximar a furadeira da guitarra veio um ruído que era o som da bobina da furadeira passando pelo captador. No fim desisti da palheta e usei apenas esse som, depois descobri que o Van Halley ja tinha usado isso, achei muito interessante.

Aconteceram outras duas situações inusitadas: a primeira delas foi o polvo. Eu estava carregando a mangueira para o lixo e levei um susto quando ela caiu no chão, pois eu não entendia de onde vinha aquele som típico de música eletrônica. A outra foi quando eu entrei no banheiro na casa da minha namorada e ouvi um grito, que na verdade era um rangido de uma porta. Os dois sons foram captados e mais tarde utilizados em gravações.

8. Entre as faixas do álbum, você incluiu uma instrumental chamada “Super Ultra Mega Drums”, com seis baterias. Isso parece incrível! Como foi o processo de gravação dessa faixa?

Foi muito na intuição, fiz ela sem guia nenhuma.

O primeiro take fiz um groove simples e sem contar os compassos, botei o groove no reverse e gravei mais um groove junto, depois improvisei uma linha de baixo e acompanhei com a guitarra. O resto é só perfumaria, como gosto de chamar os elementos usados pra enriquecer uma sonoridade

9. Você mencionou ter utilizado um “polvo”, um instrumento feito de mangueiras de plástico, em algumas músicas. Como surgiu a ideia desse instrumento peculiar e como ele contribui para a sonoridade do álbum?

Como eu contei acima, ele nasceu sem querer,  ele tem um som quase eletrônico, eu tento usar em tudo, mas o som é muito peculiar e nem sempre se encaixa com a música, mas quando encaixa fica muito legal.

marramaqueadmin

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